Seder Nezikin · Massechet Bava Metzia · Perek Bet · Mishná 11 de 11 — última do perek

Sua perda e a perda de seu pai, sua perda precede

אֲבֵדָתוֹ וַאֲבֵדַת אָבִיו, אֲבֵדָתוֹ קוֹדֶמֶת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A última mishná do Perek Bet encerra todo o capítulo com uma escala de prioridades que se aplica a três situações — a perda achada, o fardo a carregar, o resgate do cativeiro —, sempre comparando o próprio interesse, o do pai e o do mestre que ensinou Torá.

Sua perda e a perda de seu pai, sua perda precede. Sua perda e a perda de seu mestre, a dele precede. A perda de seu pai e a perda de seu mestre, a de seu mestre precede — pois seu pai o trouxe a este mundo, e seu mestre, que lhe ensinou sabedoria, o traz à vida do mundo vindouro. E se seu pai é sábio, a de seu pai precede.A escala de prioridades revela uma hierarquia de valores: cuidar do próprio sustento vem antes até mesmo do dever para com o pai, pois ninguém é obrigado a se empobrecer para socorrer outro, nem mesmo o progenitor. Mas entre a perda do próprio filho e a de seu mestre de Torá, a do mestre precede — pois, embora o pai tenha dado a vida biológica, é o mestre que ensinou sabedoria quem confere acesso à vida eterna, um bem incomparavelmente maior. A regra se inverte, porém, se o próprio pai é também um sábio erudito: nesse caso, sua perda volta a preceder a do mestre comum.

Se seu pai e seu mestre carregavam um fardo, deixa o do mestre, e depois deixa o do pai. Se seu pai e seu mestre estavam na casa do cativeiro, resgata o mestre, e depois resgata o pai. E se seu pai é sábio, resgata o pai, e depois resgata o mestre.A mesma hierarquia se aplica a ajudar a descarregar um fardo pesado e a resgatar do cativeiro: em ambos os casos, o mestre de Torá tem prioridade sobre o próprio pai — a menos que o pai seja ele mesmo um sábio, hipótese em que a balança volta a pender para ele, pois a honra e o benefício espiritual concedidos por um pai sábio já se equiparam, ou superam, os de um mestre comum.

אֲבֵדָתוֹ וַאֲבֵדַת אָבִיו, אֲבֵדָתוֹ קוֹדֶמֶת. אֲבֵדָתוֹ וַאֲבֵדַת רַבּוֹ, שֶׁלּוֹ קוֹדֶמֶת. אֲבֵדַת אָבִיו וַאֲבֵדַת רַבּוֹ, שֶׁל רַבּוֹ קוֹדֶמֶת, שֶׁאָבִיו הֱבִיאוֹ לָעוֹלָם הַזֶּה, וְרַבּוֹ שֶׁלִּמְּדוֹ חָכְמָה מְבִיאוֹ לְחַיֵּי הָעוֹלָם הַבָּא. וְאִם אָבִיו חָכָם, שֶׁל אָבִיו קוֹדֶמֶת. הָיָה אָבִיו וְרַבּוֹ נוֹשְׂאִין מַשְּׂאוֹי, מֵנִיחַ אֶת שֶׁל רַבּוֹ. וְאַחַר כָּךְ מֵנִיחַ אֶת שֶׁל אָבִיו. הָיָה אָבִיו וְרַבּוֹ בְּבֵית הַשֶּׁבִי, פּוֹדֶה אֶת רַבּוֹ, וְאַחַר כָּךְ פּוֹדֶה אֶת אָבִיו. וְאִם הָיָה אָבִיו חָכָם, פּוֹדֶה אֶת אָבִיו, וְאַחַר כָּךְ פּוֹדֶה אֶת רַבּוֹ:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Rambam ancora a primeira regra da mishná — que a própria perda precede até a do pai — num princípio que ele extrai do versículo sobre a caridade em Devarim.

Devarim 15:4
אֶפֶס כִּי לֹא יִהְיֶה בְּךָ אֶבְיוֹן.
"Contudo, não haverá entre vós necessitado..."

Rambam lê esta cláusula, dirigida a quem sustenta os pobres, como um alerta implícito: cuida primeiro de não te tornares tu mesmo o necessitado. Se a Torá exige empenho para tirar outro da pobreza apenas na medida em que isso não te reduza à mesma condição, o mesmo princípio vale, a fortiori, para o dever de socorrer a perda alheia — que não pode legitimamente exigir de ninguém sacrificar o próprio sustento, nem mesmo em favor do pai. Como resumiram os sábios: "o que é teu precede o de qualquer pessoa."

