Seder Nezikin · Massechet Bava Batra · Perek Bet · Mishná 14 de 14 — encerrando o perek

A árvore sobre a via pública, para que o camelo passe

אִילָן שֶׁהוּא נוֹטֶה לִרְשׁוּת הָרַבִּים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A última mishná do Perek Bet desloca o problema dos galhos de uma árvore do campo particular do vizinho para o domínio público — a via usada por toda a cidade —, e fecha o perek com uma disputa entre três critérios possíveis para determinar até onde os galhos podem se estender sem atrapalhar quem passa por baixo.

Uma árvore que se inclina para o domínio público: corta-se, para que um camelo com seu cavaleiro possa passar por baixo. — Quando os galhos de uma árvore se estendem sobre uma via pública, eles precisam ser cortados até uma altura suficiente para que o maior transporte comum da época — um camelo com uma pessoa montada sobre ele — consiga passar por baixo sem obstrução, garantindo a livre circulação de todos os que usam aquela via.

Rabi Yehudá diz: um camelo carregado de linho ou de feixes de ramos. — Rabi Yehudá propõe uma medida ligeiramente diferente e, na prática, menos exigente: em vez de um camelo com cavaleiro montado, ele toma como referência um camelo carregado de fardos de linho ou de feixes de galhos — uma carga mais larga que um cavaleiro sentado, mas que não exige tanta altura livre, já que o cavaleiro, ao passar sob um galho baixo, pode se inclinar sobre o pescoço do animal para se abaixar, enquanto a carga de linho ou de ramos não tem como se comprimir dessa forma.

Rabi Shimon diz: toda árvore, conforme o prumo, por causa da impureza. — Rabi Shimon propõe um critério totalmente diferente, baseado não na circulação de pessoas e animais, mas na pureza ritual: qualquer árvore cujos galhos pairam sobre a via pública deve ser cortada exatamente na linha do prumo sobre essa via, porque um galho que paira sobre um cadáver ou parte de um morto — mesmo sem que ninguém perceba — pode formar uma "tenda" que transmite impureza a quem passa por baixo dele. Cortar os galhos rente à divisa da via pública elimina esse risco de contaminação ritual invisível. A halachá segue apenas a opinião anônima do Tana Kama, com a medida do camelo e seu cavaleiro.

אִילָן שֶׁהוּא נוֹטֶה לִרְשׁוּת הָרַבִּים, קוֹצֵץ, כְּדֵי שֶׁיְּהֵא גָמָל עוֹבֵר וְרוֹכְבוֹ. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, גָּמָל טָעוּן פִּשְׁתָּן אוֹ חֲבִילֵי זְמוֹרוֹת. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, כָּל הָאִילָן כְּנֶגֶד הַמִּשְׁקֹלֶת, מִפְּנֵי הַטֻּמְאָה:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica a lógica da carga de Rabi Yehudá e detalha a preocupação de Rabi Shimon com a impureza de um "ohel"; Bartenura confirma a decisão final a favor do Tana Kama.

Rambam · Perush HaMishná, Bava Batra 2:14
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר טָעוּן פִּשְׁתָּן בְּלִי רוֹכֵב, וְהוּא פָּחוֹת מִשִּׁעוּר רַבָּנָן. וּמַאֲמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן מִפְּנֵי הַטֻּמְאָה, רְצוֹנוֹ לוֹמַר טֻמְאַת אֹהֶל, שֶׁמָּא יַאֲהִיל עַל כְּזַיִת מִן הַמֵּת וְכַיּוֹצֵא בּוֹ מִן הַדְּבָרִים הַמְטַמְּאִים בְּאֹהֶל, וְיִטַּמָּא הָאָדָם הָעוֹבֵר תַּחַת אוֹתָם עֲנָפִים, כְּמוֹ שֶׁיִּתְבָּאֵר בִּמְקוֹמוֹ בְּמַסֶּכֶת אֹהָלוֹת. וְהֲלָכָה כְּתַנָּא קַמָּא בִּלְבַד.

Rambam explica que a medida de Rabi Yehudá — um camelo carregado de linho, sem cavaleiro montado — é na verdade menor que a medida dos Sábios (Tana Kama), precisamente porque, sem um cavaleiro capaz de se abaixar, a altura livre necessária para a passagem é menor. Sobre a preocupação de Rabi Shimon com a impureza, esclarece que se trata da lei da impureza por "tenda" (ohel): um galho pairando sobre um pedaço de cadáver do tamanho de uma azeitona, ou substância semelhante que transmite impureza dessa forma, pode formar uma cobertura que estende a impureza a qualquer pessoa que passe por baixo dele — assunto desenvolvido com detalhe no tratado Ohalot. E confirma que a halachá segue apenas a opinião anônima do Tana Kama.

