Seder Nezikin · Massechet Bava Batra · Perek Bet · Mishná 13 de 14

Os galhos que se inclinam sobre o campo do vizinho

אִילָן שֶׁהוּא נוֹטֶה לִשְׂדֵה חֲבֵרוֹ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A décima terceira mishná trata de um problema distinto das anteriores: já não a distância do tronco em relação à divisa, mas até onde os próprios galhos podem se estender sobre o terreno vizinho antes de precisarem ser cortados — introduzindo o termo técnico "conforme o prumo", uma linha vertical imaginária traçada exatamente sobre a divisa entre os dois campos.

Uma árvore que se inclina para o campo do seu companheiro: corta-se até a altura de uma vara de aguilhão sobre o arado.Quando os galhos de uma árvore comum se estendem para além da divisa e pairam sobre o campo do vizinho, eles não precisam ser cortados exatamente na linha da divisa — basta cortá-los na altura suficiente para que a vara usada para guiar os bois durante a lavoura passe por baixo deles sem obstrução, permitindo o trabalho normal do arado no campo vizinho.

E na alfarrobeira e no sicômoro, conforme o prumo.Para a alfarrobeira e o sicômoro — árvores de sombra particularmente densa e prejudicial às plantações abaixo delas — a regra é mais rigorosa: seus galhos devem ser cortados exatamente na linha vertical imaginária traçada sobre a divisa entre os dois campos, sem tolerar qualquer parte da copa pendendo sobre o terreno alheio.

No campo irrigado, toda árvore, conforme o prumo.Num campo de cultivo irrigado — terra naturalmente seca que depende de rega constante —, a mesma exigência rigorosa de corte na linha do prumo se aplica a qualquer espécie de árvore, não apenas à alfarrobeira e ao sicômoro, porque nesse tipo de solo a sombra de qualquer copa bloqueia o orvalho e a umidade de que as plantações dependem para sobreviver.

Aba Shaul diz: toda árvore estéril, conforme o prumo.Aba Shaul propõe um critério diferente para estender a regra mais rigorosa: para ele, o que importa não é o tipo de solo, mas se a árvore produz frutos ou não — toda árvore estéril, por ter utilidade menor, deve ser cortada exatamente na linha do prumo, enquanto uma árvore frutífera comum mantém a tolerância mais branda da altura da vara de aguilhão. A halachá não segue Aba Shaul.

אִילָן שֶׁהוּא נוֹטֶה לִשְׂדֵה חֲבֵרוֹ, קוֹצֵץ מְלֹא הַמַּרְדֵּעַ עַל גַּבֵּי הַמַּחֲרֵשָׁה. וּבְחָרוּב וּבְשִׁקְמָה, כְּנֶגֶד הַמִּשְׁקֹלֶת. בֵּית הַשְּׁלָחִין, כָּל הָאִילָן כְּנֶגֶד הַמִּשְׁקֹלֶת. אַבָּא שָׁאוּל אוֹמֵר, כָּל אִילַן סְרָק, כְּנֶגֶד הַמִּשְׁקֹלֶת:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica os termos técnicos — a vara de aguilhão, o campo irrigado e a linha do prumo — e confirma que a halachá não segue Aba Shaul; Bartenura acrescenta a leitura alternativa da disputa entre o Tana Kama e Aba Shaul.

Rambam · Perush HaMishná, Bava Batra 2:13
מַרְדֵּעַ הוּא עֵץ הַמְּלַמֵּד שֶׁיֵּשׁ בִּשְׁתֵּי קְצוֹתָיו שִׁנֵּי בַרְזֶל, וּמַנְהִיגִים בּוֹ הַבָּקָר בְּעֵת הַחֲרִישָׁה. וּבֵית הַשְּׁלָחִין הִיא אֶרֶץ עֲיֵפָה וּצְמֵאָה, וְהִיא שֶׁאֵין לָהּ נָהָר, וְצֵל הָאִילָנוֹת מַזִּיק לָהּ לְפִי שֶׁמּוֹנֵעַ הַטַּל מִמֶּנָּה. וְטַעַם כְּנֶגֶד הַמִּשְׁקֹלֶת, הַהַשְׁוָאָה, כְּלוֹמַר שֶׁיִּקְצְצוּ הָעֲנָפִים כְּנֶגֶד הַמֵּצַר שֶׁבֵּין שְׁנֵי הַשָּׂדוֹת. וְאֵין הֲלָכָה כַּאֲבָּא שָׁאוּל.

Rambam descreve a mardêa como uma vara comprida com pontas de ferro nas duas extremidades, usada pelo lavrador para guiar os bois durante a lavoura; identifica beit hashlachin como uma terra seca e sedenta, sem rio próprio, para a qual a sombra das árvores é prejudicial por bloquear o orvalho de que ela depende; e explica que "conforme o prumo" significa nivelar os galhos exatamente na linha da divisa entre os dois campos. Confirma, por fim, que a halachá não segue a opinião de Aba Shaul.

