Seder Kodashim · Massechet Bechorot · Perek Guimel · Mishná 4 de 4

O pelo do primogênito com mácula que caiu antes do abate

שְׂעַר בְּכוֹר בַּעַל מוּם שֶׁנָּשַׁר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Pelo que caiu e foi guardado, e depois o animal foi abatido: Akavya permite, os sábios proíbem — segundo Rabi Yehuda

O pelo de primogênito com mácula que caiu, e foi guardado num compartimento, e depois foi abatido: Akavya ben Mahalalel permite; e os sábios proíbem. Palavras de Rabi Yehuda.

— Um primogênito consagrado não pode ser tosquiado; mas, uma vez que desenvolve mácula permanente, pode ser abatido fora do Templo e comido pelos donos, e sua lã — presa ao corpo no momento do abate — passa a ser permitida para uso. A mishná pergunta sobre um caso intermediário: pelo que já havia caído do animal enquanto ainda vivo, antes do abate, e que o dono guardou num compartimento (janela ou nicho na parede) para não perdê-lo. Quando, depois, o animal é validamente abatido, esse pelo já separado também se torna permitido, retroativamente, pelo mesmo abate que libera a lã ainda presa — essa é a posição de Akavya ben Mahalalel. Os sábios, segundo o relato de Rabi Yehuda, discordam: para eles, o pelo que caiu antes do abate nunca chega a se beneficiar da permissão que o abate confere, e permanece proibido mesmo depois.

שְׂעַר בְּכוֹר בַּעַל מוּם שֶׁנָּשַׁר וְהִנִּיחוֹ בַחַלּוֹן וְאַחַר כָּךְ שְׁחָטוֹ, עֲקַבְיָא בֶּן מַהֲלַלְאֵל מַתִּיר, וַחֲכָמִים אוֹסְרִין, דִּבְרֵי רַבִּי יְהוּדָה.
Rabi Yossei corrige: a disputa real é sobre o pelo guardado quando o animal morre, não quando é abatido

Rabi Yossei disse: não foi nesse caso que Akavya permitiu; mas sim no pelo de primogênito com mácula que caiu e foi guardado num compartimento, e depois o animal morreu — nesse caso, Akavya ben Mahalalel permite, e os sábios proíbem.

— Rabi Yossei reformula os termos exatos da controvérsia relatada por Rabi Yehuda. Segundo ele, todos concordam que, se o animal foi devidamente abatido, o pelo previamente caído e guardado se torna permitido junto com o resto — nesse ponto não há disputa alguma. A verdadeira controvérsia entre Akavya e os sábios só existe quando o animal, em vez de ser abatido, simplesmente morre por conta própria: nesse caso, a lã ainda presa ao corpo do animal morto deve ser sepultada junto com ele, sem qualquer aproveitamento; a pergunta é se o pelo que já havia caído antes da morte, e estava guardado à parte, compartilha dessa mesma proibição. Akavya permite seu uso, por já estar destacado do corpo antes da morte; os sábios proíbem, temendo que, se fosse permitido, o dono se sentisse tentado a atrasar o abate do animal só para colher mais desse pelo que cai.

אָמַר רַבִּי יוֹסֵי, לֹא בָזֶה הִתִּיר עֲקַבְיָא, אֶלָּא בִשְׂעַר בְּכוֹר בַּעַל מוּם שֶׁנָּשַׁר וְהִנִּיחוֹ בַּחַלּוֹן וְאַחַר כָּךְ מֵת, בָּזֶה עֲקַבְיָא בֶּן מַהֲלַלְאֵל מַתִּיר, וַחֲכָמִים אוֹסְרִין.
A lã emaranhada que ainda parece parte da tosquia é permitida; a que já parece destacada é proibida

A lã emaranhada no primogênito: a que aparece como parte da tosquia é permitida; e a que não aparece como parte da tosquia é proibida.