Bartenura · Bava Batra 2:14
גָּמָל טָעוּן פִּשְׁתָּן. וְאֵין צָרִיךְ לָקֹץ כְּדֵי גָמָל וְרוֹכְבוֹ, דְּרוֹכֵב גָּחֵין וְחָלֵיף תּוּתֵיהּ: מִפְּנֵי הַטֻּמְאָה. שֶׁמָּא יַאֲהִילוּ הָעֲנָפִים עַל כְּזַיִת מִן הַמֵּת וְכַיּוֹצֵא בָּהּ, וְיִטַּמָּא הָאָדָם הָעוֹבֵר שָׁם. וַהֲלָכָה כַּתַּנָּא קַמָּא בִּלְבַד.

Bartenura confirma que não é preciso cortar os galhos na altura suficiente para um camelo com cavaleiro montado, porque o próprio cavaleiro, ao se aproximar de um galho baixo, pode se inclinar sobre o pescoço do animal e passar por baixo dele mesmo assim — reduzindo a altura mínima exigida. E reafirma, junto com Rambam, que a halachá final segue apenas a opinião do Tana Kama, e não as posições de Rabi Yehudá ou Rabi Shimon.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O perush de Rashi sobre a Guemará em Bava Batra 27b, que fecha o perek discutindo a medida exata da carga de Rabi Yehudá.

Rashi · רש״י
Bava Batra 27b, s.v. אילן הנוטה לרשות הרבים / גמל טעון פשתן / מפני הטומאה
אִילָן הַנּוֹטֶה לִרְשׁוּת הָרַבִּים — קוֹצֵץ אֶת הָעֲנָפִים כְּדֵי שֶׁיְּהֵא הַגָּמָל עוֹבֵר וְרוֹכְבוֹ: גָּמָל טָעוּן פִּשְׁתָּן — וְאֵין צָרִיךְ לָקֹץ כְּדֵי גָמָל וְרוֹכְבוֹ, דְּרוֹכֵב גָּחֵין וְחָלֵיף תּוּתֵיהּ: מִפְּנֵי הַטֻּמְאָה — שֶׁמָּא יַאֲהִילוּ הָעֲנָפִים עַל כְּזַיִת מִן הַמֵּת וְכַיּוֹצֵא בָּהּ, וְיִטַּמָּא הָאָדָם הָעוֹבֵר שָׁם.

Rashi confirma, quase palavra por palavra, a mesma leitura de Bartenura: os galhos são cortados até a altura suficiente para a passagem de um camelo montado; a medida de Rabi Yehudá é mais branda porque o cavaleiro pode se inclinar para passar sob um galho baixo, enquanto uma carga de linho não tem essa flexibilidade; e a preocupação de Rabi Shimon é que os galhos formem, sem que ninguém perceba, uma "tenda" de impureza sobre restos de um cadáver, contaminando ritualmente quem passa por baixo deles.

Bava Batra 27b, gemara, s.v. בשיעורא דרבי יהודה מאי עבדי ליה
בְּשִׁעוּרָא דְרַבִּי יְהוּדָה מַאי עָבְדִי לֵיהּ — כְּשֶׁיָּבֹא גָמָל טָעוּן פִּשְׁתָּן, הֵיאַךְ יַעֲבֹר.

A Guemará questiona a viabilidade prática da medida de Rabi Yehudá: se os galhos forem cortados apenas na altura exigida para um camelo carregado de linho — sem cavaleiro —, como fará então um camelo com cavaleiro montado para passar por ali depois, já que sua medida é a mais exigente das duas? A pergunta expõe a tensão prática entre as diferentes medidas propostas ao longo da mishná, encerrando a discussão do perek com a mesma atenção detalhada às medidas concretas que o abriu, na primeira mishná, com os três palmos entre um poço e outro.

Encerrando o perek · סוֹף הַפֶּרֶק

Com esta décima quarta mishná, encerra-se o Perek Bet de Massechet Bava Batra — o perek mais longo do tratado, dedicado quase inteiramente às distâncias mínimas exigidas entre uma instalação e a propriedade do vizinho, para evitar tanto o dano material direto quanto o hezek re'iyá, o dano puramente visual. O perek percorreu poços, valas e cavernas (2:1), o forno dentro de casa (2:2), a loja e o barulho do pátio (2:3), o muro paralelo e as janelas (2:4), o pombal e a escada (2:5), o filhote de pombo achado (2:6), a árvore afastada da cidade (2:7), a eira fixa (2:8), as carcaças, os túmulos e o curtume (2:9), o tanque de linho, os alho-porros e a mostarda (2:10), a árvore afastada do poço (2:11), a árvore junto ao campo do vizinho (2:12), os galhos sobre o campo alheio (2:13), e fechou com os galhos sobre a via pública, cortados para que um camelo com seu cavaleiro possa passar (2:14).

O estudo de Massechet Bava Batra prossegue agora no Perek Guimel, que tratará da chazaká — a posse continuada de três anos como prova legal de propriedade —, dando início a um novo bloco temático do tratado.