A Casa de Shamai diz: a apresentação vale duas moedas de prata, e a chagigá vale uma moeda de prata. E a Casa de Hilel diz: a apresentação vale uma moeda de prata, e a chagigá vale duas moedas de prata. — Quem se apresenta no Templo na festa deve trazer uma oferenda de ascensão, a olat re’iyá, e também uma oferenda de paz da festa, a chagigá — mas a Torá não fixou um valor mínimo para nenhuma delas, deixando a quantia ao critério de cada um. Os Sábios, porém, estabeleceram um piso mínimo abaixo do qual ninguém poderia trazer essas oferendas, e é sobre esse piso que Beit Shamai e Beit Hilel discordam: Beit Shamai valoriza mais a oferenda de ascensão, que é inteiramente consumida no altar e pertence só a Deus, fixando-a em duas moedas de prata contra apenas uma da chagigá; Beit Hilel, cuja opinião prevalece, valoriza mais a chagigá, pois a oferenda de paz é repartida entre o altar, os sacerdotes e os próprios donos, tendo por isso mais partes interessadas e merecendo o valor maior de duas moedas de prata.
A exigência de não se apresentar “de mãos vazias” é a fonte da obrigação de trazer uma oferenda ao subir ao Templo — e é justamente por a Torá não ter fixado seu valor que os Sábios precisaram estabelecer um piso mínimo, tema central desta mishná. A mesma raiz verbal — “ver” e “ser visto” — que dá nome à mitzvá de re’iyá aparece nesse versículo: quem vem para ver a Presença Divina no Templo não pode vir sem também trazer consigo uma oferenda visível, por menor que seja.
Rambam detalha o peso exato de cada valor em grãos de cevada e explica o raciocínio por trás da disputa.
Bartenura converte os valores em pesos exatos de prata pura; Rashi, na abertura da Guemará, resume os mesmos termos e remete à fonte da chagigá mais adiante no tratado.
Rambam identifica a fonte da olat re’iyá no versículo “não se apresentarão perante mim de mãos vazias”, explicando que essa oferenda é chamada apenas de re’iyá por abreviação. Ele resume a lógica da disputa: para Beit Shamai, a oferenda que é toda para Deus — a olá — merece o valor maior; para Beit Hilel, a oferenda repartida em três — Altar, sacerdotes e donos — merece o valor maior, precisamente por servir a mais interessados.
Bartenura precisa o peso exato: duas moedas de prata equivalem a sessenta e dois grãos de cevada de prata pura. Ele explica que a chagigá recebe esse nome porque a Torá ordena “celebrareis essa festa para o Senhor”, entendendo-se como a obrigação de trazer oferendas de paz da festa. Bartenura nota ainda que, embora a Torá não tenha fixado limite algum para essas oferendas — cada um traz “segundo o presente de sua mão” — os Sábios impuseram esse piso mínimo para que ninguém viesse com as mãos vazias na prática.
Rashi confirma que duas moedas de prata equivalem a um terço de dinar e explica que, embora a Torá não tenha estabelecido nenhum valor formal para essas oferendas, foram os Sábios que instituíram esse piso mínimo. Sobre a chagigá, Rashi remete ao final do capítulo, onde a Guemará deriva da expressão “celebrareis essa festa para o Senhor” a obrigação de todo indivíduo trazer oferendas de paz na festa.