— A mishná fecha o Perek Guimel com um terceiro caso, distinto dos anteriores: lã que não caiu por completo, mas ficou apenas parcialmente solta, emaranhada junto ao resto do velo, sem se destacar do corpo do animal. Quando esse animal é tosquiado após o abate, o critério é visual e prático: se essa lã solta está tão misturada ao restante que não se distingue como algo à parte, ela é tratada como qualquer outra lã da tosquia normal, e é permitida; mas se ela se destaca visivelmente do resto — reconhecível por qualquer um como algo separado — é tratada como se já tivesse caído por completo antes do abate, sujeita, portanto, às mesmas restrições discutidas nos casos anteriores.

הַצֶּמֶר הַמְדֻבְלָל בַּבְּכוֹר, אֶת שֶׁהוּא נִרְאֶה מִן הַגִּזָּה, מֻתָּר. וְאֶת שֶׁאֵינוֹ נִרְאֶה מִן הַגִּזָּה, אָסוּר.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Bechorot 3:4
שער בכור בעל מום שנשר והניחו בחלון ואח"כ כו': עיקר המחלוקת האלה כמו שאני מגיד והוא שהכתוב אסר לגזוז צמר הבכור וחייב לאוכלו תוך שנתו שנולד בו כמו שיתבאר אם היה תמים ואם היה בעל מום לפי שנה בשנה וכשיפול בו מום אסור ליהנות בגיזתו כדי שלא יאחר אותו ולא ישחטהו וכשישחטהו מותר לו ליהנות בצמר שעליו אבל מה שנשר ממנו בעודו חי קודם השחיטה ר' יהודה אומר שעקביא מתיר אותו אחר שחיטתו וחכמים מעמידים אותו באיסורו ואפילו אחר שחיטה שהוא אסור בהנאה ור' יוסי אומר אפילו חכמים מתירים ליהנות ממנו אחר שחיטה [ולא שהה] ולא נחלקו אלא אם מת איך יהא דין אותו הצמר שנשר ממנו בעודו חי אחר מותו חכמים אוסרים גזירה שמא ישהה אותו שנים כדי להנות בכל מה שנשר ממנו לאחר מותו ועקביא מתיר ופסק ההלכה שמחלוקתם לאחר שחיטה אבל לאחר מיתה אפילו עקביא אוסר ומה שאמר את שהוא נראה עם הגיזה הרי הוא כאילו נשר ודינו שהוא אסור בהנאה ואפילו לאחר שחיטה על דעת חכמים. אמר היכי דמי שאינו נראה עמו כל שעיקרו הפוך כלפי ראשו והלכה כחכמים:

Rambam explica a raiz de toda a controvérsia: a Torá proíbe tosquiar a lã do primogênito, e obriga que ele seja comido dentro do primeiro ano, se nasceu sem mácula, ou conforme sua mácula, ano após ano; e quando lhe cai uma mácula, é proibido tirar proveito de sua tosquia, para que o dono não o retenha sem abatê-lo — mas, uma vez abatido, é permitido aproveitar a lã que estiver sobre ele. Já a lã que caiu enquanto ainda vivo, antes do abate: segundo Rabi Yehuda, Akavya a permite depois do abate, e os sábios a mantêm proibida mesmo depois do abate; mas, segundo Rabi Yossei, até os sábios permitem seu uso depois do abate (sem demora), e a única controvérsia real é sobre o caso em que o animal morre: os sábios proíbem, por decreto, temendo que o dono retenha o animal vivo por anos só para aproveitar tudo o que dele cai depois de sua morte; e Akavya permite. Rambam decide a lei: a controvérsia se refere ao caso de abate, mas, no caso de morte natural, até Akavya proíbe. E quanto a “a que aparece junto à tosquia”, explica que é como se tivesse caído, sendo proibida mesmo depois do abate, segundo os sábios — e o critério para “o que não aparece junto” é toda lã cuja raiz está voltada para a cabeça do animal. Conclui que a lei segue os sábios.

