Aquele que contrata a vaca para arar no monte, mas arou no vale: se a relha se quebrou, está isento. — O terreno montanhoso, cheio de pedras, é o que normalmente quebra a relha do arado; ao desviar para o vale — terreno mais macio — o locatário não pode ser responsabilizado, pois o desvio não foi a causa da quebra.
[Contratou] para [arar] no vale, mas arou no monte: se a relha se quebrou, é responsável. — Aqui, ao contrário, o desvio para o terreno pedregoso do monte é precisamente o que expõe a relha ao risco de quebra — por isso ele responde.
[Contratou] para debulhar leguminosas, mas debulhou cereal, está isento. — As leguminosas fazem o animal escorregar mais do que o cereal; ao desviar para o cereal — mais seguro — e o animal ainda assim se acidentar, o desvio não é a causa, e ele fica isento.
[Contratou] para debulhar cereal, mas debulhou leguminosas, é responsável, porque a leguminosa faz escorregar. — Inversamente, desviar para a debulha de leguminosas expõe o animal ao risco de escorregar — por isso, se ele se acidentar, o locatário responde, pois foi justamente o desvio que causou o dano.
Rambam esclarece que, quando é o próprio artesão que segura o arado e o quebra, é ele — não o dono da vaca — quem paga; Bartenura acrescenta que, no caso da debulha, a isenção só vale se o animal escorregou.
Rambam esclarece um ponto técnico importante: "קַנְקָן" é o nome da relha do arado, e "está isento" significa que o próprio locatário não deve nada ao dono da vaca — mas isso não isenta necessariamente qualquer pessoa: se foi o artesão contratado para arar, segurando o arado no momento em que a relha quebrou, é ele quem paga ao dono da vaca, e não quem o contratou.
Bartenura acrescenta que, tipicamente, todo o equipamento do arado pertence ao próprio dono da vaca, cujos empregados acompanham o animal e conduzem a lavoura. Identifica o "kankan" como a estaca de ferro do arado. E, quanto à debulha, precisa que a isenção do que desviou para o cereal só se aplica se o dano ocorreu por escorregão — a causa que as leguminosas provocam com mais frequência.
Rashi, em Bava Metzia 80a, identifica o "kankan" com o termo em língua estrangeira usado em sua época e explica a razão geográfica da regra sobre a relha.
Rashi descreve a cena: todo o equipamento do arado pertence ao dono do gado, e os empregados acompanham o animal — um segura a vara para guiar a vaca pelo sulco, e o outro caminha atrás do arado, pressionando contra o solo a estaca de ferro, que ele identifica pelo termo em língua estrangeira de sua época ("קולטר"א", cognato do latim culter, o ferro do arado) — este é o "kankan" da mishná. Confirma que a responsabilidade no desvio para o monte se deve às pedras que dificultam a lavoura, e que a isenção na debulha de cereal aplica-se ao caso em que o animal escorregou.