Cinco são os inocentes, e cinco os avisados. O animal não é avisado nem para chifrar, nem para empurrar, nem para morder, nem para se deitar sobre algo, nem para dar coices. O dente é avisado para comer o que lhe é próprio; a pata é avisada para quebrar em seu andar; e há o boi avisado, e o boi que causa dano no domínio do prejudicado, e o homem. O lobo, e o leão, e o urso, e o leopardo, e o bardelas, e a serpente — eis que estes são avisados. Rabi Eliezer diz: quando são domesticados, não são avisados. Mas a serpente é sempre avisada. Qual a diferença entre o inocente e o avisado? Apenas que o inocente paga metade do dano de seu corpo, e o avisado paga o dano completo do melhor de seus bens. — A mishná estabelece a distinção fundamental entre dois estados de responsabilidade animal. Um animal é "inocente" (tam) — e paga apenas metade do dano, e somente com o valor de seu próprio corpo — para cinco atos que não são de sua natureza costumeira: chifrar (com o chifre), empurrar (com todo o corpo), morder, deitar-se sobre objetos alheios para danificá-los, e dar coices; nesses casos, presume-se que o dano foi um acontecimento incomum, até que o animal reincida três vezes diante de testemunhas e seu dono seja advertido — só então ele se torna "avisado" (mu'ad) para aquele ato específico. Já para outros cinco casos, o animal já nasce "avisado" desde o início, pagando o dano completo com a melhor de todas as propriedades de seu dono: o dente, quanto ao que lhe é próprio comer; a pata, quanto ao dano por pisoteio em seu andar normal; o boi já formalmente avisado (após reincidência); o boi que causa dano estando no domínio do próprio prejudicado (onde se presume maior responsabilidade do dono); e o próprio ser humano, cujo dano é sempre tratado como avisado desde o início. A mishná acrescenta uma categoria à parte: animais selvagens por natureza — o lobo, o leão, o urso, o leopardo, o bardelas (uma fera identificada com o léopardo ou a hiena) e a serpente — são sempre avisados, precisamente por sua natureza predatória. Rabi Eliezer discorda quanto aos primeiros cinco: se forem domesticados, deixam de ser avisados; mas quanto à serpente, ele concorda que ela permanece sempre avisada, dado seu veneno mortal. A mishná fecha perguntando qual é, afinal, a diferença prática entre inocente e avisado, e responde: o inocente paga apenas metade do dano, e somente do valor de seu próprio corpo (o animal pode ser vendido para cobrir o pagamento, mas o dono não é pessoalmente responsável além disso); o avisado paga o dano completo, cobrado da melhor propriedade de seu dono.
A distinção entre o boi "inocente" e o "avisado" nasce diretamente do próprio texto de Shemot, na parashá de Mishpatim.
Deste versículo a Guemará deriva os dois estados fundamentais: o boi que nunca chifrou antes ("inocente") gera apenas a divisão do valor entre as partes — o que a tradição interpreta como o pagamento de metade do dano, e somente do valor do próprio corpo do animal; já o boi identificado como "chifrador desde antes" ("avisado"), cujo dono foi advertido e não o guardou, gera o pagamento integral — "boi por boi". A tradição oral (Torá Shebe'al Pê) fixa em três reincidências diante de testemunhas o número que transforma um boi inocente em avisado, e generaliza esse princípio — do chifre para os demais quatro atos incomuns (empurrar, morder, deitar-se sobre objetos, e dar coices) — enumerados nesta mishná.
Rambam define os termos "inocente" e "avisado", observa que o texto da mishná está incompleto e precisa ser lido com um complemento implícito, e fixa a halachá contra Rabi Eliezer.
Rambam define os dois termos centrais: "inocente" (tam) é aquilo cujo dano não é seu costume habitual, ocorrendo antes por acaso; "avisado" (mu'ad) é aquilo que costuma repetir aquele ato, sempre ou na maioria das vezes. Observa que a mishná, tal como está redigida, está incompleta, e deve ser lida com o seguinte complemento: "há cinco que são inocentes desde o início, e que se tornam avisados após reincidência; e o dente e a pata já são avisados desde o início; e há outros avisados como eles, que são o lobo etc." Explica também por que a mishná não contou todos os onze avisados em conjunto: por serem os animais selvagens raros em áreas habitadas, e ainda mais raros em cidades, preferiu-se listá-los à parte. E fixa a halachá contra Rabi Eliezer — os animais selvagens permanecem sempre avisados, mesmo quando domesticados, exceto pela concordância quanto à serpente.
Bartenura confirma que os cinco inocentes não costumam causar dano — e, quando o causam, pagam apenas metade —, enquanto os cinco avisados são atos habituais, que geram pagamento completo. Explica que "chifrar" refere-se especificamente ao dano com o chifre, e que "empurrar" é o golpe com todo o corpo — ambos, junto com morder, deitar e dar coices, são considerados "descendentes" (toladot) da categoria do chifre, e pagam metade do dano até a terceira reincidência advertida, quando se tornam então um único "avisado" (pois, uma vez avisado para um desses atos, o boi é considerado avisado para todos). Sobre "do melhor de seus bens" (min ha'aliyá), explica que se paga com a melhor propriedade do dono, mesmo que o próprio animal causador não valha o suficiente para cobrir o dano — pois a Torá, ao tratar do boi avisado, diz "pagará boi por boi" sem limitar o pagamento ao valor do corpo do próprio animal que chifrou.
O perush de Rashi sobre a Guemará (Bava Kamma 15b-16b), explicando os cinco atos do inocente, os cinco do avisado, e o alcance do pagamento "do melhor de seus bens".
Rashi identifica precisamente "chifrar" (ligach) com o dano feito pelo chifre, e "empurrar" (ligof) com o golpe de todo o corpo do animal — ambos, junto com os demais três atos, sendo "descendentes" da categoria do chifre, que pagam metade do dano, somando os cinco inocentes. Sobre o boi avisado, explica que ele se torna avisado após três reincidências em qualquer um dos cinco atos — chifrar, empurrar, deitar, dar coices ou morder —, e que, para fins da categoria de "avisado", todos esses atos são tratados como um único fenômeno: uma vez avisado para um deles, o boi é considerado avisado (e paga integralmente) para todos. E, sobre "do melhor de seus bens", Rashi explica que o pagamento se faz da melhor propriedade do dono mesmo que o próprio corpo do animal causador não valha o suficiente para cobrir o dano — pois, quanto ao boi avisado, a Torá escreve simplesmente "pagará boi por boi", sem restringir o pagamento ao corpo do animal que causou o dano, ao contrário do que ocorre com o inocente.