Seder Nezikin · Massechet Bava Batra · Perek Bet · Mishná 10 de 14

O tanque de linho, os alho-porros e a mostarda das abelhas

מַרְחִיקִין אֶת הַמִּשְׁרָה מִן הַיָּרָק
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A décima mishná deixa as grandes medidas fixas de cúbitos e passa a três casos específicos de dano agrícola mútuo entre plantações ou criações vizinhas, sem especificar uma distância numérica — cabendo à Guemará e aos comentadores discutir a lógica de cada exigência, e introduzindo uma disputa fundamental sobre quem deve se afastar de quem quando o dano é recíproco.

Afastam o tanque onde se macera o linho das verduras.O processo de deixar feixes de linho de molho em água — para amolecer as fibras antes de serem processadas — libera uma água poluída e malcheirosa que, se escoar para perto de uma horta de verduras, prejudica seu crescimento. Por isso o tanque de maceração precisa manter distância das plantações de verduras vizinhas.

E os alho-porros das cebolas.Os alho-porros, plantados perto demais de uma plantação de cebolas, prejudicam seu desenvolvimento — provavelmente drenando nutrientes ou umidade do solo de forma que compromete o crescimento saudável das cebolas ao lado.

E a mostarda das abelhas.As abelhas que se alimentam do néctar das flores de mostarda produzem um mel de sabor picante e forte, alterado pela característica pungente da planta — um prejuízo à qualidade do mel do dono das colmeias vizinhas, motivando a exigência de distância.

Rabi Yosei permite quanto à mostarda.Rabi Yosei discorda especificamente sobre o caso da mostarda e das abelhas, permitindo plantá-la mesmo perto de colmeias — porque, para ele, o dano nesse caso é mútuo e recíproco: assim como as abelhas prejudicam o dono da mostarda ao consumir suas flores, a mostarda também prejudica o dono das abelhas ao alterar o sabor do mel. Como ambos os lados causam dano um ao outro, nenhum dos dois pode exigir do outro que se afaste primeiro.

מַרְחִיקִין אֶת הַמִּשְׁרָה מִן הַיָּרָק, וְאֶת הַכְּרֵשִׁין מִן הַבְּצָלִים, וְאֶת הַחַרְדָּל מִן הַדְּבוֹרִים. רַבִּי יוֹסֵי מַתִּיר בַּחַרְדָּל:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam desenvolve a lógica por trás da posição de Rabi Yosei — o princípio de que, em dano recíproco, cabe ao prejudicado se proteger — e distingue esse caso do tanque de linho, onde o dano é unilateral; Bartenura resume os mesmos termos e o próprio argumento de Rabi Yosei.

Rambam · Perush HaMishná, Bava Batra 2:10
מַה שֶּׁאָמַר רַבִּי יוֹסֵי מַתִּיר בַּחַרְדָּל, אֵין דַּעְתּוֹ שֶׁיּוֹדֶה לַחֲכָמִים שֶׁמַּרְחִיקִין מִשְׁרָה וּכְרֵישִׁין, אֲבָל רַבִּי יוֹסֵי סָבַר שֶׁעַל הַנִּזָּק לְהַרְחִיק אֶת עַצְמוֹ, וְלֹא יַרְחִיק לֹא בַּעַל הַמִּשְׁרָה וְלֹא בַּעַל הַכְּרֵישִׁין וְלֹא בַּעַל הַחַרְדָּל, אֶלָּא מִי שֶׁיַּגִּיעַ לוֹ הַנֵּזֶק. וְאָמַר לָהֶם רַבִּי יוֹסֵי, אָמְנָם חַרְדָּל וּדְבוֹרִים כָּל אֶחָד מִשְּׁנֵיהֶם מַזִּיק לַחֲבֵרוֹ, כִּי כְּמוֹ שֶׁמַּזִּיק הַחַרְדָּל דְּבוֹרִים וּמַפְסִיד דִּבְשׁוֹ וְעוֹשֶׂה אוֹתוֹ חָרִיף וְחַד, כָּךְ מַפְסִידִין הַדְּבוֹרִים הַחַרְדָּל וְאוֹכְלִין אוֹתוֹ, וַאֲפִלּוּ לְדִבְרֵיכֶם אֵין מַרְחִיקִין הַחַרְדָּל מִן הַדְּבוֹרִים.