Bartenura · Bava Batra 2:13
אַבָּא שָׁאוּל אוֹמֵר כוּ׳. אַרֵישָׁא קָאֵי, דְּאָמַר תַּנָּא קַמָּא קוֹצֵץ מְלֹא מַרְדֵּעַ וַאֲפִלּוּ הִיא אִילַן סְרָק, חוּץ מֵחָרוּב וְשִׁקְמָה, וְאָמַר לֵיהּ אַבָּא שָׁאוּל כָּל אִילַן סְרָק נַמִּי כְּנֶגֶד הַמִּשְׁקֹלֶת.

Bartenura esclarece a que parte da mishná Aba Shaul está reagindo: o Tana Kama (autor anônimo da primeira parte da mishná) havia dito que se corta até a altura de uma vara de aguilhão mesmo numa árvore estéril comum, reservando a regra mais rigorosa do prumo apenas para a alfarrobeira e o sicômoro; Aba Shaul discorda especificamente desse ponto, insistindo que toda árvore estéril — não apenas essas duas espécies — deve ser cortada conforme o prumo.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O perush de Rashi sobre a Guemará em Bava Batra 27b, incluindo a leitura alternativa de que Aba Shaul poderia estar discordando de uma parte diferente da mishná.

Rashi · רש״י
Bava Batra 27b, s.v. מרדע / קוצץ / החרוב והשקמה / כנגד המשקולת / משקולת
מַרְדֵּעַ — מַלְמַד הַבָּקָר: קוֹצֵץ — הָעֲנָפִים עַד גֹּבַהּ מְלֹא מַרְדֵּעַ, שֶׁלֹּא יְעַכְּבוּהוּ מִלְּהוֹלִיךְ מַחֲרֵשָׁתוֹ שָׁם: הֶחָרוּב וְהַשִּׁקְמָה — שֶׁצִּלָּן מְרֻבֶּה וְקָשֶׁה לַשָּׂדֶה: כְּנֶגֶד הַמִּשְׁקֹלֶת — קוֹצֵץ כָּל מַה שֶּׁנּוֹטֶה לְתוֹךְ שָׂדֵהוּ: מִשְׁקֹלֶת — חוּט שֶׁבּוֹנֵי הַחוֹמָה תּוֹלִים בָּהּ מִשְׁקוֹלֶת שֶׁל אֲבַר.

Rashi confirma a mesma definição do mardêa como a vara de guiar os bois, explica que os galhos são cortados até a altura suficiente para não obstruir a passagem do arado, e identifica a sombra especialmente densa da alfarrobeira e do sicômoro como o motivo da exigência mais rigorosa. Sobre a expressão "conforme o prumo", esclarece que se refere ao fio de chumbo usado pelos construtores de muros para verificar o alinhamento vertical — a mesma imagem aplicada aqui para traçar a linha exata da divisa entre os dois campos.

Bava Batra 27b, s.v. ואם בית השלחין היא / כל האילן כנגד המשקולת
וְאִם בֵּית הַשְּׁלָחִין הִיא — אֶרֶץ צְמֵאָה לְמַיִם: כָּל הָאִילָן כְּנֶגֶד הַמִּשְׁקֹלֶת — אֲפִלּוּ אֵינוֹ חָרוּב וְשִׁקְמָה, קוֹצֵץ כְּנֶגֶד הַמִּשְׁקֹלֶת, שֶׁהַצֵּל רַע לְבֵית הַשְּׁלָחִין.

Rashi reforça que a exigência do prumo, no caso do campo irrigado, se aplica a qualquer espécie de árvore — mesmo as que normalmente teriam a tolerância mais branda —, precisamente porque esse tipo de solo depende do orvalho e da umidade que a sombra de qualquer copa bloquearia.

Bava Batra 27b, gemara, s.v. ארישא קאי / או אסיפא קאי
אַרֵישָׁא קָאֵי — דְּקָאָמַר תַּנָּא קַמָּא קוֹצֵץ מְלֹא מַרְדֵּעַ וַאֲפִלּוּ אִילַן סְרָק, חוּץ מֵחָרוּב וְשִׁקְמָה, וְאָמַר לֵיהּ אַבָּא שָׁאוּל כָּל אִילַן סְרָק נַמִּי כְּנֶגֶד הַמִּשְׁקֹלֶת: אוֹ אַסֵּיפָא קָאֵי — דְּקָאָמַר תַּנָּא קַמָּא כָּל הָאִילָן כְּנֶגֶד הַמִּשְׁקֹלֶת וַאֲפִלּוּ אִילָן הָעוֹשֶׂה פֵּרוֹת, וְאָמַר לֵיהּ אַבָּא שָׁאוּל כָּל אִילַן סְרָק הוּא דִּכְנֶגֶד הַמִּשְׁקֹלֶת, אֲבָל אִילָן הָעוֹשֶׂה פֵּרוֹת נַמִּי מְלֹא מַרְדֵּעַ וְתוּ לֹא.

A Guemará explora duas leituras possíveis de qual afirmação exata Aba Shaul está contestando — se a primeira parte da mishná, sobre árvores comuns, ou a segunda, sobre o campo irrigado — e Rashi explica ambas as possibilidades: na primeira leitura, Aba Shaul apenas amplia a categoria de árvores estéreis sujeitas ao prumo; na segunda, ele na verdade restringe a regra do campo irrigado, limitando-a apenas às árvores estéreis e devolvendo às árvores frutíferas a tolerância mais branda da vara de aguilhão.