Aquele que contrata a burra para conduzi-la pelo monte, mas a conduziu pelo vale — ou pelo vale, mas a conduziu pelo monte —, ainda que este [caminho] seja dez milhas e aquele também dez milhas, e ela morreu: é responsável. — Mesmo com distância idêntica nos dois trajetos, o simples fato de ter mudado o terreno combinado torna o locatário responsável por qualquer morte do animal — pois o terreno, não a distância, é o que determina o esforço e o risco para o animal, e ele se desviou precisamente nesse ponto.
Aquele que contrata a burra, e ela ficou cega, ou foi requisitada para serviço [público], diz-lhe: "Eis o que é teu diante de ti." — Quando o animal sofre um mal que não decorre do desvio do trajeto — cegueira, doença, ou confisco temporário pelas autoridades —, o dono simplesmente devolve ao locatário o valor já pago (ou o próprio animal, ainda vivo), sem obrigação de fornecer substituto, pois o infortúnio não lhe é imputável.
[Se] morreu ou quebrou [a perna], é obrigado a fornecer-lhe [outra] burra. — Já quando o animal morre ou fica definitivamente incapacitado, o dono deve fornecer um animal substituto para que a viagem prossiga — pois assumiu a obrigação de transportar a carga ou o passageiro até o destino, e não apenas de emprestar aquele animal específico.
Aquele que contrata a burra para conduzi-la pelo monte, mas a conduziu pelo vale: se escorregou, está isento; mas se sofreu insolação, é responsável. — No vale — terreno mais plano — escorregar não é algo esperado; se ainda assim ocorreu, não se pode atribuir a causa ao desvio do monte para o vale, e o locatário fica isento. Mas o vale, cercado de montanhas, retém o calor e não permite a circulação do ar — por isso a insolação ali é diretamente atribuível ao desvio, e ele responde.
[Se a contratou] para conduzi-la pelo vale, mas a conduziu pelo monte: se escorregou, é responsável; mas se sofreu insolação, está isento. Se [sofreu insolação] por causa da subida, é responsável. — Inversamente, o topo do monte é estreito e inclinado para os lados, tornando o escorregão uma consequência esperada do desvio — por isso ele responde. Já a insolação no monte, onde o ar circula livremente, não decorre do desvio em si e ele fica isento — a menos que a insolação tenha sido causada especificamente pelo esforço da subida, e não pelo calor ambiente; nesse caso, por ser efeito direto do desvio, ele volta a responder.
Rambam distingue entre alugar "esta burra" (animal específico) e alugar "uma burra" (genérico), e explica as consequências práticas dessa distinção; Bartenura acrescenta o caso de quem aluga o animal para montar sobre ele.
Rambam esclarece que o dono só pode dizer "eis o que é teu diante de ti" quando alugou um animal específico e determinado para carregar carga; mas se o aluguel foi genérico — "uma burra", sem especificar qual —, ou se o próprio locatário montaria nela, o dono é sempre obrigado a fornecer substituto, mesmo em caso de cegueira ou requisição, pois nesses casos o compromisso era com o serviço de transporte, não com aquele animal específico. Explica ainda que "angarya" é a requisição do animal para o serviço da administração pública.
Bartenura acrescenta a razão por trás da distinção do Rambam: quando o locatário monta pessoalmente sobre um animal específico e este adoece ou é requisitado, o dono não pode simplesmente devolvê-lo — mesmo que ainda vivo, um animal enfraquecido pode cair sob o cavaleiro numa ponte ou jogá-lo num precipício, colocando-o em risco. Por isso, nesse caso, e no do aluguel genérico, o dono é sempre obrigado a fornecer outro animal, e não apenas devolver o valor recebido.
Rashi, em Bava Metzia 78a, explica por que o topo do monte favorece o escorregão e por que o vale, cercado de montanhas, retém o calor.
Rashi explica que "no vale, mas a conduziu pelo monte" refere-se especificamente ao topo do monte — e que, mesmo sendo esse trecho plano e reto, o locatário ainda responde por outras causas de morte, como a insolação, embora não pela queda. Detalha a razão geográfica de cada regra: o topo do monte é estreito e inclinado para os lados, por isso mais propenso a fazer o animal escorregar; já o vale, cercado por montanhas de todos os lados, retém o calor porque o ar não circula livremente ali — daí a insolação ser atribuída ao vale. E "se por causa da subida" refere-se à subida do animal desde o sopé do monte até seu topo: se a insolação resultou especificamente desse esforço — e não do calor ambiente do próprio monte — o locatário responde, pois foi o desvio do trajeto que a causou.