Seu focinho que foi perfurado, que ficou lesado, ou que se rachou; seu lábio que foi perfurado, que ficou lesado, ou que se rachou; seus dentes externos que ficaram lesados ou se desgastaram, e os internos que foram arrancados. Rabi Chanina ben Antigonus diz: não se examina a partir dos dentes geminados para dentro, nem mesmo os próprios dentes geminados.
— A mishná estende ao focinho e ao lábio as mesmas três categorias já vistas na orelha e na pálpebra: perfuração, lesão com falta, rachadura. Depois passa aos dentes, distinguindo os externos (os dentes frontais, visíveis quando o animal abre a boca) dos internos (os molares, chamados de “geminados” por parecerem, cada um, dois dentes colados). Os externos já são mácula se apenas lesados ou desgastados; os internos só contam como mácula se arrancados por completo. Rabi Chanina ben Antigonus traça a linha ainda mais adiante: a partir dos próprios dentes geminados para dentro da boca, nada se examina, nem mesmo os geminados em si — princípio que decorre da regra geral deste capítulo, de que só a mácula visível e permanente desqualifica, e o interior da boca é considerado oculto.
Rambam identifica os dentes externos como as duas fileiras salientes do céu da boca, visíveis quando o animal abre a boca, e os internos como as cavidades molares, que Rabi Chanina chama de “geminados” por virem em pares. Reafirma que, do ponto molar para dentro, nada conta, por decorrer da mesma regra hermenêutica de “regra geral, caso específico, regra geral” que rege todo o capítulo, e conclui que a lei não segue Rabi Chanina ben Antigonus.
Bartenura precisa que a perfuração do focinho só é mácula quando o furo atravessa as paredes externas e é visível por fora; se atinge apenas a parede interna que divide as narinas, não é mácula, por ser um defeito oculto. Define o lábio como a borda externa da boca, e os dentes externos como os do meio da boca, opondo “nigmemu” (desgastados até quase sumir) a “nifgemu” (lesados). E explica que, segundo a lei que rejeita Rabi Chanina, mesmo os próprios dentes geminados, se arrancados, já contam como mácula.
Rashi confirma, na Guemará, a distinção entre o furo visível nas paredes externas do focinho (mácula) e o furo na parede interna que divide as narinas (não é mácula, por ser defeito oculto). Traduz “sfat” como a borda estreita, não larga, do lábio. E identifica os dentes “geminados” (matoimot) como os grandes molares que parecem, cada um, dois dentes juntos, no vernáculo de sua época.