Seder Nezikin · Massechet Bava Metzia · Perek Vav · Mishná 8 de 8

Aquele que transporta um barril

הַמַּעֲבִיר חָבִית מִמָּקוֹם לְמָקוֹם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerrando o Perek Vav, a mishná trata do transportador de um barril que se quebra: tanto o guardião gratuito quanto o remunerado se isentam mediante juramento de que não houve negligência. Rabi Eliezer confirma essa tradição recebida de seus mestres, mas encerra o perek com uma nota rara de perplexidade — questionando a própria lógica da regra que ele transmite.

Aquele que transporta um barril de um lugar para outro e o quebrou — seja guardião gratuito, seja guardião remunerado — jura [que não foi negligente] e fica isento.Ainda que, em geral, o guardião remunerado responda mesmo por acidentes que não envolvem negligência plena, no caso específico de quebrar um objeto durante o transporte a mishná concede a ambos os tipos de guardião a possibilidade de se eximir com um simples juramento de que agiram sem descuido — uma leniência que, como a Guemará explica, é uma providência rabínica (takanat chachamim) destinada a garantir que sempre haja quem aceite transportar objetos alheios.

Rabi Eliezer diz: tanto este quanto aquele juram — mas eu me admiro se este e aquele podem [de fato] jurar.Rabi Eliezer confirma, em nome da tradição recebida de seus mestres, que ambos os guardiões juram e se isentam — mas conclui o perek com uma reflexão sincera sobre a dificuldade lógica dessa regra: como pode um guardião remunerado, normalmente responsável mesmo sem negligência plena (como em furto ou perda), eximir-se apenas jurando que "não foi negligente"? E como pode um guardião gratuito jurar isso, se a quebra ocorreu justamente por ter escolhido um caminho íngreme ou perigoso — o que já constituiria, em si, uma forma de negligência?

הַמַּעֲבִיר חָבִית מִמָּקוֹם לְמָקוֹם וּשְׁבָרָהּ, בֵּין שׁוֹמֵר חִנָּם בֵּין שׁוֹמֵר שָׂכָר, יִשָּׁבַע. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, זֶה וְזֶה יִשָּׁבַע, וְתָמֵהַּ אֲנִי אִם יְכוֹלִין זֶה וָזֶה לִשָּׁבֵעַ:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica a fundo a lógica da perplexidade de Rabi Eliezer e a resposta da Guemará; Bartenura confirma que, apesar da dúvida expressa, a regra permanece válida como decreto rabínico.

Rambam · Perush HaMishná, Bava Metzia 6:8
הַמַּעֲבִיר חָבִית מִמָּקוֹם לְמָקוֹם וּשְׁבָרָהּ בֵּין כוּ': יִשָּׁבַע שְׁבוּעַת הַתּוֹרָה שֶׁלֹּא פָּשַׁע בָּהּ וְיִפָּטֵר. וְתָמַהּ רַבִּי אֱלִיעֶזֶר בָּזֶה הַדִּין וְאָמַר אֵיךְ יִתָּכֵן שֶׁיִּשָּׁבַע בְּכָגוֹן זֶה שׁוֹמֵר חִנָּם וְשׁוֹמֵר שָׂכָר, לְפִי שֶׁשּׁוֹמֵר שָׂכָר וַאֲפִלּוּ לֹא פָּשַׁע, וְשׁוֹמֵר חִנָּם גַּם כֵּן, אִם הָיָה אוֹתוֹ הַמָּקוֹם שֶׁצִּוָּה לוֹ שֶׁיַּעֲבִיר לְשָׁם הֶחָבִית מְקוֹם מִדְרוֹן, אוֹ יֵשׁ לוֹ עֵדִים שֶׁלֹּא פָּשַׁע עָלֶיהָ, יִתְחַיֵּב גַּם כֵּן שְׁבוּעָה... אֲבָל אָמְרוּ שְׁבוּעָה זוֹ תַּקָּנַת חֲכָמִים הִיא, שֶׁאִם אֵין אַתָּה אוֹמֵר כֵּן אֵין לְךָ אָדָם שֶׁמַּעֲבִיר חָבִית לַחֲבֵרוֹ מִמָּקוֹם לְמָקוֹם:

