Seder Nezikin · Massechet Bava Metzia · Perek Bet · Mishná 10 de 11

Achou-a no estábulo, não é obrigado a ela

מְצָאָהּ בָּרֶפֶת, אֵינוֹ חַיָּב בָּהּ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná encerra o tema do animal desgarrado ligando-o a duas outras mitzvot próximas: a pureza do cohen, que não cede nem à devolução de perda nem à honra devida ao pai, e o dever irmão de "periká" e "teiná" — descarregar e carregar o animal caído sob o fardo.

Achou-a no estábulo, não é obrigado a ela. Em domínio público, é obrigado a ela. E se era num cemitério, não se contaminará por ela. Se seu pai lhe disse "contamina-te", ou lhe disse "não devolvas", não lhe dará ouvidos.Um animal achado dentro de um estábulo não tem sinal de estar desgarrado — presume-se apenas solto ali por seu dono —, mas o mesmo animal em domínio público, sujeito a perigo e sem vigilância aparente, obriga a devolução. Mesmo assim, se cumprir essa mitzvá exigisse que um cohen se contaminasse entrando num cemitério, ele não deve fazê-lo — a proibição de tornar-se impuro prevalece sobre o preceito positivo de devolução. E, notavelmente, esse princípio de que certas mitzvot não cedem nem sequer à autoridade paterna se estende à ordem explícita do próprio pai: mesmo que ele mande o filho se contaminar, ou o proíba de devolver a perda, o filho não deve obedecer — pois a honra devida aos pais nunca autoriza a transgressão de um mandamento divino.

Descarregou e carregou, descarregou e carregou, mesmo quatro e cinco vezes, é obrigado — pois foi dito: "sem falta ajudarás".Assim como a devolução do animal fugidio se repete indefinidamente, também o dever de ajudar a descarregar e recarregar um animal caído sob seu fardo se renova a cada vez que a situação se repete — novamente por força da duplicação verbal do versículo.

Foi e se sentou, e disse: "já que sobre ti recai a mitzvá, se é tua vontade descarregar, descarrega" — está isento, pois foi dito: "com ele". Se era idoso ou doente, é obrigado.Se o próprio dono do animal se recusa a participar, sentando-se e deixando toda a tarefa para o transeunte, este último fica isento — pois a Torá exige que a ajuda seja prestada "com ele", isto é, em cooperação com o dono, não como substituto integral de seu esforço; mas se o dono é idoso ou doente, incapaz de ajudar fisicamente, a obrigação permanece plena, pois nesse caso não há recusa voluntária, apenas incapacidade real.

É mitzvá da Torá descarregar, mas não carregar. Rabi Shimon diz: também carregar. Rabi Yossei HaGelili diz: se havia sobre ele mais que sua carga normal, não está vinculado a ele — pois foi dito: "sob sua carga", uma carga que ele pode suportar.A opinião central distingue: descarregar um animal caído é obrigação gratuita da Torá, enquanto recarregá-lo depois — trabalho adicional que beneficia diretamente o dono — pode ser cobrado como serviço remunerado. Rabi Shimon discorda, estendendo a gratuidade também ao carregar. Rabi Yossei HaGelili acrescenta uma limitação adicional: se o animal foi sobrecarregado além do que consegue suportar normalmente, não há obrigação alguma de ajudar — pois o versículo fala especificamente de uma carga que o animal é capaz de suportar, não de uma sobrecarga imprudente causada pelo próprio dono.

מְצָאָהּ בָּרֶפֶת, אֵינוֹ חַיָּב בָּהּ. בִּרְשׁוּת הָרַבִּים, חַיָּב בָּהּ. וְאִם הָיְתָה בֵית הַקְּבָרוֹת, לֹא יִטַּמָּא לָהּ. אִם אָמַר לוֹ אָבִיו, הִטַּמֵּא, אוֹ שֶׁאָמַר לוֹ, אַל תַּחֲזִיר, לֹא יִשְׁמַע לוֹ. פָּרַק וְטָעַן, פָּרַק וְטָעַן, אֲפִלּוּ אַרְבָּעָה וַחֲמִשָּׁה פְעָמִים, חַיָּב, שֶׁנֶּאֱמַר עָזֹב תַּעֲזֹב. הָלַךְ וְיָשַׁב לוֹ וְאָמַר, הוֹאִיל וְעָלֶיךָ מִצְוָה, אִם רְצוֹנְךָ לִפְרֹק פְּרֹק, פָּטוּר, שֶׁנֶּאֱמַר, עִמּוֹ. אִם הָיָה זָקֵן אוֹ חוֹלֶה, חַיָּב. מִצְוָה מִן הַתּוֹרָה לִפְרֹק, אֲבָל לֹא לִטְעֹן. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, אַף לִטְעֹן. רַבִּי יוֹסֵי הַגְּלִילִי אוֹמֵר, אִם הָיָה עָלָיו יָתֵר עַל מַשָּׂאוֹ, אֵין זָקוּק לוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר, תַּחַת מַשָּׂאוֹ, מַשְּׂאוֹי שֶׁיָּכוֹל לַעֲמֹד בּוֹ:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

