Seder Zeraim · Massechet Berachot · Perek Heh · Mishná 2

"Mencionam-se as forças das chuvas na ressurreição dos mortos"

מַזְכִּירִין גְּבוּרוֹת גְּשָׁמִים בִּתְחִיַּת הַמֵּתִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Onde se inserem as três menções

1 Mencionam-se as forças das chuvas na bênção da ressurreição dos mortos,

2 e pede-se a chuva na bênção dos anos,

3 e a havdalá, na bênção "que agracia com o conhecimento".

מַזְכִּירִין גְּבוּרוֹת גְּשָׁמִים בִּתְחִיַּת הַמֵּתִים, וְשׁוֹאֲלִין הַגְּשָׁמִים בְּבִרְכַּת הַשָּׁנִים, וְהַבְדָּלָה בְּחוֹנֵן הַדָּעַת.
A controvérsia sobre o lugar da havdalá

4 Rabi Akivá diz: recita-se como uma quarta bênção à parte.

5 Rabi Eliézer diz: na bênção da gratidão.

רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, אוֹמְרָהּ בְּרָכָה רְבִיעִית בִּפְנֵי עַצְמָהּ. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, בְּהוֹדָאָה:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta Mishná não deriva de um mandamento explícito, mas fixa a estrutura da Amidá em torno de temas cuja raiz está na Torá e nos Ketuvim — o reconhecimento de que a chuva é uma das grandes forças do Eterno.

Iyov (Jó) 5:10
הַנֹּתֵן מָטָר עַל פְּנֵי אָרֶץ וְשֹׁלֵחַ מַיִם עַל פְּנֵי חוּצוֹת
"Que dá chuva sobre a face da terra, e envia águas sobre a face dos campos."

Por que esta Mishná gira em torno deste versículo. A expressão "מַשִּׁיב הָרוּחַ וּמוֹרִיד הַגֶּשֶׁם" ("que faz soprar o vento e descer a chuva"), inserida na segunda bênção da Amidá — a da ressurreição dos mortos —, não é um pedido, mas uma menção e um louvor: por isso a Mishná chama esta inserção de "forças das chuvas" (guevurot gueshamim), pois a chuva é contada entre as grandes forças do Eterno, como descreve este versículo de Jó. É justamente porque a chuva é "menção e louvor" — e não súplica — que ela se insere na bênção da ressurreição dos mortos, cujo tema também é o poder Divino sobre a vida; ao passo que o pedido concreto por chuva ("וְתֵן טַל וּמָטָר לִבְרָכָה") se insere na bênção dos anos, que trata do sustento. Já a havdalá — a distinção entre o sagrado e o profano ao término do Shabat — foi ligada pelos Sábios à bênção "que agracia o homem com o conhecimento", pois, segundo o Talmude Yerushalmi, "se não há conhecimento, de onde viria a distinção?"

Halachot · הֲלָכוֹת

Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelos grandes códigos halákicos.

Shulchan Aruch · Orach Chaim 114:1
מוֹשִׁיב הָרוּחַ וּמוֹרִיד הַגֶּשֶׁם, אוֹמְרוֹ בְּבִרְכַּת תְּחִיַּת הַמֵּתִים, שֶׁהִיא בְּרָכָה שְׁנִיָּה מִבִּרְכוֹת הָאֶמְצָעִיּוֹת שֶׁל תְּפִלַּת שְׁמוֹנֶה עֶשְׂרֵה, מִפְּנֵי שֶׁהַגְּשָׁמִים חַיִּים הֵם לָעוֹלָם כְּתִחְיַּת הַמֵּתִים.
"Que faz soprar o vento e descer a chuva" — recita-se na bênção da ressurreição dos mortos, que é a segunda das bênçãos intermediárias da oração das Dezoito Bênçãos, porque as chuvas são vida para o mundo, assim como a ressurreição dos mortos.
Shulchan Aruch · Orach Chaim 117:1-2
שׁוֹאֲלִין הַגְּשָׁמִים בְּבִרְכַּת הַשָּׁנִים. וְאֵין הַהֲלָכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא וְלֹא כְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר, אֶלָּא הַבְדָּלָה אוֹמְרָהּ בְּחוֹנֵן הַדָּעַת.
Pede-se a chuva na bênção dos anos. E a halachá não segue nem Rabi Akivá, nem Rabi Eliézer, mas sim que se recite a havdalá na bênção "que agracia com o conhecimento".