Rambam expõe com clareza a base da perplexidade de Rabi Eliezer: por lógica estrita, um guardião remunerado deveria responder mesmo sem negligência plena — de modo que um simples juramento de "não fui negligente" não deveria bastar para isentá-lo; e um guardião gratuito, se o percurso determinado era íngreme e perigoso, já teria agido com negligência ao aceitá-lo, tornando impossível jurar honestamente que não pecou. Apesar dessa dificuldade real, a resposta da Guemará é que essa dupla isenção por juramento é uma providência instituída pelos sábios: sem ela, ninguém se disporia a transportar barris alheios de um lugar a outro, com medo de responder por qualquer acidente.

Bartenura · Bava Metzia 6:8
בֵּין שׁוֹמֵר חִנָּם וּבֵין שׁוֹמֵר שָׂכָר יִשָּׁבַע. קָא סַלְקָא דַּעְתֵּיהּ יִשָּׁבַע שֶׁלֹּא פָּשַׁע וְיִפָּטֵר: רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר זֶה וְזֶה יִשָּׁבַע וְכוּ'. כְּלוֹמַר, אַף אֲנִי שָׁמַעְתִּי מֵרַבּוֹתַי כְּרַבִּי מֵאִיר דְּזֶה וְזֶה יִשָּׁבַע, אֲבָל תָּמֵהַּ אֲנִי עַל זֶה וְעַל זֶה הֵיאַךְ נִפְטָרִין בִּשְׁבוּעָה... וְרַבִּי מֵאִיר סָבַר, שְׁבוּעָה זוֹ לֹא מִן הַדִּין הִיא אֶלָּא תַּקָּנַת חֲכָמִים הִיא, שֶׁאִם אִי אַתָּה פּוֹטֵר הַמַּעֲבִיר חָבִית מִמָּקוֹם לְמָקוֹם מִן הַתַּשְׁלוּמִין עַל יְדֵי שְׁבוּעָה זוֹ, אֵין לְךָ אָדָם שֶׁיַּעֲבִיר חָבִית לַחֲבֵרוֹ מִמָּקוֹם לְמָקוֹם:

Bartenura esclarece que a leitura inicial da mishná é que o juramento de não negligência basta para isentar. Explica que Rabi Eliezer, ao dizer "eu me admiro", está transmitindo fielmente o que recebeu de seus mestres — na linha de Rabi Meir — mesmo sem compreender plenamente sua lógica: pois, tecnicamente, nem o guardião remunerado deveria se safar apenas negando negligência, nem o guardião gratuito deveria poder jurar honestamente que não foi negligente, se o percurso era perigoso. Conclui, na voz de Rabi Meir, que o juramento aqui não decorre da lei estrita da Torá, mas de uma providência dos sábios — sem a qual ninguém aceitaria transportar barris para os outros.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi, em Bava Metzia 82b, confirma a leitura da perplexidade de Rabi Eliezer e a resposta da Guemará sobre a natureza rabínica do juramento.

Rashi רש״י
Bava Metzia 82b
מתני' ישבע - שלא פשע ויפטר ובגמרא מפרש טעמא אמאי פטור שומר שכר בשבועה הא בלאו פשיעה נמי חייב שאין זה אונס אלא כגניבה ואבידה שהן קרובין לאונס ופשיעה: ר' אליעזר אומר זה וזה ישבע ותמיה אני וכו' - כלומר אף אני שמעתי מרבותי כרבי מאיר אבל תמיה אני על זה וע"ז היאך נפטרין בשבועה ובגמרא מפרש תמיהה:

Rashi confirma que o juramento é especificamente sobre a ausência de negligência, e remete à Guemará para a explicação de por que isso basta para isentar até o guardião remunerado — já que, em princípio, ele deveria responder mesmo sem negligência plena, tal como responde por furto e perda, categorias próximas tanto da força maior quanto da negligência. Confirma também que Rabi Eliezer transmite a regra recebida de seus mestres — na linha de Rabi Meir —, mas expressa perplexidade genuína sobre como ambos os guardiões podem, de fato, eximir-se por juramento; a Guemará, conclui Rashi, é quem desenvolve essa perplexidade em detalhe.