1 Beit Shamai dizem: Lava-se as mãos, e depois mistura-se a taça.
2 E Beit Hilel dizem: Mistura-se a taça, e depois lava-se as mãos.
Esta disputa é puramente rabínico-procedural — funda-se inteiramente nas leis de pureza ritual instituídas pelos Sábios em torno de líquidos e utensílios, sem um versículo próprio que a determine. A Guemará explica que o fundamento remoto de toda a lavagem das mãos antes de comer está na obrigação geral de tratar com santidade aquilo que se consome — a mesma raiz de onde nasce, em geral, o cuidado com a pureza à mesa.
Por que esta Mishná gira em torno deste versículo, e não de um mandamento explícito. Ao contrário da maioria das Mishnayot deste tratado, esta disputa não decorre de um versículo específico, mas de uma construção inteiramente rabínica: as leis de pureza e impureza aplicadas a líquidos e vasilhas, e a preocupação de que a água que permanece nas mãos molhadas, ou nas costas da taça, transmita impureza aos líquidos e destes aos alimentos. Beit Shamai temem que, se a taça for misturada antes da lavagem, as mãos ainda impuras contaminem a água que ali ficar; Beit Hilel temem o oposto — que, lavando primeiro, as mãos molhadas toquem as costas da taça e a contaminem. Ambas as posições, portanto, buscam a aplicação mais cuidadosa possível do princípio geral de "vos santificareis" — o zelo redobrado com a pureza daquilo que se aproxima da boca do homem, ainda que a norma específica de lavar as mãos antes do pão seja, ela própria, decreto dos Sábios.
Como esta Mishná foi codificada em lei prática — a halachá, na prática costumeira, segue lavar as mãos antes de misturar a taça e fazer o Kidush.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
"Beit Shamai dizem: lava-se as mãos, e depois mistura-se a taça...": Beit Hilel dizem que não se lavam as mãos até que se encha a taça da bênção, para que não se contaminem as costas da taça por líquidos impuros [pelas mãos ainda não lavadas]... E a opinião de Beit Shamai é que uma taça nessas condições é proibida para uso; e Beit Shamai exigem a lavagem das mãos antes do Kidush, para que não estejam as mãos impuras e contaminem os líquidos que ficarem nas costas da taça.
E o princípio fundamental nestas questões todas — isto é, na impureza das mãos e na impureza dos líquidos, como se contaminam os utensílios apenas pelas costas, e como se contaminam os líquidos sem que se contamine o homem — não se pode explicar aqui, pois demandaria mais de dez páginas; mas tudo se esclarecerá em seu lugar, no tratado de Tahorot, Para, Mikvaot, Yadaim e Tevul Yom.
"Beit Shamai dizem: lava-se as mãos, e depois mistura-se a taça": Pois, se dissesses que primeiro se mistura a taça, haveria o decreto [preventivo] de que os líquidos que caírem nas costas da taça se contaminem por causa das mãos [ainda não lavadas] — já que as mãos, antes da lavagem, têm o estatuto de "segundo grau" de impureza, e contaminam os líquidos tornando-os "primeiro grau"; e esses líquidos voltariam a contaminar as costas da taça...
E Beit Hilel entendem que não há proibição em usar um utensílio cujas costas estão impuras; por isso, misturam a taça primeiro, bebem, e só depois lavam as mãos — para que, se lavassem as mãos primeiro, e as costas da taça estivessem impuras [por outro motivo], e as mãos não estivessem bem enxutas, os líquidos das mãos se contaminassem pelas costas da taça e voltassem a contaminar as mãos, resultando em comer com as mãos impuras.
"E depois mistura-se a taça" — trata-se do vinho que vem antes da refeição, como dissemos no capítulo "Como se abençoa" (Berachot 43a): reclinaram-se [para a refeição]; ainda que já tenham lavado as mãos, trouxeram-lhes vinho — e Beit Shamai dizem que se lavam as mãos e depois bebem a taça, e comem a sua refeição com essa mesma lavagem; e Beit Hilel dizem que se mistura a taça e se bebe, e só depois se lavam as mãos — e a razão de ambas as opiniões se explica na Guemará.