Seder Kodashim · Massechet Bechorot · Perek Dalet · Mishná 9 de 10

O suspeito de vender terumá como se fosse comum

הֶחָשׁוּד לִהְיוֹת מוֹכֵר תְּרוּמָה לְשֵׁם חֻלִּין
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Rabi Yehuda: nem água nem sal se compram do suspeito de vender terumá como comum

Do suspeito de vender terumá como se fosse comum, não se compra dele nem mesmo água ou sal — palavras de Rabi Yehuda.

— Terumá é a porção da colheita separada para o sacerdote, proibida a israelitas comuns; vendê-la disfarçada de produto comum (chulin) é uma fraude grave. Para Rabi Yehuda, quem é suspeito dessa prática perde toda credibilidade comercial num sentido amplo: não se compra dele absolutamente nada, nem mesmo itens como água e sal — que, por si mesmos, nunca têm o status de terumá — como uma penalidade (kenas) que o afasta completamente do comércio confiável, e não porque haja razão específica para suspeitar da água ou do sal em si.

הֶחָשׁוּד לִהְיוֹת מוֹכֵר תְּרוּמָה לְשֵׁם חֻלִּין, אֵין לוֹקְחִין מִמֶּנּוּ אֲפִלּוּ מַיִם אוֹ מֶלַח, דִּבְרֵי רַבִּי יְהוּדָה.
Rabi Shimon: só se restringe o que tem relação com terumá e maasser

Rabi Shimon diz: tudo o que tem relação com terumá e maasser, não se compra dele.

— Rabi Shimon discorda da penalidade ampla de Rabi Yehuda: para ele, a restrição de compra se limita, com lógica direta, aos produtos aos quais a terumá e o maasser efetivamente se aplicam — ou seja, produtos agrícolas sujeitos a essas separações. Água e sal, por não estarem sujeitos a terumá nem a maasser, podem ser comprados normalmente do suspeito, mesmo segundo Rabi Shimon, já que não há como disfarçar terumá nesses itens.

רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, כּל שֶׁיֵּשׁ בּוֹ זִקַּת תְּרוּמוֹת וּמַעַשְׂרוֹת, אֵין לוֹקְחִין מִמֶּנּוּ:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Bechorot 4:9
החשוד להיות מוכר תרומה לשם חולין אין כו': זיקת שייכות, וכבר בארנו אותו ביבמות. ור' יהודה אינו אומר אלא על דרך הגזירה, והלכה כר"ש:

Rambam explica que a expressão “relação” (zikat) usada por Rabi Shimon indica pertencimento ou aplicabilidade, já explicada em outro tratado (Yevamot); e que a posição mais ampla de Rabi Yehuda é apenas um decreto preventivo (gezerá), não uma restrição com lógica própria. A lei segue Rabi Shimon.

Bartenura · Bechorot 4:9
אֲפִלּוּ מַיִם וּמֶלַח. מִשּׁוּם קְנָס: כֹּל שֶׁיֶּשׁ בּוֹ זִקַּת תְּרוּמוֹת. כָּל דָּבָר שֶׁתְּרוּמָה נוֹהֶגֶת בּוֹ. וְכֹל, לַאֲתוֹיֵי קִרְבֵי דָגִים שֶׁמְּעָרְבִין בָּהֶן שֶׁמֶן זַיִת, שֶׁיֵּשׁ בּוֹ זִיקַת תְּרוּמָה. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן:

Bartenura explica que a proibição de comprar até água e sal, segundo Rabi Yehuda, é uma penalidade (kenas), não uma suspeita real quanto a esses itens; e que a expressão de Rabi Shimon, “tudo o que tem relação com terumá e maasser”, inclui até casos não óbvios, como vísceras de peixe misturadas com azeite de oliva — que, por conterem azeite, têm relação com terumá. A lei segue Rabi Shimon.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Sobre a Guemará, Bechorot 29b
מתני' אפי' מים ומלח — משום קנס: זיקת תרומה — כל דבר שנותנין ממנו תרומה:

Rashi explica que a proibição de comprar até água e sal é uma penalidade, e não uma suspeita concreta; e que “relação com terumá” se refere a qualquer produto do qual se separa terumá.