Bartenura · Bechorot 3:4
עֲקַבְיָא בֶּן מַהֲלַלְאֵל מַתִּיר. הַצֶּמֶר בַּהֲנָאָה לַכֹּהֵן: וַחֲכָמִים אוֹסְרִים. דְּאִי שָׁרֵית לֵיהּ צֶמֶר הַנּוֹשֶׁרֶת מֵחַיִּים אָתֵי לְאַשְׁהוֹיֵי לַבְּכוֹר כְּדֵי שֶׁתַּשִּׁיר צִמְרוֹ כָּל שָׁעָה, וְאָתֵי בָהּ לִידֵי תַקָּלָה שֶׁיִּגְזֹז וְיַעֲבֹד בּוֹ, וּפְסוּלֵי הַמֻּקְדָּשִׁין אֲסִירֵי בְגִזָּה וַעֲבוֹדָה: לֹא בָזֶה הִתִּיר עֲקַבְיָא. כְּלוֹמַר לֹא בָזֶה עֲקַבְיָא מַתִּיר וַחֲכָמִים אוֹסְרִים, דְּבִשְׁחָטוֹ דִּבְרֵי הַכֹּל שָׁרֵי, דְּמִגּוֹ דִמְהַנְּיָא שְׁחִיטָה לַצֶּמֶר הַמְחֻבָּר בּוֹ לְהַתִּירוֹ לְאַחַר שְׁחִיטָה מְהַנְּיָא נַמִּי לְתָלוּשׁ וּמֻנָּח בַּחַלּוֹן. וְלֹא נֶחְלְקוּ אֶלָּא בְמֵת, דְּאוֹתוֹ צֶמֶר הַמְחֻבָּר בּוֹ טָעוּן קְבוּרָה, עֲקַבְיָא מַתִּיר לַצֶּמֶר שֶׁנָּשַׁר מִמֶּנּוּ כְּשֶׁהוּא בַּחַיִּים, וַחֲכָמִים אוֹסְרִים, גְּזֵרָה שֶׁמָּא יַשְׁהֶנּוּ כְּדֵי לֵהָנוֹת בַּצֶּמֶר שֶׁנּוֹשֵׁר מִמֶּנּוּ כָּל שָׁעָה. וּפְסַק הַהֲלָכָה, דַּאֲפִלּוּ לְאַחַר שְׁחִיטָה צֶמֶר שֶׁנָּשַׁר מִמֶּנּוּ בַּחַיִּים אָסוּר: צֶמֶר הַמְדֻבְלָל. שֶׁלֹּא נִתְלַשׁ לְגַמְרֵי אֲבָל מְחֻבָּר הוּא עִם הַצֶּמֶר וְאֵינוֹ נוֹפֵל: אֶת שֶׁנִּרְאֶה עִם הַגִּזָּה. כְּשֶׁיִּשְׁחָטֶנּוּ וְגוֹזְזוֹ לְאַחַר שְׁחִיטָה, וִיהֵא הַצֶּמֶר הַמְדֻבְלָל נִבְלָל עִם שְׁאָר הַגִּזָּה וְאֵינוֹ נִרְאֶה כְמֻפְרָשׁ מִמֶּנָּה, מֻתָּר כִּשְׁאָר הַגִּזָּה: וְשֶׁאֵינוֹ נִרְאֶה עִם הַגִּזָּה. שֶׁיָּצָא חוּץ יוֹתֵר מִדַּאי וְנִכָּר לַכֹּל שֶׁמֻּבְדָּל מִן הַגִּזָּה: אָסוּר. כְּמִי שֶׁנָּשַׁר לְגַמְרֵי קֹדֶם שְׁחִיטָה. וּסְתָמָא כְרַבָּנָן דִּפְלִיגֵי עֲלֵיהּ דַּעֲקַבְיָא דְהִלְכָתָא כְוָתַיְהוּ:

Bartenura explica que Akavya permite ao sacerdote tirar proveito da lã, enquanto os sábios proíbem — por temerem que, se fosse permitido o uso da lã caída em vida, o dono se sentisse tentado a retardar o abate do primogênito só para que mais lã caísse dele a cada momento, correndo o risco de chegar a tosquiá-lo e usá-lo para trabalho, o que é proibido em qualquer animal consagrado desqualificado. Sobre “não foi nesse caso que Akavya permitiu”, esclarece que, uma vez abatido o animal, todos concordam que a lã é permitida — tanto a que está presa quanto a que já havia caído e ficara guardada — pois o mesmo abate que libera uma libera a outra; a controvérsia real só existe quando o animal morre sem ser abatido, caso em que a lã presa ao corpo precisa ser sepultada, e Akavya permite a lã já caída antes da morte, enquanto os sábios proíbem, por decreto, temendo que o dono atrase o abate para colher mais lã. E a lei decide que mesmo depois do abate a lã caída em vida é proibida. Sobre a “lã emaranhada”, explica que é a que não se soltou por completo, mas permanece presa ao resto sem cair; se, ao tosquiar o animal após o abate, ela se mistura ao restante sem parecer separada, é permitida como toda a tosquia; mas se sai demais e é reconhecível por todos como separada, é proibida, como se tivesse caído por completo antes do abate. E a lei segue os sábios, que discordam de Akavya.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Sobre a Guemará, Bechorot 25a–25b
מתני' מתיר — את הצמר בהנאה לכהן: וחכמים אוסרין — דאי שרית צמר הנושרת מחיים אתי לשהויי לבכור כדי שתשיר צמר כל שעה ואתי ביה לידי תקלה שיגזוז ויעבוד בו ופסולי המוקדשין אסירי בגיזה ועבודה: לא בזה התיר עקביא — מפרש בגמ' מאי קאמר: ואח"כ מת — לא נשחט:

Rashi identifica o sujeito de “permite”, no início da mishná, como Akavya permitindo ao sacerdote tirar proveito da lã. Sobre “e os sábios proíbem”, explica a razão do decreto: se fosse permitido o uso da lã que cai do animal ainda vivo, o dono se sentiria tentado a retardar o abate do primogênito só para que mais lã caísse a cada momento, correndo o risco de acabar tosquiando-o e utilizando-o para trabalho — algo proibido em qualquer animal consagrado desqualificado. Sobre a correção de Rabi Yossei, “não foi nesse caso que Akavya permitiu”, remete à própria Guemará para explicar o sentido exato da frase; e esclarece que “e depois morreu” significa, precisamente, que o animal não chegou a ser abatido.

Rashi רַשִׁ"י
Sobre a Guemará, Bechorot 25b
המדולדל — שנתלש מן העור אבל מסובך הוא עם שאר הצמר ואינו נופל: את שנראה עם הגיזה — כשישחטנו ויגזזנו לאחר שחיטה יהא צמר מדולדל שוה עם שאר הגיזה ואינו נראה כשפירש הימנה מותר כשאר הגיזה: ושאינו נראה עם הגיזה — שיצא חוץ יותר מדאי וניכר לכל שמובדל הוא מן הגיזה כמי שנשר לגמרי קודם שחיטה. וסתמא כרבנן דפליגי עליה דעקביא:

Rashi define a lã “emaranhada” como aquela que já se soltou da pele, mas permanece enroscada junto ao resto da lã, sem chegar a cair. Sobre “a que aparece junto à tosquia”, explica: quando o animal é abatido e depois tosquiado, se essa lã solta ficar igual ao restante da tosquia, sem parecer separada dela, é permitida como toda a lã tosquiada. E “a que não aparece junto à tosquia” é a que se destaca demais, reconhecível por todos como separada do resto — e por isso tratada como se tivesse caído por completo antes do abate. Rashi observa, por fim, que a opinião anônima da mishná, nesse ponto, segue os sábios, que discordam de Akavya.