Seder Kodashim · Massechet Bechorot · Perek Tet · Mishná 7 de 8

O procedimento de contagem: o curral, a abertura estreita e a vara

כֵּיצַד מְעַשְּׂרָן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Como se dizima: o curral, a contagem com a vara e os casos de dúvida

Como se dizima? Reúne-os no curral, e faz para eles uma abertura pequena, de modo que dois não possam sair juntos, e conta com a vara: um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove — e o que sai décimo, pinta-o com tinta vermelha e diz: Este é dízimo. Se não o pintou com tinta vermelha, e não os contou com a vara, ou os contou deitados ou em pé, ainda assim estão dizimados. Se tinha cem e tomou dez, [ou] dez e tomou um, isto não é dízimo. Rabi Yossi bar Rabi Yehudá diz: isto é dízimo. Se um dos já contados saltou de volta para dentro [do grupo dos não contados], todos estes ficam isentos. [Se um] dos dizimados [saltou] para dentro deles, todos pastarão até que adquiram defeito, e serão comidos com seu defeito pelos donos.

— A mishná descreve o procedimento prático exigido pelo próprio texto bíblico — “tudo o que passar sob a vara” — e depois esclarece até que ponto os detalhes desse procedimento são essenciais e até que ponto são apenas o modo ideal de executá-lo. A abertura estreita impede que dois animais saiam ao mesmo tempo, o que invalidaria a contagem sequencial; a pintura vermelha no décimo é apenas um auxílio de identificação, não uma condição de validade — por isso, mesmo sem pintar, sem usar a vara, ou contando os animais parados em vez de fazê-los passar por uma abertura, a santidade do décimo se aplica retroativamente, contanto que a contagem individual, de um a dez, tenha ocorrido. O que de fato invalida o procedimento é a ausência completa de contagem: separar dez de cem, ou um de dez, por estimativa, sem contar cada animal, não produz dízimo válido — posição que Rabi Yossi bar Rabi Yehudá contesta, comparando o dízimo do gado à teruma, que pode ser separada por cálculo mental. Por fim, a mishná trata de dois cenários de dúvida: se um animal já contado (mas ainda não o décimo) salta de volta para o grupo não contado, todo o grupo fica isento, pois nenhum deles pode ser identificado com certeza; mas se é um animal já consagrado como dízimo que salta de volta, cria-se uma dúvida de santidade que nenhum abate pode resolver — todos devem pastar até desenvolver naturalmente um defeito, quando então poderão ser comidos por seus donos.

כֵּיצַד מְעַשְּׂרָן, כּוֹנְסָן לַדִּיר וְעוֹשֶׂה לָהֶן פֶּתַח קָטָן כְּדֵי שֶׁלֹּא יִהְיוּ שְׁנַיִם יְכוֹלִין לָצֵאת כְּאַחַת, וּמוֹנֶה בַשֵּׁבֶט, אֶחָד, שְׁנַיִם, שְׁלשָׁה, אַרְבָּעָה, חֲמִשָּׁה, שִׁשָּׁה, שִׁבְעָה, שְׁמוֹנָה, תִּשְׁעָה, וְהַיוֹצֵא עֲשִׂירִי סוֹקְרוֹ בְסִקְרָא וְאוֹמֵר הֲרֵי זֶה מַעֲשֵׂר. לֹא סְקָרוֹ בְסִקְרָא וְלֹא מְנָאָם בַּשֵּׁבֶט, אוֹ שֶׁמְּנָאָם רְבוּצִים, אוֹ עוֹמְדִים, הֲרֵי אֵלּוּ מְעֻשָּׂרִים, הָיָה לוֹ מֵאָה וְנָטַל עֲשָׂרָה, עֲשָׂרָה וְנָטַל אֶחָד, אֵין זֶה מַעֲשֵׂר. רַבִּי יוֹסֵי בְּרַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, הֲרֵי זֶה מַעֲשֵׂר, קָפַץ (אֶחָד) מִן הַמְּנוּיִין לְתוֹכָן, הֲרֵי אֵלּוּ פְטוּרִין. מִן הַמְעֻשָּׂרִים לְתוֹכָן, כֻּלָּן יִרְעוּ עַד שֶׁיִּסְתָּאֲבוּ, וְיֵאָכְלוּ בְמוּמָן לַבְּעָלִים:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Bechorot 9:7
כיצד מעשרן כונסן לדיר ועושה להן פתח כו': דיר הוא מקום המוקף שמכניסין בו הצאן והבקר בשעת מעשר... וסיקרא סם ידוע לצבע אדום... אח"כ אמר אם קפץ אחד מן המנויין... הרי הן פטורין ר"ל שאינן חייבין כל מה שבדיר מעשר... ואין הלכה כר' יוסי בר' יהודה:

