Até quando os israelitas são obrigados a cuidar do primogênito? No gado miúdo, até trinta dias; e no graúdo, cinquenta dias. Rabi Yossei diz: no miúdo, três meses.
— O primogênito de animal puro pertence, por lei da Torá, ao sacerdote desde o nascimento; mas a mishná não obriga o dono a entregá-lo imediatamente — ele deve primeiro cuidar da cria por um período mínimo, alimentando-a e protegendo-a, antes de poder (ou dever) repassá-la. O prazo é mais curto para o rebanho miúdo, que se desenvolve mais rápido, e mais longo para o graúdo; Rabi Yossei estende ainda mais o prazo do miúdo, por uma razão prática discutida pelos comentaristas: enquanto os dentes do animal ainda são frágeis, ele precisa de mais tempo junto à mãe para se alimentar e fortalecer.
Se o sacerdote lhe disse, dentro desse prazo, “entrega-o para mim” — este não deve entregá-lo. Mas, se tinha mácula, e lhe disse “entrega-o para mim, que eu o coma”, é permitido. E no tempo em que o Templo existia, se era sem mácula, e lhe disse “entrega-o para mim, que eu o ofereça”, é permitido.
— A recusa em entregar antes do prazo não é um favor ao dono, mas uma proteção à dignidade do próprio sacerdote: se ele pudesse reclamar o animal ainda cria, cuidada pelo israelita, pareceria estar recebendo, disfarçadamente, o serviço de criação como parte do presente sacerdotal — como um sacerdote que ajudasse na casa dos pastores só para ganhar a terumá. A exceção ocorre quando o pedido do sacerdote não decorre desse interesse: se o animal já tem mácula, ele pode reclamá-lo para comer de imediato, pois não há mais cuidado de criação envolvido; e, havendo Templo, se é sem mácula, pode reclamá-lo para oferecê-lo logo, pela mesma razão.
O primogênito é comido ano a ano, tanto sem mácula quanto com mácula, como está dito: “Perante o Senhor teu Deus o comerás, ano a ano.”
— A mishná fecha com o princípio geral por trás de todos esses prazos: o primogênito — seja oferecido no Templo (quando sem mácula) e comido pelo sacerdote em Jerusalém, seja comido pelo sacerdote fora do Templo (quando com mácula) — deve ser consumido dentro do primeiro ano de vida, e não guardado indefinidamente. É esse limite temporal que a próxima mishná vem detalhar, para os casos em que a mácula surge apenas depois de decorrido esse ano.
Rambam explica que “cuidar” significa ocupar-se da criação do animal; e que todos os presentes sacerdotais só podem ser entregues aos sacerdotes de modo honroso, como aproximação ao lugar sagrado, e não como recompensa por trabalho — por isso não se dá ao sacerdote nada que envolva labor, salvo o que já está pronto; foi ensinado numa beraita que sacerdotes, levitas e pobres que ajudam na casa dos pastores, na eira ou no matadouro não recebem terumá e maasser como salário por essa ajuda, e se o fizeram, profanaram o presente. Por esse princípio, se o sacerdote pediu o animal dentro do prazo, o dono não deve entregá-lo — a menos que o reclame por já ter mácula, pois, sendo já apto ao abate, não há razão para retê-lo. E a alusão aos trinta dias no rebanho miúdo e cinquenta no graúdo, explica Rambam, está na justaposição, no versículo, entre “não demorarás [a oferecer] de tua plenitude e de teu suco” e, logo em seguida, “assim farás com teu boi, com tua ovelha”. E Rabi Yossei entende que o cuidado do rebanho miúdo demanda mais tempo, porque seus dentes são finos e frágeis, sendo preciso alimentá-lo até que se fortaleçam e ele possa mastigar sozinho — mas a lei não segue Rabi Yossei.
Bartenura esclarece que “cuidar do primogênito” significa ocupar-se de sua criação antes de entregá-lo ao sacerdote.
Rashi explica que “cuidar do primogênito” se refere, em nossos dias, ao período antes de entregá-lo ao sacerdote, durante o qual o dono é obrigado a mantê-lo consigo, mesmo contra sua vontade, e a sustentá-lo; remete à Guemará a explicação de por que não se deve entregá-lo antes do prazo; e esclarece que a permissão de entregar antes do prazo, quando o sacerdote pede para comer, vale apenas se o animal já tem mácula. Por fim, identifica “sem mácula” com o tempo em que o Templo estava de pé, e “com mácula” com os nossos dias, sem Templo.