Se saíram dois como um, conta-os dois a dois. Se os contou como um, o nono e o décimo ficam viciados. Se saíram o nono e o décimo como um, o nono e o décimo ficam viciados. Se chamou o nono de décimo, e o décimo de nono, e o décimo primeiro de décimo — os três são consagrados: o nono é comido com seu defeito, o décimo é dízimo, e o décimo primeiro é oferecido como sacrifício de paz e faz substituto — palavras de Rabi Meir. Disse Rabi Yehudá: acaso um substituto faz outro substituto? Disseram em nome de Rabi Meir: se fosse substituto, não seria oferecido. Se chamou o nono de décimo, e o décimo de décimo, e o décimo primeiro de décimo — o décimo primeiro não é consagrado. Esta é a regra: todo aquele do qual não se removeu o nome de décimo, o décimo primeiro não é consagrado.
— A última mishná do tratado completa a mishná anterior tratando dos casos em que a própria contagem sai errada. Se dois animais emergem juntos pela abertura, contam-se como um par — a contagem simplesmente avança de dois em dois. Mas se o contador, por engano, tratou dois animais que saíram juntos como se fossem um único (contando “um” para ambos), toda a contagem subsequente se desloca: o que ele chama de “nono” é na verdade o décimo real, e o que chama de “décimo” é na verdade o décimo primeiro — e por isso ambos ficam em situação de dúvida (mekulkalin), sem poderem ser oferecidos nem comidos até desenvolverem defeito. O mesmo ocorre se o nono e o décimo saírem juntos. Mais complexo é o caso em que o dono, por engano, inverte deliberadamente os nomes: chama o nono de “décimo”, o verdadeiro décimo de “nono”, e o décimo primeiro de “décimo”. Aqui a mishná ensina, por derivação do versículo “e todo dízimo do gado”, que os três animais adjacentes ao ponto do erro se consagram: o nono (chamado “décimo” por engano) come-se apenas após desenvolver defeito; o verdadeiro décimo permanece dízimo pleno; e o décimo primeiro, tendo recebido por engano o nome de “décimo”, torna-se um sacrifício de paz que se oferece no altar — posição de Rabi Meir, que o considera também capaz de gerar um temurá (substituto) caso alguém troque um animal comum por ele. Rabi Yehudá contesta esse último ponto: sendo o próprio décimo primeiro já uma espécie de substituto do dízimo verdadeiro, como poderia gerar, por sua vez, um novo substituto? A tradição relata em nome do próprio Rabi Meir uma prova de que não se trata tecnicamente de temurá: se fosse, não poderia ser oferecido no altar, pois o substituto do dízimo do gado nunca é sacrificado. Por fim, a mishná fecha com o princípio geral que rege todo o capítulo: a consagração por engano só se estende ao animal adjacente enquanto o nome “décimo” não tiver sido corretamente atribuído ao verdadeiro décimo dentro da mesma contagem — uma vez que o décimo real já foi chamado corretamente de “décimo”, nenhum erro posterior sobre o décimo primeiro consagra mais nada.
Rambam esclarece que os animais “viciados” (mekulkalin) não são nem oferecidos no altar nem comidos livremente — permanecem à parte, pastando, até desenvolverem naturalmente um defeito, quando então se comem pelos donos como qualquer animal com mum. Confirma que a lei segue Rabi Yehudá quanto ao décimo primeiro não gerar temurá. Com esta mishná e este comentário, encerra-se o Perush HaMishná do Rambam sobre Massechet Bechorot por inteiro.
Bartenura mostra a fonte textual da consagração dos três animais adjacentes: o versículo “e todo dízimo do gado” vem justamente para incluir o nono e o décimo primeiro junto ao décimo real, mas apenas quando adjacentes ao erro — não um oitavo ou sétimo mais distantes. Explica a posição de Rabi Yehudá: como o décimo primeiro já ocupa, ele mesmo, o lugar de um substituto do décimo verdadeiro, seria necessário dizer que um substituto gera outro substituto — o que a Torá explicitamente nega (“ele e seu substituto”, e não “o substituto do seu substituto”). E confirma que a lei segue a posição atribuída a Rabi Meir de que o décimo primeiro não é tecnicamente temurá, pois sendo temurá não poderia ser oferecido.
Rashi liga diretamente esta passagem da Guemará ao princípio final da própria mishná: o décimo primeiro só se consagra por engano quando o nome de “décimo” foi de fato removido do verdadeiro décimo — isto é, quando o dono chamou o décimo real de “nono” em vez de chamá-lo corretamente. Sem essa remoção do nome, nenhuma santidade se estende ao animal seguinte.
Com esta última mishná do Perek Tet, encerra-se Massechet Bechorot por inteiro — setenta e três mishnayot em nove perakim, dedicadas às leis do primogênito humano e animal e, neste capítulo final, ao dízimo do gado. A fórmula tradicional de encerramento acima — “hadran alach” (“voltaremos a você”), seguida de “ussliká lah massechet Bechorot” (“concluiu-se Massechet Bechorot”) — é a que fecha o próprio texto da Guemará ao final do tratado, em Bechorot 61a.
O tratado abriu com as leis do primogênito de animal impuro e sua troca por um cordeiro (Perek Alef); tratou dos defeitos que desqualificam o bechor para o altar e do exame sacerdotal (Perek Bet); voltou-se aos casos de dúvida sobre a primogenitura entre animais de sócios ou compradores (Perek Guimel); regulou os prazos e condições para o sacerdote examinar o bechor (Perek Dalet); aprofundou os defeitos permanentes e temporários (Perek Hei); listou exaustivamente os mumin que desqualificam tanto o bechor quanto os demais sacrifícios (Perek Vav); estendeu essas leis aos próprios sacerdotes desqualificados para o serviço por defeito físico (Perek Zayin); voltou-se ao primogênito humano e ao resgate do pidyon haben (Perek Chet), fechando com os institutos que não retornam no ano do jubileu; e chegou, neste Perek Tet, ao maasser behemá — o dízimo do gado: seu âmbito, a combinação de rebanhos distantes, as isenções do comprado e do presenteado, os animais excluídos do curral, as três datas anuais que fecham o prazo, e o procedimento minucioso de contagem com seus casos de dúvida e erro. Por possuir Guemará no Talmud Bavli, as mishnayot deste tratado se distribuem por Bechorot 2a–61a, e muitas delas reuniram, além do Rambam (Perush HaMishná) e do Bartenura, o comentário de Rashi sobre a respectiva sugya.
Com Bechorot, encerra-se o quarto tratado de Seder Kodashim — depois de Zevachim, Menachot e Chulin —, a ordem dedicada às leis dos sacrifícios e do Templo.