Rambam define o dir como o espaço cercado — por vezes de construção, por vezes apenas de canas — usado para reunir o rebanho na hora do dízimo, e a sicra como a tinta vermelha conhecida usada para marcá-lo. Esclarece que, se salta de volta um animal já contado (mas não o décimo), todo o grupo restante no curral fica isento — pois cada animal ali é agora uma dúvida entre ser o próprio que saltou (já contado, portanto isento de nova contagem) ou um animal do rebanho ainda por contar, e toda dúvida desse tipo não se sujeita ao dízimo. A lei não segue Rabi Yossi bar Rabi Yehudá.

Bartenura · Bechorot 9:7
לְדִיר. מָקוֹם מֻקָּף אֲבָנִים אוֹ קָנִים שֶׁמַּכְנִיסִים בּוֹ הַצֹּאן: הָיָה לוֹ מֵאָה וְנָטַל עֲשָׂרָה. בְּלֹא שׁוּם מִנְיָן... רַבִּי יוֹסֵי בְרַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר הֲרֵי זֶה מַעֲשֵׂר. דְּסָבַר רַבִּי יוֹסֵי כְּשֵׁם שֶׁתְּרוּמָה גְּדוֹלָה וּתְרוּמַת מַעֲשֵׂר נִטָּלִים בְּאֹמֶד וּבְמַחֲשָׁבָה... כָּךְ מַעֲשֵׂר נִטָּל בְּאֹמֶד וּבְמַחֲשָׁבָה... וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹסֵי:

Bartenura explica que a razão pela qual separar dez de cem sem contar não é dízimo válido é textual: a Torá chama o dízimo de “o décimo”, e sem contagem sequencial nenhum animal específico ganha esse título. Já Rabi Yossi bar Rabi Yehudá deriva, por comparação textual entre “dízimo” e “teruma”, que assim como a teruma pode ser separada por estimativa mental, também o dízimo do gado pode. A lei não segue Rabi Yossi. Sobre os animais que saltam de volta ao grupo não contado: cada um deles passa a ser uma dúvida — talvez seja justamente aquele que já havia sido contado e isentado —, e toda dúvida desse tipo não se sujeita a nova contagem.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Sobre a Guemará, Bechorot 59a e 60a
איתקש — בריש פירקין (לעיל בכורות נג.) ואת מעשרותיכם בשתי מעשרות הכתוב מדבר אחד מעשר בהמה וא' מעשר דגן: לא יאמר אברור עשרה — הכחושים והשאר פטורין משום דלא נשתיירו אלא חמשה דלאו בר עישורי נינהו: אלא כונסן לדיר — כולן בין כחושים בין שמנים...

Rashi recorda a comparação textual, já estabelecida no início do perek, entre o dízimo do gado e o dízimo dos grãos — base para a analogia de Rabi Yossi bar Rabi Yehudá com a teruma. E, sobre a proibição de “escolher” o dízimo, esclarece que o dono não pode separar deliberadamente apenas os dez animais mais magros como se fossem o dízimo dos demais — deve reunir todo o rebanho, magros e gordos igualmente, no curral, e deixar que a contagem natural, um a um pela abertura, determine qual é de fato o décimo.