Seder Kodashim · Massechet Bechorot · Perek Tet · Mishná 8 de 8

Os erros de contagem, o nono e o décimo primeiro — siyum de Massechet Bechorot

יָצְאוּ שְׁנַיִם כְּאֶחָד
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Os erros de contagem: o nono e o décimo viciados, e o princípio final

Se saíram dois como um, conta-os dois a dois. Se os contou como um, o nono e o décimo ficam viciados. Se saíram o nono e o décimo como um, o nono e o décimo ficam viciados. Se chamou o nono de décimo, e o décimo de nono, e o décimo primeiro de décimo — os três são consagrados: o nono é comido com seu defeito, o décimo é dízimo, e o décimo primeiro é oferecido como sacrifício de paz e faz substituto — palavras de Rabi Meir. Disse Rabi Yehudá: acaso um substituto faz outro substituto? Disseram em nome de Rabi Meir: se fosse substituto, não seria oferecido. Se chamou o nono de décimo, e o décimo de décimo, e o décimo primeiro de décimo — o décimo primeiro não é consagrado. Esta é a regra: todo aquele do qual não se removeu o nome de décimo, o décimo primeiro não é consagrado.

— A última mishná do tratado completa a mishná anterior tratando dos casos em que a própria contagem sai errada. Se dois animais emergem juntos pela abertura, contam-se como um par — a contagem simplesmente avança de dois em dois. Mas se o contador, por engano, tratou dois animais que saíram juntos como se fossem um único (contando “um” para ambos), toda a contagem subsequente se desloca: o que ele chama de “nono” é na verdade o décimo real, e o que chama de “décimo” é na verdade o décimo primeiro — e por isso ambos ficam em situação de dúvida (mekulkalin), sem poderem ser oferecidos nem comidos até desenvolverem defeito. O mesmo ocorre se o nono e o décimo saírem juntos. Mais complexo é o caso em que o dono, por engano, inverte deliberadamente os nomes: chama o nono de “décimo”, o verdadeiro décimo de “nono”, e o décimo primeiro de “décimo”. Aqui a mishná ensina, por derivação do versículo “e todo dízimo do gado”, que os três animais adjacentes ao ponto do erro se consagram: o nono (chamado “décimo” por engano) come-se apenas após desenvolver defeito; o verdadeiro décimo permanece dízimo pleno; e o décimo primeiro, tendo recebido por engano o nome de “décimo”, torna-se um sacrifício de paz que se oferece no altar — posição de Rabi Meir, que o considera também capaz de gerar um temurá (substituto) caso alguém troque um animal comum por ele. Rabi Yehudá contesta esse último ponto: sendo o próprio décimo primeiro já uma espécie de substituto do dízimo verdadeiro, como poderia gerar, por sua vez, um novo substituto? A tradição relata em nome do próprio Rabi Meir uma prova de que não se trata tecnicamente de temurá: se fosse, não poderia ser oferecido no altar, pois o substituto do dízimo do gado nunca é sacrificado. Por fim, a mishná fecha com o princípio geral que rege todo o capítulo: a consagração por engano só se estende ao animal adjacente enquanto o nome “décimo” não tiver sido corretamente atribuído ao verdadeiro décimo dentro da mesma contagem — uma vez que o décimo real já foi chamado corretamente de “décimo”, nenhum erro posterior sobre o décimo primeiro consagra mais nada.

