A ordem das heranças é esta: "Se um homem morrer e não tiver filho, transferireis sua herança à sua filha" — o filho precede a filha, e todos os descendentes do filho precedem a filha. — A mishná abre citando o versículo que estabelece a base bíblica de toda a ordem: um filho tem prioridade sobre uma filha na herança, e essa prioridade se estende a toda a linha de descendentes do filho — netos, bisnetos — que também precedem a filha do falecido.
A filha precede os irmãos. Os descendentes da filha precedem os irmãos. — Na ausência de filho e de seus descendentes, a filha do falecido herda antes dos irmãos dele; e mesmo os descendentes da filha têm prioridade sobre os irmãos.
Os irmãos precedem os tios paternos. Os descendentes dos irmãos precedem os tios paternos. — Faltando filha e seus descendentes, herdam os irmãos do falecido antes dos tios (irmãos do pai); e os descendentes dos irmãos também precedem os tios.
Esta é a regra: todo aquele que precede na herança, seus descendentes precedem; e o pai precede a todos os seus descendentes. — A mishná fecha com o princípio geral que sustenta toda a cadeia: sempre que alguém tem prioridade de herança sobre outro, seus descendentes herdam essa mesma prioridade; e, no topo da cadeia, o pai do falecido precede toda a sua própria descendência colateral — ou seja, antes de subir aos tios, verifica-se sempre se o próprio pai do falecido está vivo.
Rambam explica que é preciso guardar três princípios fundamentais na ordem das heranças. Primeiro: quando alguém morre, seus filhos precedem na herança, e, na ausência de filhos, a herança retorna ao pai do falecido. Segundo: quem tem direito à herança, se vivo, herda ele próprio; se morto, sua parte cabe a seus próprios herdeiros — como se o herdeiro original fosse, ele mesmo, o falecido. Terceiro: os homens precedem as mulheres quando o grau de parentesco com o falecido é igual. Rambam ilustra esses três princípios com uma longa parábola envolvendo Amram, Moshé, Aharon, Miriam, Kehat, Levi e os ancestrais até Avraham, mostrando como a herança "retorna e retorna" (nachalá mimashmeshet veholechet) subindo de geração em geração até encontrar um herdeiro vivo, sempre dando precedência aos varões e aos descendentes de quem precede. Conclui que não há herança para os irmãos do falecido em vida do pai, nem para os irmãos do avô em vida do próprio pai — pois a busca por um herdeiro sobe apenas um degrau de cada vez, e cada principio deve ser guardado sem desvio.
Sobre "todo aquele que precede na herança, seus descendentes precedem", Bartenura desenvolve com o exemplo dos filhos de Yaakov: se Reuven morre, seus filhos Chanoch, Palu, Chetzron e Charmi o herdam; e se um desses filhos já houver morrido antes de Reuven, deixando filho, filha, neto ou neta — até cem gerações — esse descendente herda no lugar de seu pai a porção de Reuven, como se fosse um dos próprios filhos de Reuven. Só na ausência de toda descendência masculina e feminina de Reuven é que herdariam as filhas de Reuven; faltando estas e sua descendência, herdaria Yaakov, pai de Reuven; faltando Yaakov, herdariam os irmãos de Reuven (Shimon, Levi, Yehudá etc.) e seus descendentes; faltando estes, a irmã Diná e sua descendência; e só então, subindo mais um degrau, o avô Yitzchak, depois Essav (irmão de Yaakov) e sua descendência, e assim sucessivamente — sempre dando prioridade ao varão e a seus descendentes sobre a fêmea, e sempre subindo apenas um grau de parentesco de cada vez, até chegar a Avraham. Sobre "o pai precede", explica que o pai do falecido sempre precede os irmãos do pai e seus filhos; e os irmãos do pai e a irmã do pai precedem o avô paterno; e assim indefinidamente, subindo a escada geracional um degrau de cada vez.
Rashbam ilustra com a família de Yaakov: Reuven precede sua irmã Diná na herança de Yaakov, e o mesmo vale para toda a descendência de Reuven — se Reuven morre, seus próprios descendentes precedem Diná na herança do avô Yaakov. Sobre "a filha precede os irmãos", acrescenta que, se o próprio pai do falecido estiver vivo, ele também precede os irmãos (this being a fortiori, já que o pai precede até a filha na hierarquia mais ampla). Sobre "os irmãos precedem os tios paternos", explica que, havendo uma irmã entre os irmãos, ela e seus descendentes têm prioridade sobre os tios — pois a regra "os descendentes de quem precede, precedem" já garante que a linha da irmã continue à frente dos tios paternos.