Seder Nezikin · Massechet Bava Metzia · Perek Vav · Mishná 4 de 8

Aquele que contrata a vaca para arar

הַשּׂוֹכֵר אֶת הַפָּרָה לַחֲרשׁ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Continuando a série de animais alugados, a mishná aplica o mesmo princípio do desvio de terreno à vaca contratada para arar, e acrescenta um caso paralelo: a vaca contratada para debulhar um tipo de grão, mas usada para debulhar outro.

Aquele que contrata a vaca para arar no monte, mas arou no vale: se a relha se quebrou, está isento.O terreno montanhoso, cheio de pedras, é o que normalmente quebra a relha do arado; ao desviar para o vale — terreno mais macio — o locatário não pode ser responsabilizado, pois o desvio não foi a causa da quebra.

[Contratou] para [arar] no vale, mas arou no monte: se a relha se quebrou, é responsável.Aqui, ao contrário, o desvio para o terreno pedregoso do monte é precisamente o que expõe a relha ao risco de quebra — por isso ele responde.

[Contratou] para debulhar leguminosas, mas debulhou cereal, está isento.As leguminosas fazem o animal escorregar mais do que o cereal; ao desviar para o cereal — mais seguro — e o animal ainda assim se acidentar, o desvio não é a causa, e ele fica isento.

[Contratou] para debulhar cereal, mas debulhou leguminosas, é responsável, porque a leguminosa faz escorregar.Inversamente, desviar para a debulha de leguminosas expõe o animal ao risco de escorregar — por isso, se ele se acidentar, o locatário responde, pois foi justamente o desvio que causou o dano.

הַשּׂוֹכֵר אֶת הַפָּרָה לַחֲרשׁ בָּהָר וְחָרַשׁ בַּבִּקְעָה, אִם נִשְׁבַּר הַקַּנְקַן, פָּטוּר. בַּבִּקְעָה וְחָרַשׁ בָּהָר, אִם נִשְׁבַּר הַקַּנְקַן, חַיָּב. לָדוּשׁ בַּקִּטְנִית וְדָשׁ בַּתְּבוּאָה, פָּטוּר, לָדוּשׁ בַּתְּבוּאָה וְדָשׁ בַּקִּטְנִית, חַיָּב, מִפְּנֵי שֶׁהַקִּטְנִית מַחֲלָקֶת:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam esclarece que, quando é o próprio artesão que segura o arado e o quebra, é ele — não o dono da vaca — quem paga; Bartenura acrescenta que, no caso da debulha, a isenção só vale se o animal escorregou.

Rambam · Perush HaMishná, Bava Metzia 6:4
הַשּׂוֹכֵר אֶת הַפָּרָה לַחֲרוֹשׁ בָּהָר וְחָרַשׁ בַּבִּקְעָה כוּ': קַנְקָן שֵׁם הַמַּחְרֵשָׁה. וְאָמְרוּ פָּטוּר, רְצוֹנִי לוֹמַר שֶׁלֹּא יְשַׁלֵּם הַשּׂוֹכֵר לְבַעַל הַפָּרָה, אֶלָּא הָאֻמָּן שֶׁחָרַשׁ וְהָיָה תּוֹפֵס הַמַּחְרֵשָׁה וּשְׁבָרָהּ הוּא יְשַׁלֵּם לְבַעַל הַפָּרָה:

Rambam esclarece um ponto técnico importante: "קַנְקָן" é o nome da relha do arado, e "está isento" significa que o próprio locatário não deve nada ao dono da vaca — mas isso não isenta necessariamente qualquer pessoa: se foi o artesão contratado para arar, segurando o arado no momento em que a relha quebrou, é ele quem paga ao dono da vaca, e não quem o contratou.

Bartenura · Bava Metzia 6:4
הַשּׂוֹכֵר אֶת הַפָּרָה לַחֲרֹשׁ וְכוּ'. וְכָל כְּלֵי הַמַּחְרֵשָׁה לְבַעַל הַפָּרָה, וּנְעָרָיו הוֹלְכִים עִם בְּהֶמְתּוֹ וְחוֹרְשִׁים בָּהּ: נִשְׁבַּר הַקַּנְקָן. יָתֵד הַמַּחְרֵשָׁה שֶׁבּוֹ הַבַּרְזֶל: חַיָּב. שֶׁהָרִים קָשִׁים לַחֲרֹשׁ מִן הַבִּקְעָה מִפְּנֵי הַסְּלָעִים שֶׁיֵּשׁ שָׁם: וְדָשׁ בַּתְּבוּאָה. פָּטוּר אִם הֶחֱלִיקָה:

Bartenura acrescenta que, tipicamente, todo o equipamento do arado pertence ao próprio dono da vaca, cujos empregados acompanham o animal e conduzem a lavoura. Identifica o "kankan" como a estaca de ferro do arado. E, quanto à debulha, precisa que a isenção do que desviou para o cereal só se aplica se o dano ocorreu por escorregão — a causa que as leguminosas provocam com mais frequência.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi, em Bava Metzia 80a, identifica o "kankan" com o termo em língua estrangeira usado em sua época e explica a razão geográfica da regra sobre a relha.

Rashi רש״י
Bava Metzia 80a
מתני' השוכר את הפרה לחרוש וכו' - וכל כלי המחרישה לבעל הבקר ונעריו הולכין עם בהמתו וזה אוחז הדרבן לכוין הפרה לתלמיה וזה הולך אחר המחרישה ומכביד היתד בקרקע שבו הברזל שקורין קולטר"א בלע"ז והוא קנקן דמתני': חייב - שהרים קשים לחרוש שהסלעים שם: ודש בתבואה פטור - אם החליקה:

Rashi descreve a cena: todo o equipamento do arado pertence ao dono do gado, e os empregados acompanham o animal — um segura a vara para guiar a vaca pelo sulco, e o outro caminha atrás do arado, pressionando contra o solo a estaca de ferro, que ele identifica pelo termo em língua estrangeira de sua época ("קולטר"א", cognato do latim culter, o ferro do arado) — este é o "kankan" da mishná. Confirma que a responsabilidade no desvio para o monte se deve às pedras que dificultam a lavoura, e que a isenção na debulha de cereal aplica-se ao caso em que o animal escorregou.