Seder Kodashim · Massechet Bechorot · Perek Tet · Mishná 5 de 8

As três eiras do dízimo do gado e o debate sobre suas datas

שָׁלשׁ גְּרָנוֹת לְמַעְשַׂר בְּהֵמָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

As três eiras e o debate sobre as datas exatas do ano do dízimo

Três eiras há para o dízimo do gado: na metade [do mês anterior] à Páscoa, na metade [do mês anterior] a Shavuot, na metade [do mês anterior] a Sucot — palavras de Rabi Akiva. Ben Azai diz: no vinte e nove de Adar, no primeiro de Sivan, no vinte e nove de Av. Rabi Eliezer e Rabi Shimon dizem: no primeiro de Nissan, no primeiro de Sivan, no vinte e nove de Elul. E por que disseram vinte e nove de Elul, e não disseram primeiro de Tishrei? Porque é dia festivo, e não é possível dizimar em dia festivo; por isso o anteciparam para vinte e nove de Elul. Rabi Meir diz: no primeiro de Elul é o início do ano para o dízimo do gado. Ben Azai diz: os de Elul se dizimam à parte.

— Assim como o dízimo de grãos tem seu “piso” (a chegada à eira, quando se torna proibido comer sem antes separar o dízimo), o dízimo do gado tem três datas anuais — suas “eiras” — a partir das quais fica proibido vender ou abater sem antes dizimar os animais nascidos desde a última. Rabi Akiva as fixa na metade dos meses anteriores às três festas de peregrinação, para garantir que houvesse gado já dizimado disponível aos peregrinos que subiam a Jerusalém. Ben Azai, e depois Rabi Eliezer e Rabi Shimon, propõem datas fixas alternativas, todas próximas às mesmas festas. A mishná explica por que a terceira data recua para vinte e nove de Elul em vez do óbvio primeiro de Tishrei: sendo esse dia Rosh HaShaná, dia festivo, não se pode dizimar nele. Rabi Meir acrescenta uma posição distinta e mais radical: o próprio ano novo para contagem do dízimo do gado começa em Elul, não em Tishrei — gerando incerteza sobre a qual ano pertencem os nascidos nesse mês intermediário, o que leva Ben Azai a propor a solução prática de dizimá-los à parte, sem combiná-los nem com o ano anterior nem com o seguinte.

שָׁלשׁ גְּרָנוֹת לְמַעְשַׂר בְּהֵמָה, בִּפְרוֹס הַפֶּסַח, בִּפְרוֹס הָעֲצֶרֶת, בִּפְרוֹס הֶחָג, דִּבְרֵי רַבִּי עֲקִיבָא. בֶּן עַזַּאי אוֹמֵר, בְּעֶשְׂרִים וְתִשְׁעָה בַּאֲדָר, בְּאֶחָד בְּסִיוָן, בְּעֶשְׂרִים וְתִשְׁעָה בְאָב. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר וְרַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמְרִים, בְּאֶחָד בְּנִיסָן, בְּאֶחָד בְּסִיוָן, בְּעֶשְׂרִים וְתִשְׁעָה בֶאֱלוּל. וְלָמָּה אָמְרוּ בְּעֶשְׂרִים וְתִשְׁעָה בֶאֱלוּל וְלֹא אָמְרוּ בְּאֶחָד בְּתִשְׁרֵי, מִפְּנֵי שֶׁהוּא יוֹם טוֹב, וְאִי אֶפְשָׁר לְעַשֵּׂר בְּיוֹם טוֹב, לְפִיכָךְ הִקְדִּימוּהוּ בְּעֶשְׂרִים וְתִשְׁעָה בֶאֱלוּל. רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר, בְּאֶחָד בֶּאֱלוּל רֹאשׁ הַשָּׁנָה לְמַעְשַׂר בְּהֵמָה. בֶּן עַזַּאי אוֹמֵר, הָאֱלוּלִיִּין מִתְעַשְּׂרִין בִּפְנֵי עַצְמָן:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Bechorot 9:5
שלש גרנות למעשר בהמה בפרס הפסח כו': מה שהוא קורא לפרקים האלו גרנות הוא דרך דומיא לפי שהבהמה הנולדה בשנה זו... הרי היא כתבואה שהגיע לגורן שנטבלה למעשר ואין אוכלים ממנה עד שיוציאו המעשרות... ולפי ששמע בן עזאי דברי התנאים ומחלוקתם... אומר דרך ההצלה שיוציא מעשר מכל הנולדים באלול בפני עצמן... והלכה כר"ע:

Rambam explica a metáfora do nome “eiras”: assim como o grão que chega à eira fica sujeito ao dízimo e proibido de consumo antes dele, o gado que atinge uma dessas três datas fica igualmente vedado à venda e ao abate sem antes ser dizimado. As datas foram fixadas nesses pontos específicos para garantir gado disponível aos peregrinos das três festas — embora a própria proibição seja apenas rabínica, pois tecnicamente seria permitido vender antes de dizimar. E explica que Ben Azai, tendo ouvido as posições divergentes sobre se o ano novo do dízimo é em Elul ou em Tishrei, propõe uma saída prudente: separar o dízimo dos nascidos em Elul à parte, para evitar dúvida. A lei segue Rabi Akiva.

Bartenura · Bechorot 9:5
שָׁלֹשׁ גְּרָנוֹת לְמַעְשַׂר בְּהֵמָה. בִּשְׁלֹשָׁה פְּרָקִים בַּשָּׁנָה הַבְּהֵמוֹת מִתְעַשְּׂרוֹת... פְּרֹס הַפֶּסַח. חֲמִשָּׁה עָשָׂר יוֹם קֹדֶם הַפֶּסַח... הָאֱלוּלִיִּין מִתְעַשְּׂרִין בִּפְנֵי עַצְמָן. כִּדְפָרֵשְׁנָא לְעֵיל דִּמְסַפְּקָא לֵיהּ אִי הָוֵי רֹאשׁ הַשָּׁנָה לְמַעֲשַׂר בְּהֵמָה אֶחָד בֶּאֱלוּל אוֹ אֶחָד בְּתִשְׁרֵי...

Bartenura explica “פְּרֹס” como “metade” — quinze dias antes de cada festa, o mesmo período em que se começa a ensinar publicamente as leis da festa que se aproxima. Justifica a existência das três datas fixas apesar de, tecnicamente, ser permitido vender gado não dizimado antes delas: as pessoas preferem cumprir o preceito sem perda alguma, pois o próprio dízimo é oferecido e comido pelos donos como um shelamim — de modo que, sem essas datas fixas, muitos se absteriam de vender gado ainda não dizimado, e faltaria gado disponível aos peregrinos. Explica ainda por que Rosh HaShaná fica de fora: além de ser dia festivo, em que é proibido usar a tinta vermelha (sicra) para marcar o décimo animal.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Sobre a Guemará, Bechorot 58a–58b
כדי שתהא בהמה מצויה — דכיון דאין גורן מעשר בהמה עד פרוס הרגלים ומשהי אינשי בהמתן עד אותו זמן דלא לשחטינהו עד שיעשרם בזמן הגורן שהוא סמוך לרגל ונמצא שיהו בהמות מצויות לעולי רגלים ליקח מהן בין לאכילה בין לקרבנות: ונוטל אחד מן האלולין — ולא שיכוין ויוציאנו בעשירי דהא כתיב לא יבקר... ודאב פטורין — דליכא מאותה שנה אלא חמשה:

Rashi confirma o propósito prático por trás das três datas: como o gado só fica vedado à venda a partir da eira próxima à festa, as pessoas retêm seus animais até então e os dizimam pouco antes de cada peregrinação — garantindo fartura de gado disponível aos peregrinos, tanto para consumo quanto para sacrifícios. E sobre o tratamento dos animais nascidos em Elul, discutido logo em seguida na Guemará, explica que não se pode separar deliberadamente um deles como o décimo — pois a Torá exige que a contagem seja natural, “sem examinar entre bom e mau” — e que, faltando apenas cinco animais daquele ano para completar o grupo, eles ficam isentos.