O dever de ajudar repetidamente a descarregar e recarregar o animal caído nasce, tal como a devolução da perda, de uma duplicação verbal — desta vez no versículo de Shemot sobre o jumento do inimigo.

Shemot 23:5
כִּי־תִרְאֶה חֲמוֹר שׂנַאֲךָ רֹבֵץ תַּחַת מַשָּׂאוֹ וְחָדַלְתָּ מֵעֲזֹב לוֹ, עָזֹב תַּעֲזֹב עִמּוֹ.
"Quando vires o jumento de quem te odeia caído sob sua carga, e te abstiveres de ajudá-lo, sem falta o ajudarás com ele."

Assim como em Devarim 22:1 a forma duplicada "hashev tashivem" multiplicou o dever de devolução, aqui a forma duplicada עָזֹב תַּעֲזֹב ("sem falta ajudarás", literalmente "abandonar abandonarás [tua ocupação]") ensina que o dever de descarregar e ajudar o animal caído se repete a cada vez que a situação ocorre de novo — mesmo que já tenha sido feito quatro ou cinco vezes seguidas. A própria palavra "עִמּוֹ" ("com ele") no mesmo versículo é a base para a regra de que a ajuda deve ser cooperativa com o dono, não um substituto integral do seu próprio esforço.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica por que a impureza do cohen prevalece sobre a devolução da perda mesmo contra a ordem do pai, e decide a halachá contra Rabi Shimon e Rabi Yossei HaGelili; Bartenura detalha cada cláusula.

Rambam · Perush HaMishná, Bava Metzia 2:10
מָצָא בָּרֶפֶת אֵין חַיָּב בָּהּ בִּרְשׁוּת הָרַבִּים חַיָּב בָּהּ כוּ': כְּבָר יָדַעְתָּ כִּי פְּרִישַׁת הַכֹּהֵן אוֹ נָזִיר מִן הַטֻּמְאָה הִיא עֲשֵׂה וְלֹא תַעֲשֶׂה... וּבַחֲזָרַת הָאֲבֵדָה עֲשֵׂה בִּלְבַד הוּא, שֶׁנֶּאֱמַר "הָשֵׁב תְּשִׁיבֵם לְאָחִיךָ", וּמֵעִקָּרֵנוּ אֵין עֲשֵׂה דּוֹחֶה לֹא תַעֲשֶׂה וַעֲשֵׂה. וְאָמַר רַחֲמָנָא "אִישׁ אִמּוֹ וְאָבִיו תִּירָאוּ וְאֶת שַׁבְּתֹתַי תִּשְׁמֹרוּ", כֻּלָּן חַיָּבִין בִּכְבוֹדִי, וְלָכֵן אֵינוֹ חַיָּב בִּכְבוֹד אָב וָאֵם אִם אָמְרוּ לוֹ לַעֲבֹר עַל מִצְוָה מִן הַמִּצְוֹת. וּמִצְוָה מִן הַתּוֹרָה לִפְרֹק בְּחִנָּם וְלִטְעֹן בְּשָׂכָר, וְרַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר זֶה וָזֶה בְּחִנָּם, וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן וְלֹא כְּרַבִּי יוֹסֵי.

Rambam explica a hierarquia normativa por trás da regra do cohen: a abstenção de impureza é tanto um mandamento positivo ("e o santificarás") quanto uma proibição ("não se contaminará por um morto entre o seu povo"), enquanto a devolução de perda é apenas um mandamento positivo — e a regra geral é que um preceito positivo não afasta uma proibição somada a outro preceito positivo. Quanto à honra dos pais, Rambam cita o paralelo entre "temerás a teu pai e tua mãe" e "guardareis os meus sábados" — ambos mandamentos divinos igualmente vinculantes — para explicar por que a honra devida aos pais nunca inclui obedecer a uma ordem de transgressão. Por fim, Rambam decide a halachá: é mitzvá da Torá descarregar gratuitamente e carregar mediante pagamento — rejeitando tanto a posição de Rabi Shimon (que exige gratuidade em ambos) quanto a de Rabi Yossei HaGelili (sobre a sobrecarga).

