Seder Kodashim · Massechet Bechorot · Perek Vav · Mishná 3 de 12

A mancha esbranquiçada e as lágrimas contínuas — os testes de oitenta dias e da forragem

חֲוַרְוָד וְהַמַּיִם הַקְּבוּעִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mancha esbranquiçada e as lágrimas contínuas: os testes de oitenta dias e da forragem

A mancha esbranquiçada e as lágrimas contínuas. Qual é a mancha esbranquiçada contínua? Toda aquela que persistiu oitenta dias. Rabi Chananya ben Antigonus diz: examina-se o animal três vezes dentro de oitenta dias. E estas são as lágrimas contínuas: se comeu forragem úmida e seca de sequeiro, ou úmida e seca de irrigação. Se comeu a seca e depois comeu a úmida, não é mácula, até que coma a seca depois da úmida.

— A mishná passa a duas condições oculares que só contam como mácula se forem crônicas, e não passageiras: a mancha esbranquiçada (chavarvar, uma espécie de catarata) e o lacrimejamento constante. Para a mancha, o critério é temporal: oitenta dias de persistência comprovada. Rabi Chananya ben Antigonus refina esse critério, exigindo três exames dentro desse período, para garantir que a mancha não tenha ido e voltado sem que ninguém percebesse. Para as lágrimas, o critério é um teste terapêutico: alimenta-se o animal com forragem úmida e seca — de terra de sequeiro (chuva) ou de terra irrigada — para ver se ele se cura. A ordem importa: se comeu primeiro a seca e depois a úmida, isso não é considerado um tratamento válido, e a ausência de cura não prova nada; só quando come a úmida e depois a seca, na ordem terapêutica correta, é que a persistência das lágrimas comprova que a condição é de fato permanente.

חֲוַרְוָד וְהַמַּיִם הַקְּבוּעִים. אֵיזֶהוּ חֲוַרְוָד הַקָּבוּעַ, כֹּל שֶׁשָּׁהָה שְׁמוֹנִים יוֹם. רַבִּי חֲנִינָא בֶּן אַנְטִיגְנוֹס אוֹמֵר, בּוֹדְקִין אוֹתוֹ שְׁלשָׁה פְעָמִים בְּתוֹךְ שְׁמוֹנִים יוֹם. וְאֵלּוּ הֵם מַיִם הַקְּבוּעִים, אָכַל לַח וְיָבֵשׁ שֶׁל גְּשָׁמִים, לַח וְיָבֵשׁ שֶׁל שְׁלָחִים. אָכַל הַיָּבֵשׁ וְאַחַר כָּךְ אָכַל הַלַּח, אֵינוֹ מוּם, עַד שֶׁיֹּאכַל הַיָּבֵשׁ אַחַר הַלַּח:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Bechorot 6:3
חורור והמים הקבועים איזה חורור הקבוע כל כו': חורור הוא שיעור שיטרד הראות מהעצבים האלו וידוע זה כשאירע פתאום: והמים הם המים היורדים בעין המפורסם אצל בני אדם... ולפיכך אמר שצריך לדעת שהחורור קבוע כשיתקיים שמונים יום שלא יראה... והלכה כר' חנינא בן אנטיגנוס:

Rambam explica o chavarvar como uma condição que subitamente prejudica a visão, e as “águas” como a catarata conhecida entre os homens. Detalha o regime terapêutico: o animal deve comer ao menos o equivalente a um figo seco da forragem apropriada, antes e depois de beber, sem estar amarrado, acompanhado, e no campo, não na cidade — e só se, cumpridas todas essas condições, ele não sarar, é que se declara a mácula permanente. Conclui que a lei segue Rabi Chananya ben Antigonus.

Bartenura · Bechorot 6:3
חֲוַרְוַד. כְּמִין טִפִּין לְבָנוֹת בָּעַיִן: וְהַמַּיִם. הַיּוֹרְדִים אֶל הָעַיִן וּמוֹנְעִים הָרְאוּת: בּוֹדְקִין אוֹתוֹ שְׁלֹשָׁה פְעָמִים בְּתוֹךְ שְׁמוֹנִים יוֹם. בְּכָל עֶשְׂרִים וְשִׁבְעָה יוֹם... וַהֲלָכָה כְּרַבִּי חֲנִינָא בֶּן אַנְטִיגְנוֹס: אָכַל לַח וְיָבֵשׁ שֶׁל גְּשָׁמִים. אִם הֶאֱכִילוּהוּ לִרְפוּאָה תֶּבֶן וְחָצִיר... וּמַתְנִיתִין חַסּוֹרֵי מִחַסְּרָא וְהָכִי קָתָנֵי, אָכַל לַח וְיָבֵשׁ שֶׁל גְּשָׁמִים הֲרֵי זֶה מוּם, שֶׁל בֵּית הַשְּׁלָחִין אֵינוֹ מוּם: עַד שֶׁיֹּאכַל יָבֵשׁ אַחַר הַלָּח. זוֹ הִיא דֶּרֶךְ רְפוּאָתוֹ... וְאִם לֹא נִתְרַפֵּא הָוֵי מוּם וְשׁוֹחֲטִין עָלָיו:

Bartenura descreve a mancha esbranquiçada como pequenas gotas brancas no olho, e as águas como o que desce sobre o olho e impede a visão. Detalha o calendário dos três exames (a cada cerca de vinte e sete dias) e confirma que a lei segue Rabi Chananya. Explica que a mishná está elíptica e deve ser completada: comeu úmido e seco de sequeiro é mácula; de terra irrigada não é, pois essa não é considerada verdadeira cura. E fixa que só a sequência correta — úmido primeiro, seco depois — é o teste terapêutico válido.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Sobre a Guemará, Bechorot 38b
מַתְנִי' חֲוַרְוָור — חוֹלִי הוּא שֶׁיֵּשׁ טִיפִּין לְבָנוֹת בָּעַיִן: הַקְּבוּעִים — אַתַּרְוַיְהוּ קָאֵי אַחֲוַרְוָור וְאֵמִים: בּוֹדְקִין ג"פ בְּתוֹךְ שְׁמוֹנִים יוֹם — וְאִם לֹא בְדָקוּהוּ אַף עַל פִּי שֶׁמּוּם נִמְצָא שָׁם בְּיוֹם שְׁמוֹנִים לֹא הָוֵי מוּם, דְּשֶׁמָּא בֵּינְתַיִם הָלַךְ לוֹ וְחָזַר שֶׁכֵּן דַּרְכּוֹ:

Rashi define o chavarvar como uma doença de manchas brancas no olho, e esclarece que o requisito de ser “contínuo” se aplica tanto ao chavarvar quanto às águas. Explica a razão dos três exames dentro dos oitenta dias: se o dono não examinou o animal ao longo do período, mesmo que a mancha seja encontrada exatamente no octogésimo dia, isso não basta para declará-la permanente, pois é possível que ela tenha ido embora e voltado nesse ínterim, já que essa é sua natureza.