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Berachot 5:2
מזכירין גבורות גשמים בתחיית המתים כו': תחיית המתים היא אתה גבור וגבורות גשמים היא מוריד הגשם וכנו אותו במלת גבורה לגודל תועלתו וברכת השנים היא ברך עלינו ושאלה היא שאלת גשמים והיא שיאמרו בברכת ברך עלינו כו' והודיה היא הברכה השמנה עשרה והיא מודים אנחנו לך וכו' ואין הלכה כרבי עקיבא ולא כרבי אליעזר:

"Mencionam-se as forças das chuvas na ressurreição dos mortos...": a bênção "da ressurreição dos mortos" é "Tu és forte" (Atá guibor), e "as forças das chuvas" é "que faz descer a chuva" — e a chamaram com a palavra "força" pela grandeza da sua utilidade. E a "bênção dos anos" é "abençoa sobre nós" (Barech aleinu), e o "pedido" é o pedido de chuvas, isto é, que se diga na bênção "abençoa sobre nós" etc. E "gratidão" é a décima oitava bênção, que é "agradecemos a Ti" (Modim anachnu Lach) etc. E a halachá não segue nem Rabi Akivá, nem Rabi Eliézer.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Berachot 5:2
מַזְכִּירִין גְּבוּרוֹת גְּשָׁמִים. מַשִּׁיב הָרוּחַ שֶׁאֵינוֹ לְשׁוֹן בַּקָּשָׁה אֶלָּא לְשׁוֹן הַזְכָּרָה וָשֶׁבַח. וּמִפְּנֵי שֶׁהַגְּשָׁמִים אַחַת מִגְּבוּרוֹתָיו שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, דִּכְתִיב (איוב ה) עֹשֶׂה גְדוֹלוֹת וְאֵין חֵקֶר, הַנּוֹתֵן מָטָר עַל פְּנֵי אָרֶץ, מִשּׁוּם הָכִי קָרֵי לְהוּ גְּבוּרוֹת גְּשָׁמִים: וְשׁוֹאֲלִין. וְתֵן טַל וּמָטָר לְשׁוֹן בַּקָּשָׁה: בְּבִרְכַּת הַשָּׁנִים. מִתּוֹךְ שֶׁהֵן פַּרְנָסָה קָבְעוּ שְׁאֵלָתָן בְּבִרְכַּת פַּרְנָסָה: וְהַבְדָּלָה. בְּמוֹצָאֵי שַׁבָּת: בְּחוֹנֵן הַדָּעַת. שֶׁהִיא בְּרָכָה רִאשׁוֹנָה שֶׁל חֹל. וּבַיְרוּשַׁלְמִי אָמְרוּ מִפְּנֵי מַה תִּקְּנוּ הַבְדָּלָה בְּחוֹנֵן הַדָּעַת, שֶׁאִם אֵין דֵּעָה הַבְדָּלָה מִנַּיִן. וְכֵן הֲלָכָה:

"Mencionam-se as forças das chuvas": "que faz soprar o vento" não é uma expressão de pedido, mas uma expressão de menção e louvor. E porque as chuvas são uma das forças do Santo, bendito seja, como está escrito (Jó 5): "que faz coisas grandes e insondáveis, que dá chuva sobre a face da terra" — por isso as chama de "forças das chuvas".

"E pedem-se" — "e dá orvalho e chuva" é uma expressão de pedido.

"Na bênção dos anos" — visto que são sustento, fixaram o seu pedido na bênção do sustento.

"E a havdalá" — na saída do Shabat.

"Na bênção que agracia com o conhecimento" — que é a primeira bênção dos dias comuns. E no Yerushalmi disseram: por que fixaram a havdalá na bênção "que agracia com o conhecimento"? Porque, se não há conhecimento, de onde viria a distinção? E assim é a halachá.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Berachot 33a — sobre a abertura desta Mishná
מתני' מזכירין גבורות גשמים – משיב הרוח שאינו לשון בקשה אלא לשון הזכרה ושבח: ושואלין – ותן טל ומטר לשון בקשה: והבדלה בחונן הדעת – במוצאי שבת אתה חוננתנו:

"Mencionam-se as forças das chuvas" — "que faz soprar o vento" não é uma expressão de pedido, mas uma expressão de menção e louvor.

"E pedem-se" — "e dá orvalho e chuva" é uma expressão de pedido.

"E a havdalá na bênção que agracia com o conhecimento" — na saída do Shabat, "Tu nos agraciaste" (Atá chonantanu).