Três eiras há para o dízimo do gado: na metade [do mês anterior] à Páscoa, na metade [do mês anterior] a Shavuot, na metade [do mês anterior] a Sucot — palavras de Rabi Akiva. Ben Azai diz: no vinte e nove de Adar, no primeiro de Sivan, no vinte e nove de Av. Rabi Eliezer e Rabi Shimon dizem: no primeiro de Nissan, no primeiro de Sivan, no vinte e nove de Elul. E por que disseram vinte e nove de Elul, e não disseram primeiro de Tishrei? Porque é dia festivo, e não é possível dizimar em dia festivo; por isso o anteciparam para vinte e nove de Elul. Rabi Meir diz: no primeiro de Elul é o início do ano para o dízimo do gado. Ben Azai diz: os de Elul se dizimam à parte.
— Assim como o dízimo de grãos tem seu “piso” (a chegada à eira, quando se torna proibido comer sem antes separar o dízimo), o dízimo do gado tem três datas anuais — suas “eiras” — a partir das quais fica proibido vender ou abater sem antes dizimar os animais nascidos desde a última. Rabi Akiva as fixa na metade dos meses anteriores às três festas de peregrinação, para garantir que houvesse gado já dizimado disponível aos peregrinos que subiam a Jerusalém. Ben Azai, e depois Rabi Eliezer e Rabi Shimon, propõem datas fixas alternativas, todas próximas às mesmas festas. A mishná explica por que a terceira data recua para vinte e nove de Elul em vez do óbvio primeiro de Tishrei: sendo esse dia Rosh HaShaná, dia festivo, não se pode dizimar nele. Rabi Meir acrescenta uma posição distinta e mais radical: o próprio ano novo para contagem do dízimo do gado começa em Elul, não em Tishrei — gerando incerteza sobre a qual ano pertencem os nascidos nesse mês intermediário, o que leva Ben Azai a propor a solução prática de dizimá-los à parte, sem combiná-los nem com o ano anterior nem com o seguinte.
Rambam explica a metáfora do nome “eiras”: assim como o grão que chega à eira fica sujeito ao dízimo e proibido de consumo antes dele, o gado que atinge uma dessas três datas fica igualmente vedado à venda e ao abate sem antes ser dizimado. As datas foram fixadas nesses pontos específicos para garantir gado disponível aos peregrinos das três festas — embora a própria proibição seja apenas rabínica, pois tecnicamente seria permitido vender antes de dizimar. E explica que Ben Azai, tendo ouvido as posições divergentes sobre se o ano novo do dízimo é em Elul ou em Tishrei, propõe uma saída prudente: separar o dízimo dos nascidos em Elul à parte, para evitar dúvida. A lei segue Rabi Akiva.
Bartenura explica “פְּרֹס” como “metade” — quinze dias antes de cada festa, o mesmo período em que se começa a ensinar publicamente as leis da festa que se aproxima. Justifica a existência das três datas fixas apesar de, tecnicamente, ser permitido vender gado não dizimado antes delas: as pessoas preferem cumprir o preceito sem perda alguma, pois o próprio dízimo é oferecido e comido pelos donos como um shelamim — de modo que, sem essas datas fixas, muitos se absteriam de vender gado ainda não dizimado, e faltaria gado disponível aos peregrinos. Explica ainda por que Rosh HaShaná fica de fora: além de ser dia festivo, em que é proibido usar a tinta vermelha (sicra) para marcar o décimo animal.
Rashi confirma o propósito prático por trás das três datas: como o gado só fica vedado à venda a partir da eira próxima à festa, as pessoas retêm seus animais até então e os dizimam pouco antes de cada peregrinação — garantindo fartura de gado disponível aos peregrinos, tanto para consumo quanto para sacrifícios. E sobre o tratamento dos animais nascidos em Elul, discutido logo em seguida na Guemará, explica que não se pode separar deliberadamente um deles como o décimo — pois a Torá exige que a contagem seja natural, “sem examinar entre bom e mau” — e que, faltando apenas cinco animais daquele ano para completar o grupo, eles ficam isentos.