Seder Nezikin · Massechet Bava Batra · Perek Bet · Mishná 9 de 14

As carcaças, os túmulos e o curtume — sempre a leste da cidade

מַרְחִיקִין אֶת הַנְּבֵלוֹת וְאֶת הַקְּבָרוֹת וְאֶת הַבֻּרְסְקִי
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A nona mishná retorna ao dano por mau cheiro — já mencionado en passant na mishná 2:3 a respeito do estábulo — mas agora trata de instalações permanentes e mais graves: cemitérios, o descarte de carcaças de animais e o curtume, onde se processam peles em condições particularmente malcheirosas.

Afastam as carcaças, os túmulos e o curtume da cidade cinquenta cúbitos.Carcaças de animais mortos, sepulturas e o curtume — local onde se processam peles de animais, atividade notoriamente malcheirosa — devem ficar todos a pelo menos cinquenta cúbitos de distância da cidade, para proteger seus moradores do odor forte e persistente que essas três instalações produzem.

Não se faz curtume senão a leste da cidade.Além da distância mínima, o curtume tem uma restrição adicional de localização: só pode ser instalado no lado leste da cidade. O raciocínio é climático — o vento vindo do leste sopra tipicamente de forma branda e constante, sem trazer normalmente o mau cheiro de volta para dentro da cidade, ao contrário do que ocorreria com ventos de outras direções.

Rabi Akiva diz: para qualquer lado se pode fazê-lo, exceto para o seu lado oeste, afastando cinquenta cúbitos.Rabi Akiva discorda da restrição exclusiva ao leste: para ele, o curtume pode ser instalado em qualquer direção ao redor da cidade, desde que respeitada a distância de cinquenta cúbitos — com a única exceção do lado oeste, que deve ser evitado por completo. Essa exceção reflete uma tradição segundo a qual a Presença Divina (Shechiná) está associada ao oeste, voltado para o antigo Templo, tornando inapropriado instalar ali uma atividade tão malcheirosa como o curtume.

מַרְחִיקִין אֶת הַנְּבֵלוֹת וְאֶת הַקְּבָרוֹת וְאֶת הַבֻּרְסְקִי מִן הָעִיר חֲמִשִּׁים אַמָּה. אֵין עוֹשִׂין בֻּרְסְקִי אֶלָּא לְמִזְרַח הָעִיר. רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, לְכָל רוּחַ הוּא עוֹשֶׂה, חוּץ מִמַּעֲרָבָהּ, וּמַרְחִיק חֲמִשִּׁים אַמָּה:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam apresenta duas razões possíveis para a preferência pelo lado leste e explica a posição de Rabi Akiva sobre o oeste; Bartenura confirma que a halachá não segue Rabi Akiva.

Rambam · Perush HaMishná, Bava Batra 2:9
וּמַה שֶּׁיִּחֵד רוּחַ מִזְרָחִי, יֵשׁ בּוֹ שְׁנֵי טְעָמִים לְפִי דַעְתִּי: הָאֶחָד, כִּי הָרוּחַ הַמִּזְרָחִית נוֹשֶׁבֶת עַל הַמִּעוּט בְּאֵלֶּה הָאֲרָצוֹת. וְהַשֵּׁנִי, כִּי רוּחַ מִזְרָחִית יִתָּכֵן שֶׁתְּתַקֵּן בְּיֵאוּשׁ רֵיחַ הַבֻּרְסְקִי וְלֹא יַגִּיעַ מִזֶּה נֵזֶק לִבְנֵי אָדָם. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא.

Rambam propõe duas explicações para a preferência exclusiva pelo lado leste: primeiro, que o vento leste sopra apenas raramente na região da Terra de Israel e da Babilônia, minimizando o incômodo; segundo, que quando o vento leste de fato sopra, ele tende a dissipar e enfraquecer o mau cheiro do curtume antes que ele cause dano aos moradores. E confirma que a halachá não segue Rabi Akiva, mantendo-se a restrição exclusiva ao lado leste da mishná anônima.

