Sua perda e a perda de seu pai, sua perda precede. Sua perda e a perda de seu mestre, a dele precede. A perda de seu pai e a perda de seu mestre, a de seu mestre precede — pois seu pai o trouxe a este mundo, e seu mestre, que lhe ensinou sabedoria, o traz à vida do mundo vindouro. E se seu pai é sábio, a de seu pai precede. — A escala de prioridades revela uma hierarquia de valores: cuidar do próprio sustento vem antes até mesmo do dever para com o pai, pois ninguém é obrigado a se empobrecer para socorrer outro, nem mesmo o progenitor. Mas entre a perda do próprio filho e a de seu mestre de Torá, a do mestre precede — pois, embora o pai tenha dado a vida biológica, é o mestre que ensinou sabedoria quem confere acesso à vida eterna, um bem incomparavelmente maior. A regra se inverte, porém, se o próprio pai é também um sábio erudito: nesse caso, sua perda volta a preceder a do mestre comum.
Se seu pai e seu mestre carregavam um fardo, deixa o do mestre, e depois deixa o do pai. Se seu pai e seu mestre estavam na casa do cativeiro, resgata o mestre, e depois resgata o pai. E se seu pai é sábio, resgata o pai, e depois resgata o mestre. — A mesma hierarquia se aplica a ajudar a descarregar um fardo pesado e a resgatar do cativeiro: em ambos os casos, o mestre de Torá tem prioridade sobre o próprio pai — a menos que o pai seja ele mesmo um sábio, hipótese em que a balança volta a pender para ele, pois a honra e o benefício espiritual concedidos por um pai sábio já se equiparam, ou superam, os de um mestre comum.
Rambam ancora a primeira regra da mishná — que a própria perda precede até a do pai — num princípio que ele extrai do versículo sobre a caridade em Devarim.
Rambam lê esta cláusula, dirigida a quem sustenta os pobres, como um alerta implícito: cuida primeiro de não te tornares tu mesmo o necessitado. Se a Torá exige empenho para tirar outro da pobreza apenas na medida em que isso não te reduza à mesma condição, o mesmo princípio vale, a fortiori, para o dever de socorrer a perda alheia — que não pode legitimamente exigir de ninguém sacrificar o próprio sustento, nem mesmo em favor do pai. Como resumiram os sábios: "o que é teu precede o de qualquer pessoa."
Rambam define quem conta como "mestre" para efeito desta prioridade, e ancora o princípio geral na leitura do versículo sobre a caridade; Bartenura confirma a mesma definição de mestre insigne.
Rambam esclarece um ponto técnico importante: mesmo alguém que ensinou a outrem apenas um único ensinamento da Mishná já é tecnicamente chamado de "seu mestre" — mas isso não basta para lhe conferir prioridade sobre o próprio pai nos casos de perda, cativeiro ou fardo. Essa prioridade só se aplica a um "mestre insigne" (rav muvhak), definido como aquele de quem a pessoa aprendeu a maior parte de sua sabedoria. Rambam então funda o princípio geral de que a pessoa deve cuidar de si mesma antes de socorrer outros na leitura do versículo sobre a caridade em Devarim: a Torá só exige remover o mal alheio na medida em que isso não traga sobre a própria pessoa um mal equivalente — daí o dito dos sábios, "o que é teu precede o de qualquer pessoa".
Bartenura confirma a mesma leitura do versículo — "cuida-te para que não te tornes tu mesmo o necessitado" — como fonte da prioridade da própria perda mesmo sobre a do pai. E, quanto à prioridade do mestre sobre o pai, esclarece que ela vale exclusivamente para o "mestre insigne", aquele de quem a pessoa aprendeu a maior parte de sua sabedoria — critério que se aplica igualmente aos três casos tratados pela mishná: a perda achada, o fardo a carregar e o resgate do cativeiro. Um mestre ocasional, que ensinou apenas pontualmente, não desfruta dessa precedência sobre o próprio pai.