יָצְאוּ שְׁנַיִם כְּאֶחָד, מוֹנֶה אוֹתָן שְׁנַיִם שְׁנָיִם. מְנָאָן אֶחָד, תְּשִׁיעִי וַעֲשִׂירִי מְקֻלְקָלִין. יָצְאוּ תְּשִׁיעִי וַעֲשִׂירִי כְּאַחַת, תְּשִׁיעִי וַעֲשִׂירִי מְקֻלְקָלִין. קָרָא לַתְּשִׁיעִי עֲשִׂירִי וְלָעֲשִׂירִי תְּשִׁיעִי וּלְאַחַד עָשָׂר עֲשִׂירִי, שְׁלָשְׁתָּן מְקֻדָּשִׁין. הַתְּשִׁיעִי נֶאֱכָל בְּמוּמוֹ, וְהָעֲשִׂירִי מַעֲשֵׂר, וְאַחַד עָשָׂר קָרֵב שְׁלָמִים וְעוֹשֶׂה תְמוּרָה, דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר. אָמַר רַבִּי יְהוּדָה, וְכִי יֵשׁ תְּמוּרָה עוֹשָׂה תְמוּרָה. אָמְרוּ מִשּׁוּם רַבִּי מֵאִיר, אִלּוּ הָיָה תְמוּרָה, לֹא הָיָה קָרֵב. קָרָא לַתְּשִׁיעִי עֲשִׂירִי וְלָעֲשִׂירִי עֲשִׂירִי וּלְאַחַד עָשָׂר עֲשִׂירִי, אֵין אַחַד עָשָׂר מְקֻדָּשׁ. זֶה הַכְּלָל, כֹּל שֶׁלֹּא נֶעֱקַר שֵׁם עֲשִׂירִי מִמֶּנּוּ, אֵין אַחַד עָשָׂר מְקֻדָּשׁ:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Vayikrá 27:33
לֹא יְבַקֵּר בֵּין־טוֹב לָרַע וְלֹא יְמִירֶנּוּ וְאִם־הָמֵר יְמִירֶנּוּ וְהָיָה־הוּא וּתְמוּרָתוֹ יִהְיֶה־קֹּדֶשׁ לֹא יִגָּאֵל
“Não examinará entre bom e mau, e não o substituirá; e, se de fato o substituir, tanto ele quanto seu substituto serão consagrados; não será resgatado.”
Este versículo, imediatamente seguinte àquele que institui o dízimo do gado, é a base do debate entre Rabi Meir e Rabi Yehudá sobre o décimo primeiro: se um animal comum trocado por ele se torna também consagrado, como temurá pleno, ou se essa consagração secundária simplesmente não se aplica a um animal que, ele mesmo, já ocupa apenas o lugar substituto do dízimo verdadeiro.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Bechorot 9:8
יצאו שנים כאחת מונה אותן שנים שנים מנאן כו': אמר שאם יצאו שנים ראשונים מן הדיר מונה אותן כולן ב' ב'... וענין מקולקלין אינן קרבין ואינן נאכלין אלא עומדים עד שיפול בהן מום ויאכלו במומן לבעלים... והלכה כר' יהודה במה שאמר אינו עושה תמורה:
סליק פירוש המשניות להרמב"ם ממסכת בכורות

Rambam esclarece que os animais “viciados” (mekulkalin) não são nem oferecidos no altar nem comidos livremente — permanecem à parte, pastando, até desenvolverem naturalmente um defeito, quando então se comem pelos donos como qualquer animal com mum. Confirma que a lei segue Rabi Yehudá quanto ao décimo primeiro não gerar temurá. Com esta mishná e este comentário, encerra-se o Perush HaMishná do Rambam sobre Massechet Bechorot por inteiro.

Bartenura · Bechorot 9:8
הָכִי גָּרְסִינַן יָצְאוּ שְׁנַיִם כְּאֶחָד מוֹנֶה אוֹתָן שְׁנַיִם שְׁנָיִם... שְׁלָשְׁתָּן מְקֻדָּשִׁים. דִּכְתִיב וְכָל מַעְשַׂר בָּקָר, לְרַבּוֹת תְּשִׁיעִי וְאַחַד עָשָׂר... וְכִי יֵשׁ תְּמוּרָה עוֹשָׂה תְמוּרָה. סָבַר רַבִּי יְהוּדָה דְּהַאי אַחַד עָשָׂר הָוֵי תְּמוּרָה... וַהֲלָכָה שֶׁאֵין הָאַחַד עָשָׂר עוֹשֶׂה תְּמוּרָה.