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam define quem conta como "mestre" para efeito desta prioridade, e ancora o princípio geral na leitura do versículo sobre a caridade; Bartenura confirma a mesma definição de mestre insigne.

Rambam · Perush HaMishná, Bava Metzia 2:11
אֲבֵדָתוֹ וַאֲבֵדַת אָבִיו אֲבֵדָתוֹ קוֹדֶמֶת כוּ': דַּע כִּי אֲפִלּוּ לֹא יְפָרֵשׁ לוֹ זוּלָתִי דָּבָר אֶחָד מִן הַמִּשְׁנָה נִקְרָא רַבּוֹ, אֲבָל אֵינוֹ מְחֻיָּב לְהַקְדִּימוֹ וּלְכַבְּדוֹ יוֹתֵר מֵאָבִיו כְּמוֹ שֶׁנִּזְכָּר בָּאֲבֵדָה וּבַשְּׁבִיָּה וְלִפְרֹק, אֶלָּא אִם כֵּן הָיָה רַבּוֹ מֻבְהָק, וְהוּא שֶׁתִּהְיֶה רֹב חָכְמָתוֹ מִמֶּנּוּ. וְהָרֶמֶז מִן הַתּוֹרָה שֶׁיֵּשׁ לָאָדָם לְהַקְדִּים עַצְמוֹ עַל זוּלָתוֹ הוּא דְּאָמַר רַחֲמָנָא "אֶפֶס כִּי לֹא יִהְיֶה בְּךָ אֶבְיוֹן", כְּאִלּוּ אָמַר אֵין אַתָּה חַיָּב לְהָסִיר רָעָה מֵאַחֵר אֶלָּא כְּשֶׁלֹּא יָבֹא לְךָ כְּעֵין אוֹתָהּ רָעָה שֶׁהֲסִירוֹתָ מִמֶּנּוּ... וְזֶה שֶׁאָמְרוּ זִכְרוֹנָם לִבְרָכָה: שֶׁלְּךָ קוֹדֵם לְשֶׁל כָּל אָדָם.

Rambam esclarece um ponto técnico importante: mesmo alguém que ensinou a outrem apenas um único ensinamento da Mishná já é tecnicamente chamado de "seu mestre" — mas isso não basta para lhe conferir prioridade sobre o próprio pai nos casos de perda, cativeiro ou fardo. Essa prioridade só se aplica a um "mestre insigne" (rav muvhak), definido como aquele de quem a pessoa aprendeu a maior parte de sua sabedoria. Rambam então funda o princípio geral de que a pessoa deve cuidar de si mesma antes de socorrer outros na leitura do versículo sobre a caridade em Devarim: a Torá só exige remover o mal alheio na medida em que isso não traga sobre a própria pessoa um mal equivalente — daí o dito dos sábios, "o que é teu precede o de qualquer pessoa".

Bartenura · Bava Metzia 2:11
אֲבֵדָתוֹ קוֹדֶמֶת. דְּאָמַר קְרָא אֶפֶס כִּי לֹא יִהְיֶה בְּךָ אֶבְיוֹן, הִזָּהֵר שֶׁלֹּא תִהְיֶה אַתָּה אֶבְיוֹן: שֶׁל רַבּוֹ קוֹדֶמֶת. וְהוּא שֶׁיִּהְיֶה רַבּוֹ מֻבְהָק, שֶׁלָּמַד רֹב חָכְמָתוֹ מִמֶּנּוּ. וְכֵן כָּל הָנָךְ רַבּוֹ דְּאָמְרִינַן בְּמַתְנִיתִין שֶׁקּוֹדְמִין לְאָבִיו, אֵינָן אֶלָּא בְּרַבּוֹ מֻבְהָק:

Bartenura confirma a mesma leitura do versículo — "cuida-te para que não te tornes tu mesmo o necessitado" — como fonte da prioridade da própria perda mesmo sobre a do pai. E, quanto à prioridade do mestre sobre o pai, esclarece que ela vale exclusivamente para o "mestre insigne", aquele de quem a pessoa aprendeu a maior parte de sua sabedoria — critério que se aplica igualmente aos três casos tratados pela mishná: a perda achada, o fardo a carregar e o resgate do cativeiro. Um mestre ocasional, que ensinou apenas pontualmente, não desfruta dessa precedência sobre o próprio pai.