O pelo de primogênito com mácula que caiu, e foi guardado num compartimento, e depois foi abatido: Akavya ben Mahalalel permite; e os sábios proíbem. Palavras de Rabi Yehuda.
— Um primogênito consagrado não pode ser tosquiado; mas, uma vez que desenvolve mácula permanente, pode ser abatido fora do Templo e comido pelos donos, e sua lã — presa ao corpo no momento do abate — passa a ser permitida para uso. A mishná pergunta sobre um caso intermediário: pelo que já havia caído do animal enquanto ainda vivo, antes do abate, e que o dono guardou num compartimento (janela ou nicho na parede) para não perdê-lo. Quando, depois, o animal é validamente abatido, esse pelo já separado também se torna permitido, retroativamente, pelo mesmo abate que libera a lã ainda presa — essa é a posição de Akavya ben Mahalalel. Os sábios, segundo o relato de Rabi Yehuda, discordam: para eles, o pelo que caiu antes do abate nunca chega a se beneficiar da permissão que o abate confere, e permanece proibido mesmo depois.
Rabi Yossei disse: não foi nesse caso que Akavya permitiu; mas sim no pelo de primogênito com mácula que caiu e foi guardado num compartimento, e depois o animal morreu — nesse caso, Akavya ben Mahalalel permite, e os sábios proíbem.
— Rabi Yossei reformula os termos exatos da controvérsia relatada por Rabi Yehuda. Segundo ele, todos concordam que, se o animal foi devidamente abatido, o pelo previamente caído e guardado se torna permitido junto com o resto — nesse ponto não há disputa alguma. A verdadeira controvérsia entre Akavya e os sábios só existe quando o animal, em vez de ser abatido, simplesmente morre por conta própria: nesse caso, a lã ainda presa ao corpo do animal morto deve ser sepultada junto com ele, sem qualquer aproveitamento; a pergunta é se o pelo que já havia caído antes da morte, e estava guardado à parte, compartilha dessa mesma proibição. Akavya permite seu uso, por já estar destacado do corpo antes da morte; os sábios proíbem, temendo que, se fosse permitido, o dono se sentisse tentado a atrasar o abate do animal só para colher mais desse pelo que cai.
A lã emaranhada no primogênito: a que aparece como parte da tosquia é permitida; e a que não aparece como parte da tosquia é proibida.
— A mishná fecha o Perek Guimel com um terceiro caso, distinto dos anteriores: lã que não caiu por completo, mas ficou apenas parcialmente solta, emaranhada junto ao resto do velo, sem se destacar do corpo do animal. Quando esse animal é tosquiado após o abate, o critério é visual e prático: se essa lã solta está tão misturada ao restante que não se distingue como algo à parte, ela é tratada como qualquer outra lã da tosquia normal, e é permitida; mas se ela se destaca visivelmente do resto — reconhecível por qualquer um como algo separado — é tratada como se já tivesse caído por completo antes do abate, sujeita, portanto, às mesmas restrições discutidas nos casos anteriores.
Rambam explica a raiz de toda a controvérsia: a Torá proíbe tosquiar a lã do primogênito, e obriga que ele seja comido dentro do primeiro ano, se nasceu sem mácula, ou conforme sua mácula, ano após ano; e quando lhe cai uma mácula, é proibido tirar proveito de sua tosquia, para que o dono não o retenha sem abatê-lo — mas, uma vez abatido, é permitido aproveitar a lã que estiver sobre ele. Já a lã que caiu enquanto ainda vivo, antes do abate: segundo Rabi Yehuda, Akavya a permite depois do abate, e os sábios a mantêm proibida mesmo depois do abate; mas, segundo Rabi Yossei, até os sábios permitem seu uso depois do abate (sem demora), e a única controvérsia real é sobre o caso em que o animal morre: os sábios proíbem, por decreto, temendo que o dono retenha o animal vivo por anos só para aproveitar tudo o que dele cai depois de sua morte; e Akavya permite. Rambam decide a lei: a controvérsia se refere ao caso de abate, mas, no caso de morte natural, até Akavya proíbe. E quanto a “a que aparece junto à tosquia”, explica que é como se tivesse caído, sendo proibida mesmo depois do abate, segundo os sábios — e o critério para “o que não aparece junto” é toda lã cuja raiz está voltada para a cabeça do animal. Conclui que a lei segue os sábios.
Bartenura explica que Akavya permite ao sacerdote tirar proveito da lã, enquanto os sábios proíbem — por temerem que, se fosse permitido o uso da lã caída em vida, o dono se sentisse tentado a retardar o abate do primogênito só para que mais lã caísse dele a cada momento, correndo o risco de chegar a tosquiá-lo e usá-lo para trabalho, o que é proibido em qualquer animal consagrado desqualificado. Sobre “não foi nesse caso que Akavya permitiu”, esclarece que, uma vez abatido o animal, todos concordam que a lã é permitida — tanto a que está presa quanto a que já havia caído e ficara guardada — pois o mesmo abate que libera uma libera a outra; a controvérsia real só existe quando o animal morre sem ser abatido, caso em que a lã presa ao corpo precisa ser sepultada, e Akavya permite a lã já caída antes da morte, enquanto os sábios proíbem, por decreto, temendo que o dono atrase o abate para colher mais lã. E a lei decide que mesmo depois do abate a lã caída em vida é proibida. Sobre a “lã emaranhada”, explica que é a que não se soltou por completo, mas permanece presa ao resto sem cair; se, ao tosquiar o animal após o abate, ela se mistura ao restante sem parecer separada, é permitida como toda a tosquia; mas se sai demais e é reconhecível por todos como separada, é proibida, como se tivesse caído por completo antes do abate. E a lei segue os sábios, que discordam de Akavya.
Rashi identifica o sujeito de “permite”, no início da mishná, como Akavya permitindo ao sacerdote tirar proveito da lã. Sobre “e os sábios proíbem”, explica a razão do decreto: se fosse permitido o uso da lã que cai do animal ainda vivo, o dono se sentiria tentado a retardar o abate do primogênito só para que mais lã caísse a cada momento, correndo o risco de acabar tosquiando-o e utilizando-o para trabalho — algo proibido em qualquer animal consagrado desqualificado. Sobre a correção de Rabi Yossei, “não foi nesse caso que Akavya permitiu”, remete à própria Guemará para explicar o sentido exato da frase; e esclarece que “e depois morreu” significa, precisamente, que o animal não chegou a ser abatido.
Rashi define a lã “emaranhada” como aquela que já se soltou da pele, mas permanece enroscada junto ao resto da lã, sem chegar a cair. Sobre “a que aparece junto à tosquia”, explica: quando o animal é abatido e depois tosquiado, se essa lã solta ficar igual ao restante da tosquia, sem parecer separada dela, é permitida como toda a lã tosquiada. E “a que não aparece junto à tosquia” é a que se destaca demais, reconhecível por todos como separada do resto — e por isso tratada como se tivesse caído por completo antes do abate. Rashi observa, por fim, que a opinião anônima da mishná, nesse ponto, segue os sábios, que discordam de Akavya.