Como se dizima? Reúne-os no curral, e faz para eles uma abertura pequena, de modo que dois não possam sair juntos, e conta com a vara: um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove — e o que sai décimo, pinta-o com tinta vermelha e diz: Este é dízimo. Se não o pintou com tinta vermelha, e não os contou com a vara, ou os contou deitados ou em pé, ainda assim estão dizimados. Se tinha cem e tomou dez, [ou] dez e tomou um, isto não é dízimo. Rabi Yossi bar Rabi Yehudá diz: isto é dízimo. Se um dos já contados saltou de volta para dentro [do grupo dos não contados], todos estes ficam isentos. [Se um] dos dizimados [saltou] para dentro deles, todos pastarão até que adquiram defeito, e serão comidos com seu defeito pelos donos.
— A mishná descreve o procedimento prático exigido pelo próprio texto bíblico — “tudo o que passar sob a vara” — e depois esclarece até que ponto os detalhes desse procedimento são essenciais e até que ponto são apenas o modo ideal de executá-lo. A abertura estreita impede que dois animais saiam ao mesmo tempo, o que invalidaria a contagem sequencial; a pintura vermelha no décimo é apenas um auxílio de identificação, não uma condição de validade — por isso, mesmo sem pintar, sem usar a vara, ou contando os animais parados em vez de fazê-los passar por uma abertura, a santidade do décimo se aplica retroativamente, contanto que a contagem individual, de um a dez, tenha ocorrido. O que de fato invalida o procedimento é a ausência completa de contagem: separar dez de cem, ou um de dez, por estimativa, sem contar cada animal, não produz dízimo válido — posição que Rabi Yossi bar Rabi Yehudá contesta, comparando o dízimo do gado à teruma, que pode ser separada por cálculo mental. Por fim, a mishná trata de dois cenários de dúvida: se um animal já contado (mas ainda não o décimo) salta de volta para o grupo não contado, todo o grupo fica isento, pois nenhum deles pode ser identificado com certeza; mas se é um animal já consagrado como dízimo que salta de volta, cria-se uma dúvida de santidade que nenhum abate pode resolver — todos devem pastar até desenvolver naturalmente um defeito, quando então poderão ser comidos por seus donos.
Rambam define o dir como o espaço cercado — por vezes de construção, por vezes apenas de canas — usado para reunir o rebanho na hora do dízimo, e a sicra como a tinta vermelha conhecida usada para marcá-lo. Esclarece que, se salta de volta um animal já contado (mas não o décimo), todo o grupo restante no curral fica isento — pois cada animal ali é agora uma dúvida entre ser o próprio que saltou (já contado, portanto isento de nova contagem) ou um animal do rebanho ainda por contar, e toda dúvida desse tipo não se sujeita ao dízimo. A lei não segue Rabi Yossi bar Rabi Yehudá.
Bartenura explica que a razão pela qual separar dez de cem sem contar não é dízimo válido é textual: a Torá chama o dízimo de “o décimo”, e sem contagem sequencial nenhum animal específico ganha esse título. Já Rabi Yossi bar Rabi Yehudá deriva, por comparação textual entre “dízimo” e “teruma”, que assim como a teruma pode ser separada por estimativa mental, também o dízimo do gado pode. A lei não segue Rabi Yossi. Sobre os animais que saltam de volta ao grupo não contado: cada um deles passa a ser uma dúvida — talvez seja justamente aquele que já havia sido contado e isentado —, e toda dúvida desse tipo não se sujeita a nova contagem.
Rashi recorda a comparação textual, já estabelecida no início do perek, entre o dízimo do gado e o dízimo dos grãos — base para a analogia de Rabi Yossi bar Rabi Yehudá com a teruma. E, sobre a proibição de “escolher” o dízimo, esclarece que o dono não pode separar deliberadamente apenas os dez animais mais magros como se fossem o dízimo dos demais — deve reunir todo o rebanho, magros e gordos igualmente, no curral, e deixar que a contagem natural, um a um pela abertura, determine qual é de fato o décimo.