Seder Nezikin · Massechet Bava Batra · Perek Hei · Mishná 2 de 11

Quem vende o burro

הַמּוֹכֵר אֶת הַחֲמוֹר לֹא מָכַר כֵּלָיו
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A segunda mishná do perek volta-se do navio para o animal de carga: quem vende o burro não vende seu equipamento — a distinção entre os arreios de montaria e os apetrechos de carga —, e a fórmula que decide os casos ambíguos.

Quem vende o burro não vendeu seu equipamento. Nachum, o medo, diz: vendeu seu equipamento. Rabi Yehudá diz: há vezes em que é vendido, e há vezes em que não é vendido.Sobre o equipamento do burro — selas, alforjes e demais apetrechos —, a mishná anônima entende que não acompanha a venda simples do animal; Nachum, o medo, discorda e entende que acompanha; Rabi Yehudá propõe uma posição intermediária, que depende de como a venda foi formulada.

Como assim? Se o burro estava diante dele com seu equipamento sobre ele, e lhe disse: "vende-me este teu burro" — seu equipamento é vendido. Se lhe disse: "é teu burro? Quero comprá-lo" — seu equipamento não é vendido.Rabi Yehudá distingue pela formulação exata: apontar para o burro "assim como está", carregado, inclui o equipamento visível sobre ele; já perguntar de forma neutra "é teu burro?", como quem inicia uma negociação genérica sobre o animal em si, exclui o equipamento mesmo que ele esteja ali no momento.

הַמּוֹכֵר אֶת הַחֲמוֹר, לֹא מָכַר כֵּלָיו. נַחוּם הַמָּדִי אוֹמֵר, מָכַר כֵּלָיו. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, פְּעָמִים מְכוּרִין וּפְעָמִים אֵינָן מְכוּרִין. כֵּיצַד, הָיָה חֲמוֹר לְפָנָיו וְכֵלָיו עָלָיו, וְאָמַר לוֹ מְכוֹר לִי חֲמוֹרְךָ זֶה, הֲרֵי כֵלָיו מְכוּרִין. חֲמוֹרְךָ הוּא, אֵין כֵּלָיו מְכוּרִין:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam distingue os arreios de montaria — vendidos por consenso geral — dos apetrechos de carga, sujeitos à disputa; Bartenura confirma que a lei segue os Sábios contra Nachum, e explica a linguagem exata que decide a intenção do comprador.

Rambam · Perush HaMishná, Bava Batra 5:2
הַמּוֹכֵר אֶת הַחֲמוֹר לֹא מָכַר כֵּלָיו כו':
אָמְנָם הַכֵּלִים הָעֲשׂוּיִים לִרְכִיבָה, כְּגוֹן הָאֻכָּף וְהַמִּרְדַּעַת, דִּבְרֵי הַכֹּל מְכוּרִין, בֵּין שֶׁהֵן עָלָיו בִּשְׁעַת הַמֶּכֶר בֵּין שֶׁאֵינָם עָלָיו. אֲבָל כְּלֵי הַטְּעִינָה יֵשׁ בָּהֶם מַחֲלֹקֶת, חֲכָמִים אוֹמְרִים אֵינָם מְכוּרִין בִּמְכִירָתוֹ אֲפִלּוּ הֵם עָלָיו בִּשְׁעַת מְכִירָה, וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים:

Rambam esclarece o ponto central da disputa: quanto aos utensílios feitos para montaria — como a sela e a manta — todos concordam que se incluem na venda, estejam ou não sobre o animal no momento da venda. A disputa recai apenas sobre os utensílios de carga: os Sábios sustentam que não se incluem na venda mesmo estando sobre o animal no momento da transação, e a lei segue os Sábios.

Bartenura · Bava Batra 5:2
לֹא מָכַר אֶת כֵּלָיו. בְּכֵלִים הָעֲשׂוּיִים לִרְכִיבָה כְּגוֹן אֻכָּף וּמִרְדַּעַת, כֻּלֵּי עָלְמָא לֹא פְּלִיגֵי דְּקָנָה אֲפִלּוּ אֵינָם עָלָיו בִּשְׁעַת מְכִירָה. כִּי פְּלִיגֵי בְּכֵלִים שֶׁל מַשְּׂאוֹי, כְּגוֹן שַׂק וְדִיסְקְיָא, תַּנָּא קַמָּא סָבַר לֹא מָכַר הַכֵּלִים שֶׁל מַשְּׂאוֹי שֶׁעָלָיו, וְנַחוּם הַמָּדִי סָבַר מָכַר הַכֵּלִים שֶׁל מַשְּׂאוֹי שֶׁעָלָיו. וַהֲלָכָה כַּתַּנָּא קַמָּא: חֲמוֹרְךָ זֶה. מַשְׁמַע כְּמוֹת שֶׁהוּא עִם כֵּלָיו: חֲמוֹרְךָ הוּא. הָוֵי כְּשׁוֹאֵל לוֹ חֲמוֹרְךָ הוּא, מְכֹר אוֹתוֹ לִי. וְהָוֵי כְּמוֹכֵר חֲמוֹר סְתָם, וְאֵין כֵּלָיו מְכוּרִין וַאֲפִלּוּ הֵן עָלָיו בִּשְׁעַת מְכִירָה. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה:

Bartenura confirma: quanto aos utensílios de montaria como sela e manta, ninguém discorda de que se adquirem mesmo que não estejam sobre o animal no momento da venda. A disputa é apenas sobre os utensílios de carga, como saco e alforje — a opinião anônima entende que não se vendem mesmo que estejam sobre o animal, e Nachum, o medo, entende que sim; a lei segue a opinião anônima. Explica ainda a distinção de linguagem de Rabi Yehudá: dizer "este teu burro" implica o animal tal como está, com seu equipamento; já dizer "é teu burro? — vende-o para mim" equivale a uma venda genérica do burro, na qual o equipamento não se inclui mesmo estando sobre ele no momento da venda. E a lei não segue Rabi Yehudá.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashbam sobre o daf 78a situa a mishná e explica que a disputa da mishná anterior sobre "os Sábios" e Rabi Yehudá se refere precisamente à formulação usada na venda.

Rashbam · רשב״ם
Bava Batra 78a, sobre a mishná (no lugar de Rashi)
מַתְנִי׳ כֵּלָיו — בִּגְמָרָא מְפָרֵשׁ לְהוּ: רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר כו' — כֻּלָּהּ מִיפָרְשָׁא בִּגְמָרָא: חֲמוֹרְךָ זוֹ — כְּמוֹת שֶׁהִיא עִם כֵּלִים שֶׁעָלֶיהָ: חֲמוֹרְךָ הִיא — כְּלוֹמַר אִם זוֹ הִיא חֲמוֹרְךָ מְכֹר אוֹתָהּ לִי, דְּהַיְנוּ כְּמוֹכֵר אֶת הַחֲמוֹר סְתָם, וְסָבִירָא לֵיהּ לְרַבִּי יְהוּדָה דְּאֵין כֵּלָיו מְכוּרִין אֲפִלּוּ בְּעוֹדָן עָלָיו:

Rashbam observa que os detalhes técnicos dos utensílios — quais contam como equipamento de montaria e quais como de carga — são explicados adiante na Guemará, assim como toda a posição de Rabi Yehudá. Explica a fórmula "este teu burro" como referindo-se ao animal exatamente como está, com todo o equipamento que carrega sobre si; já "é teu burro?" equivale a uma pergunta neutra que leva a uma venda genérica do burro, na qual — segundo Rabi Yehudá — o equipamento não se inclui, mesmo estando sobre o animal no momento da venda.