Trouxe seu boi para o pátio do dono da casa sem permissão, e o boi do dono da casa o cornou, ou o cão do dono da casa o mordeu: está isento. — Como o próprio dono trouxe seu boi ao pátio alheio sem consentimento, o dono da casa não tinha obrigação de vigiar seus animais contra esse intruso, e por isso está isento pelo dano causado a ele.
Se ele cornou o boi do dono da casa, é responsável. — Mas se, ao contrário, foi o boi intruso quem causou o dano — cornando o boi do dono da casa —, o dono do boi intruso responde normalmente, pois a entrada sem permissão não o isenta de responder pelos danos que seu próprio animal causa a outros.
Se caiu no poço dele e cheirou mal suas águas, é responsável. — Da mesma forma, se o boi intruso cai no poço do dono da casa e sua carcaça, ou sua presença, contamina e estraga as águas, o dono do boi responde pelo prejuízo causado à água — pois foi seu animal, entrando sem direito, quem gerou esse dano.
Se seu pai ou seu filho estava dentro dele, paga o resgate. — Se o boi — já conhecido por se lançar em poços atrás de comida — cai sobre uma pessoa que estava dentro do poço do dono da casa e a mata, o dono do boi paga o resgate (kofer), a compensação estabelecida pela Torá para a morte causada por um boi advertido, ainda que a morte não tenha sido causada com a intenção usual de cornar.
E se o trouxe com permissão, o dono do pátio é responsável. — Invertendo-se a situação, quando a entrada do boi foi autorizada pelo dono da casa, este assume a responsabilidade normal de vigilância, e por isso responde pelos danos causados ao boi intruso por seus próprios animais ou por seu poço.
Rabi diz: em todos estes casos ele não é responsável, a menos que tenha aceitado sobre si guardá-lo. — Rabi Yehudá HaNassi discorda de toda a estrutura anterior: para ele, a mera permissão de entrada não basta para gerar responsabilidade sobre o dono do pátio — é necessário que ele tenha explicitamente aceitado o encargo de vigiar o boi alheio. Sem essa aceitação explícita, nenhuma das partes responde pelo dano causado ao animal do outro, mesmo havendo permissão de entrada.
Rambam confirma que a halachá segue Rabi, e esclarece que o resgate se aplica quando o boi advertido a cair em poços atrás de comida mata sem intenção direta; Bartenura detalha o mesmo cenário e as consequências práticas da posição de Rabi.
Rambam explica que o pagamento do resgate pressupõe que o boi já era advertido a se lançar sobre pessoas dentro de poços — e especifica que isso se dá quando o boi se lança ali atrás de comida que avistou no poço, e não por intenção direta de matar; por isso, precisamente, o boi não é condenado à morte, já que a morte não foi causada com a intenção usual que gera essa pena. Rambam confirma que a halachá segue Rabi: o dono da casa não responde em nenhum dos casos da mishná a menos que tenha explicitamente aceitado sobre si a guarda; e, do mesmo modo, o dono do boi também não responde quando a entrada foi autorizada, precisamente porque entrou com permissão.
Bartenura esclarece que "seu pai ou seu filho" refere-se ao pai ou filho do dono da casa que estava dentro do poço — mas a regra vale igualmente para qualquer outra pessoa, sendo esses apenas os exemplos comuns citados pela mishná. Ele detalha o cenário exato do pagamento do resgate: o boi já era advertido a se lançar sobre pessoas em poços, e, num dado momento, avistou hortaliça dentro do poço e se lançou ali para comê-la, matando a pessoa que estava dentro — o boi fica isento da pena de morte porque matou sem intenção direta, mas os donos ainda assim pagam o resgate, pois esse pagamento se estende mesmo a mortes causadas sem intenção direta, como já explicado anteriormente no tratado. Bartenura confirma que a halachá segue Rabi, com a consequência prática de que, se alguém trouxe seu boi ao pátio do dono da casa com permissão simples — sem que este tenha explicitamente aceitado guardá-lo —, o dono da casa fica isento, pois não assumiu o encargo de vigilância; e quem trouxe o boi também fica isento, precisamente porque entrou com permissão.