Do suspeito quanto ao ano sabático não se compra dele linho, mesmo penteado; mas compra-se dele fio fiado e tecido.
— O ano sabático (shemitá) proíbe o cultivo comercial da terra de Israel, e o produto que cresce por si só nesse ano tem restrições de uso e comércio. Quem é suspeito de semear ou comercializar produtos da shemitá de modo proibido não tem sua palavra aceita quanto à origem do linho que vende — mesmo já penteado (um processo de preparo relativamente simples), pois esse trabalho ainda é pouco o bastante para não desencorajar alguém disposto a arriscar vender produto proibido. Já o fio já fiado, e mais ainda o tecido já entrelaçado, representam um investimento de trabalho tão grande que ninguém o faria sobre matéria-prima de origem duvidosa, sujeita a ser confiscada — por isso esses itens podem ser comprados livremente.
Rambam esclarece que a palavra traduzida por “tecido” nesta mishná não se refere necessariamente a uma peça de roupa acabada, mas a algo semelhante — como cordões trançados feitos do próprio linho, e não do fio já fiado; e observa que, já tendo permitido comprar o fio fiado, com mais razão se permite o que já foi trançado, representando ainda mais trabalho investido.
Bartenura identifica o “suspeito quanto ao ano sabático” como alguém suspeito de semear ou comerciar com o que cresce por si só na shemitá. Explica que “penteado” é o linho já preparado com pente, mas ainda assim proibido, pois esse trabalho é pouco para desencorajar a fraude; e que “tecido”, aqui, não significa tecido propriamente dito — já que, se até o fio fiado é permitido, o tecido o seria com mais razão — mas sim uma espécie de cordão trançado feito diretamente do linho, sem nunca ter passado pela fiação.
Rashi explica que o “suspeito quanto ao ano sabático” é alguém suspeito de semear ou comerciar com o que cresce por si só (sfichin) durante a shemitá; e que “penteado” descreve o linho fino, já preparado com pente.