Quem vende o burro vendeu sua cria. Vendeu a vaca, não vendeu sua cria. Vendeu o monte de esterco, vendeu seu adubo. Vendeu a cisterna, vendeu suas águas. Vendeu a colmeia, vendeu as abelhas nela. E vendeu o pombal, vendeu as pombas. — Nesta série de pares, o produto que normalmente acompanha o bem principal é incluído por padrão — exceto no caso notável da vaca, cuja cria é considerada um bem à parte, com identidade própria, ao contrário da cria do burro.
Quem compra a produção de um pombal de outro deve deixar a primeira ninhada. A produção de uma colmeia: toma três enxames e depois esteriliza. Quem compra favos de mel deve deixar dois favos. Quem compra oliveiras para derrubar deve deixar dois brotos. — Nestas quatro vendas de produção contínua, o comprador não pode esgotar totalmente a fonte: deve deixar ao vendedor um resto suficiente para que o pombal, a colmeia, a produção de mel ou o olival continuem a se sustentar e se renovar no futuro.
Rambam explica a razão da distinção entre burro e vaca — a expressão "leitosa" citada na Guemará — e detalha o sentido técnico de esterilizar a colmeia; Bartenura acrescenta os limites de tamanho do monte de esterco e a razão pela qual se deixam animais jovens junto às mães.
Rambam explica que a regra sobre burro e vaca pressupõe que o vendedor disse "vendo-te uma vaca leiteira" ou "vendo-te uma burra leiteira" — e como o leite da jumenta não tem uso prático para consumo humano, mencionar essa qualidade só faz sentido como forma indireta de vender também a cria junto com ela. Explica que "esterilizar" a colmeia (do termo hebraico relacionado a "cortar") significa impedir a reprodução das abelhas para que produzam apenas mel, e que o "broto" que se deixa da oliveira derrubada equivale à altura de dois palmos acima do solo.
Bartenura explica que "vendeu a burra, vendeu seu filhote" pressupõe que o vendedor especificou "vendo-te uma burra leiteira" — caso em que a Guemará entende que ele necessariamente se refere a ela e sua cria juntas. Sobre a "primeira ninhada" que se deixa ao vendedor da produção do pombal: cada duas crias contam como uma ninhada, e se deixam junto à mãe para que lhe façam companhia e não fujam. Sobre a produção da colmeia: o comprador toma os três primeiros enxames — considerados os melhores, pois cada enxame subsequente é de qualidade inferior ao anterior — e, a partir daí, "esteriliza", isto é, alterna: toma um e deixa outro para o vendedor, para que os enxames deixados cresçam e se juntem aos originais, mantendo a colmeia povoada.
Rashbam sobre o daf 78b comenta a mishná termo a termo, explicando por que os pares "monte e adubo", "cisterna e água" são triviais o bastante para não precisarem ser ensinados, mas ainda assim a mishná os lista pela completude da série.
Rashbam explica que o filhote do burro é chamado tecnicamente de "siach", e nota que a Guemará explicará mais adiante por que o caso da vaca é diferente do burro. Descreve o "monte de esterco" como um lugar rebaixado ou elevado três palmos, usado costumeiramente para depositar o esterco dos animais domésticos, e a cisterna como um reservatório de águas acumuladas. Observa que em todos esses pares, o item secundário (esterco, água, abelhas, pombas) é anulado perante o item principal fixo (o monte, a cisterna, a colmeia, o pombal) — mas não o inverso: vender apenas o esterco não inclui o monte, vender apenas a água não inclui a cisterna, e assim por diante em todos os casos, o que é evidente e por isso a mishná não precisou ensiná-lo explicitamente. E "vendeu as pombas" refere-se ao pombal e às pombas que nele habitam.