Bartenura mostra a fonte textual da consagração dos três animais adjacentes: o versículo “e todo dízimo do gado” vem justamente para incluir o nono e o décimo primeiro junto ao décimo real, mas apenas quando adjacentes ao erro — não um oitavo ou sétimo mais distantes. Explica a posição de Rabi Yehudá: como o décimo primeiro já ocupa, ele mesmo, o lugar de um substituto do décimo verdadeiro, seria necessário dizer que um substituto gera outro substituto — o que a Torá explicitamente nega (“ele e seu substituto”, e não “o substituto do seu substituto”). E confirma que a lei segue a posição atribuída a Rabi Meir de que o décimo primeiro não é tecnicamente temurá, pois sendo temurá não poderia ser oferecido.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Sobre a Guemará, Bechorot 59b
אף התשיעי — דכי היכי דאם קרא לאחד עשר עשירי אינו קדוש אלא א"כ נעקר שם מעשר מן העשירי שלא קרא לעשירי עשירי אלא תשיעי וכדאמרינן לקמן במתניתין זה הכלל כל שלא נעקר וכו' ובסיפא דהך ברייתא מפרש טעמא משום דאחד עשר עושה קדושה ליקרב א"נ אחד עשר דאיברר כו':

Rashi liga diretamente esta passagem da Guemará ao princípio final da própria mishná: o décimo primeiro só se consagra por engano quando o nome de “décimo” foi de fato removido do verdadeiro décimo — isto é, quando o dono chamou o décimo real de “nono” em vez de chamá-lo corretamente. Sem essa remoção do nome, nenhuma santidade se estende ao animal seguinte.

הֲדַרַן עֲלָךְ מַעְשַׂר בְּהֵמָה, וּסְלִיקָא לַהּ מַסֶּכֶת בְּכוֹרוֹת

Com esta última mishná do Perek Tet, encerra-se Massechet Bechorot por inteiro — setenta e três mishnayot em nove perakim, dedicadas às leis do primogênito humano e animal e, neste capítulo final, ao dízimo do gado. A fórmula tradicional de encerramento acima — “hadran alach” (“voltaremos a você”), seguida de “ussliká lah massechet Bechorot” (“concluiu-se Massechet Bechorot”) — é a que fecha o próprio texto da Guemará ao final do tratado, em Bechorot 61a.

O tratado abriu com as leis do primogênito de animal impuro e sua troca por um cordeiro (Perek Alef); tratou dos defeitos que desqualificam o bechor para o altar e do exame sacerdotal (Perek Bet); voltou-se aos casos de dúvida sobre a primogenitura entre animais de sócios ou compradores (Perek Guimel); regulou os prazos e condições para o sacerdote examinar o bechor (Perek Dalet); aprofundou os defeitos permanentes e temporários (Perek Hei); listou exaustivamente os mumin que desqualificam tanto o bechor quanto os demais sacrifícios (Perek Vav); estendeu essas leis aos próprios sacerdotes desqualificados para o serviço por defeito físico (Perek Zayin); voltou-se ao primogênito humano e ao resgate do pidyon haben (Perek Chet), fechando com os institutos que não retornam no ano do jubileu; e chegou, neste Perek Tet, ao maasser behemá — o dízimo do gado: seu âmbito, a combinação de rebanhos distantes, as isenções do comprado e do presenteado, os animais excluídos do curral, as três datas anuais que fecham o prazo, e o procedimento minucioso de contagem com seus casos de dúvida e erro. Por possuir Guemará no Talmud Bavli, as mishnayot deste tratado se distribuem por Bechorot 2a–61a, e muitas delas reuniram, além do Rambam (Perush HaMishná) e do Bartenura, o comentário de Rashi sobre a respectiva sugya.

Com Bechorot, encerra-se o quarto tratado de Seder Kodashim — depois de Zevachim, Menachot e Chulin —, a ordem dedicada às leis dos sacrifícios e do Templo.