Bartenura · Bava Batra 2:9
אֶלָּא לְמִזְרַח הָעִיר. שֶׁאֵין רוּחַ מִזְרָחִית קָשָׁה, אֶלָּא אִם כֵּן בָּאָה לְפֻרְעָנוּת, אֲבָל כְּשֶׁהִיא בָּאָה כְּדַרְכָּהּ הִיא חַמָּה וּמְנַשֶּׁבֶת בְּנַחַת, לְפִיכָךְ אֵינָהּ מְבִיאָה הָרֵיחַ לָעִיר: חוּץ מִמַּעֲרָבָהּ. לְכָל רוּחַ הוּא עוֹשֶׂה וּמַרְחִיק חֲמִשִּׁים אַמָּה, חוּץ מֵרוּחַ מַעֲרָבִית שֶׁאֵינוֹ עוֹשֶׂה כָּל עִקָּר, מִפְּנֵי שֶׁמִּתְפַּלְּלִים לְאוֹתָהּ הָרוּחַ, שֶׁשְּׁכִינָה בְּמַעֲרָב.

Bartenura explica que o vento leste, quando sopra em seu padrão natural, é quente e brando — e por isso não carrega o mau cheiro de volta à cidade, ao contrário de quando sopra de forma anormal, como sinal de castigo. Sobre a posição de Rabi Akiva, esclarece que ele proíbe totalmente o lado oeste — mesmo respeitando os cinquenta cúbitos — porque os fiéis voltam-se para essa direção em oração, já que a Presença Divina está associada ao oeste.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O perush de Rashi sobre a Guemará em Bava Batra 25a, que discute longamente a orientação das direções cardeais na tradição e na prece.

Rashi · רש״י
Bava Batra 25a, s.v. מתני׳ את הנבלות ואת הקברות כו׳
מַתְנִי׳ אֶת הַנְּבֵלוֹת וְאֶת הַקְּבָרוֹת כוּ׳ — מִשּׁוּם רֵיחַ רַע.

Rashi resume, num único comentário breve, o motivo comum a todas as três instalações mencionadas no início da mishná: carcaças, túmulos e curtume compartilham a mesma razão de exigir distância — o mau cheiro que produzem.

Bava Batra 25a, s.v. אלא למזרח העיר / חוץ ממערבה
אֶלָּא לְמִזְרַח הָעִיר — שֶׁאֵין הָרוּחַ מִזְרָחִית קָשָׁה תָּדִיר אֶלָּא אִם כֵּן בָּאָה לְפֻרְעָנוּת, אֲבָל כְּדַרְכָּהּ הִיא חַמָּה וּמְנַשֶּׁבֶת בְּנַחַת, דִּכְתִיב (יונה ד:ח) רוּחַ קָדִים חֲרִישִׁית וַתַּךְ הַשֶּׁמֶשׁ וְגוֹ׳, לְפִיכָךְ אֵינָהּ מְבִיאָה הָרוּחַ לָעִיר: חוּץ מִן מַעֲרָבָהּ — בַּגְּמָרָא מְפָרֵשׁ טַעֲמָא.

Rashi apoia a explicação sobre o vento leste citando o versículo de Yoná (4:8), "um vento leste calmo", como prova de que essa direção sopra normalmente de forma branda e quente — e não traz o mau cheiro de volta à cidade, exceto quando sopra de modo anormal, como sinal de castigo divino. Sobre a exceção do oeste na opinião de Rabi Akiva, remete à discussão mais detalhada que a Guemará desenvolve em seguida.

Bava Batra 25a, gemara, s.v. תדירא בשכינה
תְּדִירָא בַּשְּׁכִינָה — בַּמַּעֲרָב הִיא שׁוֹכֶנֶת.

Num trecho da extensa discussão talmúdica sobre por que o lado oeste é especial, a Guemará descreve a Presença Divina como residindo permanentemente voltada para o oeste — a direção do Santo dos Santos no Templo —, e Rashi confirma essa leitura, que fundamenta a proibição de Rabi Akiva contra instalar ali um curtume malcheiroso.