Bartenura · Bava Metzia 2:10
מְצָאָהּ בָּרֶפֶת. אַף עַל פִּי שֶׁאֵינָהּ מִשְׁתַּמֶּרֶת בָּהּ, כְּגוֹן שֶׁאֵינָהּ נְעוּלָה: וְאִם הָיְתָה בְּבֵית הַקְּבָרוֹת. וְהוּא כֹּהֵן, לֹא יִטַּמָּא לָהּ, שֶׁהֲשָׁבַת אֲבֵדָה עֲשֵׂה, הָשֵׁב תְּשִׁיבֵם לְאָחִיךָ, וּבְטֻמְאַת כֹּהֵן עֲשֵׂה דִקְדֹשִׁים יִהְיוּ וְלֹא תַעֲשֶׂה דִּלְנֶפֶשׁ לֹא יִטַּמָּא בְּעַמָּיו, וְאֵין עֲשֵׂה דוֹחֶה אֶת לֹא תַעֲשֶׂה וַעֲשֵׂה: אוֹ שֶׁאָמַר לוֹ אַל תַּחֲזִיר. וְהָאֲבֵדָה בְּמָקוֹם שֶׁמִּצְוָה לְהַחֲזִיר, הֲרֵי זֶה לֹא יִשְׁמַע לוֹ, דִּכְתִיב אִישׁ אִמּוֹ וְאָבִיו תִּירָאוּ וְאֶת שַׁבְּתֹתַי תִּשְׁמֹרוּ, שֶׁאִם אָבִיךָ אוֹמֵר לְךָ חַלֵּל אֶת הַשַּׁבָּת אַל תִּשְׁמַע לוֹ, וְכֵן בִּשְׁאָר כָּל הַמִּצְוֹת: מִצְוָה מִן הַתּוֹרָה לִפְרֹק. בְּחִנָּם: אֲבָל לֹא לִטְעֹן. בְּחִנָּם, אֶלָּא בְּשָׂכָר: רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר אַף לִטְעֹן. בְּחִנָּם, וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן: רַבִּי יוֹסֵי הַגְּלִילִי אוֹמֵר וְכוּ'. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹסֵי:

Bartenura explica que "achou-a no estábulo" isenta mesmo quando o local não está trancado, pois a mera condição de estar num estábulo já sugere que ali é o lugar próprio do animal, sem sinal de perda. Sobre o cemitério: se quem a achou é cohen, ele não deve se contaminar, pois a devolução da perda é apenas um mandamento positivo, enquanto a pureza do cohen envolve tanto um positivo ("santos serão") quanto uma proibição ("não se contaminará por um morto entre seu povo") — e um preceito positivo não afasta a combinação dos dois. Sobre a ordem do pai, Bartenura cita o mesmo paralelo entre honrar os pais e guardar o shabat: assim como não se obedece ao pai que manda profanar o shabat, também não se obedece a ele em qualquer outro mandamento. Por fim, confirma a halachá: descarregar é gratuito, carregar é remunerado — e a opinião de Rabi Shimon e de Rabi Yossei HaGelili não são seguidas.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi, no encerramento talmúdico da sugya sobre descarregar e carregar (Bava Metzia 33a), precisa os três termos-chave da cena descrita pela mishná.

Rashi רש״י
Bava Metzia 33a
רוֹבֵץ. מִקְרֶה הוּא לוֹ שֶׁרוֹבֵץ תַּחַת מַשָּׂאוֹ בַּפַּעַם הַזֹּאת: וְלֹא רַבְצָן. הָרָגִיל בְּכָךְ: וְלֹא מְפֹרָק. וְהוּא צָרִיךְ טְעִינָה, וּלְקַמָּן פָּרִיךְ הִכְתִיב הָקֵם תָּקִים.

Rashi precisa três termos técnicos da cena: "rovetz" (caído sob a carga) refere-se a um evento ocasional — desta vez o animal caiu, mas não é seu costume; "lo ravtzan" exclui o animal que é habitualmente propenso a se deitar sob o fardo, caso em que a obrigação de ajudar não se aplica da mesma forma, pois a situação é recorrente e previsível; e "lo meforak" esclarece que o animal ainda não foi descarregado e precisa ser carregado de novo depois — distinção que a Gemara usa para comparar com o versículo irmão "hakem takim" (erguer erguerás), sobre ajudar a recolocar a carga em pé.