Seder Zeraim · Massechet Berachot · Perek Vav · Mishná 3

"Sobre o que não cresce da terra"

עַל דָּבָר שֶׁאֵין גִּדּוּלוֹ מִן הָאָרֶץ אוֹמֵר שֶׁהַכֹּל
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A bênção shehacol e a opinião de Rabi Yehudá sobre o "tipo de maldição"

1 Sobre uma coisa cujo crescimento não é da terra, diz-se "shehacol".

2 Sobre o vinagre, e sobre as novelot (frutos caídos antes de amadurecer), e sobre os gafanhotos, diz-se "shehacol".

3 Sobre o leite, e sobre o queijo, e sobre os ovos, diz-se "shehacol".

4 Rabi Yehudá diz: sobre tudo que é uma espécie de maldição, não se abençoa.

עַל דָּבָר שֶׁאֵין גִּדּוּלוֹ מִן הָאָרֶץ אוֹמֵר שֶׁהַכֹּל. עַל הַחֹמֶץ וְעַל הַנּוֹבְלוֹת וְעַל הַגּוֹבַאי אוֹמֵר שֶׁהַכֹּל. עַל הֶחָלָב וְעַל הַגְּבִינָה וְעַל הַבֵּיצִים אוֹמֵר שֶׁהַכֹּל. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, כָּל שֶׁהוּא מִין קְלָלָה אֵין מְבָרְכִין עָלָיו:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A opinião de Rabi Yehudá sobre "espécie de maldição" ecoa diretamente a passagem da Torá em que o profeta Yoel descreve a praga de gafanhotos como um castigo — a mesma raiz da qual as novelot (frutos que caem antes de amadurecer) e o gafanhoto derivam sua classificação.

Yoel (Joel) 1:4
יֶתֶר הַגָּזָם אָכַל הָאַרְבֶּה וְיֶתֶר הָאַרְבֶּה אָכַל הַיָּלֶק וְיֶתֶר הַיֶּלֶק אָכַל הֶחָסִיל
"O resto da lagarta comeu o gafanhoto, e o resto do gafanhoto comeu a larva, e o resto da larva comeu a locusta."

Por que esta Mishná gira em torno deste versículo. A Guemará (Berachot 40b–41a) explica a opinião de Rabi Yehudá — segundo a qual não se abençoa sobre alimentos que sejam "espécie de maldição" — ligando as novelot (frutos que caem verdes, antes de amadurecer) e o gafanhoto a fenômenos que a Torá e os profetas descrevem como sinais de juízo ou perda, e não como a bênção natural da terra em sua plenitude. O gafanhoto, em particular, é a praga clássica mencionada em Shemot (a oitava praga do Egito) e retomada por Yoel como imagem de destruição agrícola. Rabi Yehudá entende que um alimento cuja existência decorre de um dano — o fruto que não chegou a amadurecer normalmente, o inseto que devora as colheitas — não é objeto próprio de uma bênção de louvor, pois a bênção celebra a bondade criadora, não a sua frustração. Os Sábios, porém, discordam: mesmo esses itens, uma vez comestíveis e permitidos, merecem "shehacol", pois também eles vieram a existir pela palavra de D'us — e é essa opinião que prevalece na halachá.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelos grandes códigos halákicos.

Shulchan Aruch · Orach Chaim 204:1
עַל דָּבָר שֶׁאֵין גִּדּוּלוֹ מִן הָאָרֶץ, כְּגוֹן בְּשַׂר בְּהֵמָה חַיָּה וְעוֹף, דָּגִים, בֵּיצִים, חָלָב, גְּבִינָה, וּפַת שֶׁעִפְּשָׁה, וְתַבְשִׁיל שֶׁנִּשְׁתַּנָּה צוּרָתוֹ וְנִתְקַלְקַל, וְנוֹבְלוֹת שֶׁהֵם תְּמָרִים שֶׁבִּשְּׁלָם וּשְׂרָפָם הַחֹם וְיָבְשׁוּ, וְעַל הַגּוֹבַאי, וְעַל הַמֶּלַח — מְבָרֵךְ שֶׁהַכֹּל.
Sobre coisa cujo crescimento não é da terra — como carne de gado, de animal selvagem e de ave, peixes, ovos, leite, queijo, pão mofado, guisado cuja aparência mudou e se estragou, novelot (que são tâmaras que o calor amadureceu e ressecou), gafanhoto, e sal — abençoa-se "shehacol".
Shulchan Aruch · Orach Chaim 204:2
עַל הַחֹמֶץ לְבַדּוֹ אֵינוֹ מְבָרֵךְ כְּלוּם, מִפְּנֵי שֶׁהוּא מַזִּיקוֹ.
Sobre o vinagre sozinho, não se abençoa nada, porque ele o prejudica (quando bebido puro).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná. Rashi não é citado aqui: não há, no daf de Guemará correspondente, um comentário direto de Rashi sobre as próprias palavras de abertura desta Mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Berachot 6:3
על דבר שאין גדולו מן הארץ אומר שהכל נהיה בדברו כו': החומץ ידוע. ונובלות הם הפירות אשר נפלו מן האילנות פגי' קודם שיתבשלו ומה שאמר רבי יהודה כל שהוא מין קללה רוצה לומר הארבה והפירות אשר נפלו קודם בשולם. ואין הלכה כרבי יהודה:

"Sobre uma coisa cujo crescimento não é da terra, diz-se 'Shehacol nihyá bidvaró'...": O vinagre é conhecido. E as "novelot" são os frutos que caem das árvores verdes, antes de amadurecerem. E o que disse Rabi Yehudá — "tudo o que é uma espécie de maldição" — quer dizer o gafanhoto e os frutos que caíram antes de amadurecer. E a halachá não segue Rabi Yehudá.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Berachot 6:3
נוֹבְלוֹת. פֵּרוֹת שֶׁנָּפְלוּ מִן הָאִילָן קֹדֶם שֶׁנִּתְבַּשְּׁלוּ כָּל צָרְכָּן: גּוֹבַאי. חֲגָבִים טְהוֹרִים: מִין קְלָלָה. נוֹבְלוֹת וְגוֹבַאי עַל יְדֵי קְלָלָה הֵן בָּאִים. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה:

"Novelot": frutos que caíram da árvore antes de amadurecerem completamente.

"Govai": gafanhotos puros.

"Espécie de maldição": as novelot e o gafanhoto vêm por meio de uma maldição. E a halachá não segue Rabi Yehudá.