Rambam esclarece que a permissão de Rabi Yosei não decorre de discordar dos Sábios sobre o tanque de linho e os alho-porros — nesses casos ele concorda plenamente que é preciso afastá-los. A diferença está no princípio geral que Rabi Yosei sustenta: em qualquer caso de dano, é o próprio prejudicado quem deve se proteger e se afastar, e não o causador do dano. Mas, no caso específico da mostarda e das abelhas, Rabi Yosei observa que o dano é mútuo — a mostarda prejudica o mel das abelhas, e as abelhas, ao se alimentarem da mostarda, também prejudicam sua colheita —, de modo que, mesmo pela lógica dos próprios Sábios, nenhum dos dois teria prioridade para exigir o afastamento do outro.

Bartenura · Bava Batra 2:10
וְאֶת הַחַרְדָּל מִן הַדְּבוֹרִים. שֶׁהוּא מַפְסִיד הַדְּבַשׁ וְעוֹשֶׂה אוֹתוֹ חָרִיף וָחַד: רַבִּי יוֹסֵי מַתִּיר בַּחַרְדָּל. שֶׁיָּכוֹל לוֹמַר לוֹ, עַד שֶׁאַתָּה אוֹמֵר לִי הַרְחֵק חַרְדָּלְךָ מִן דְּבוֹרַי, הַרְחֵק דְּבוֹרֶיךָ מֵחַרְדָּלִי.

Bartenura resume a mesma ideia de forma mais direta: Rabi Yosei permite plantar mostarda perto das abelhas porque, se o dono das abelhas exigir que a mostarda seja afastada, o dono da mostarda pode responder com o argumento simétrico — que sejam as abelhas afastadas da mostarda, já que o dano corre em ambas as direções.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O perush de Rashi sobre a Guemará em Bava Batra 18a-b, que discute a exceção de Rabi Yosei e por que ela não se estende também ao tanque de linho e aos alho-porros.

Rashi · רש״י
Bava Batra 18a, s.v. את המשרה / מן הירק / ואת החרדל מן הדבורים
אֶת הַמִּשְׁרָה — מַיִם שֶׁשּׁוֹרִין בּוֹ אֶת הַפִּשְׁתָּן: מִן הַיָּרָק — שֶׁל מִינֵי מַאֲכָל, כְּרוּב וְשׁוּמִין וּכְרֵישִׁין: וְאֶת הַחַרְדָּל מִן הַדְּבוֹרִים — שֶׁאוֹכְלִין אֶת הַחַרְדָּל וּמְחַדֵּד אֶת פִּיהֶן, וְאוֹכְלוֹת אֶת דְּבַשׁ שֶׁלָּהֶן.

Rashi identifica a mishrá como a água em que o linho é deixado de molho, especifica que "verdura" aqui se refere a hortaliças comestíveis como repolho, alho e alho-porro, e explica o mecanismo do dano da mostarda: as abelhas comem a mostarda, o que aguça seu paladar, e o efeito se reflete diretamente no mel que produzem, que fica com sabor forte e picante.

Bava Batra 18a, gemara, s.v. עד שאתה אומר הרחק את חרדליך מדבוריי
עַד שֶׁאַתָּה אוֹמֵר הַרְחֵק אֶת חַרְדָּלֶיךָ מִדְּבוֹרַיי — שֶׁעַל הַמַּזִּיק לְהַרְחִיק עַצְמוֹ, הַרְחֵק אַתָּה דְּבוֹרֶיךָ מֵחַרְדָּלַיי, שֶׁאַף אַתָּה נִקְרָא מַזִּיק.

Rashi confirma que a resposta de Rabi Yosei inverte a acusação: se o dono das abelhas exige que a mostarda se afaste por ser a causadora do dano, o dono da mostarda pode responder que, do mesmo modo, as próprias abelhas — ao consumirem as flores da mostarda — também são causadoras de dano, e por isso deveriam ser elas a se afastar.

Bava Batra 18b, gemara, s.v. ועוד מאי טעמא דרבי יוסי
וְעוֹד מַאי טַעְמָא דְרַבִּי יוֹסֵי דְּלָא פְּלִיג אֶלָּא בְּחַרְדָּל, וְטַעְמָא מִשּׁוּם דִּתְרוַיְיהוּ מַזִּיקִין הֵן, וְלִיפְלֹג נַמִּי בְּמִשְׁרָה וְיָרָק.

A Guemará levanta a questão que a explicação de Rambam já responde: por que Rabi Yosei discorda apenas quanto à mostarda e às abelhas, e não também quanto ao tanque de linho e às verduras, ou aos alho-porros e às cebolas? Rashi confirma que a resposta está no caráter mútuo do dano — presente apenas no caso da mostarda e das abelhas, mas ausente nos outros dois casos, onde o dano corre numa única direção.