A Mishná · הַמִּשְׁנָה
Oitava mishná do Perek Hei: formula a regra geral da anulação de misturas envolvendo vinho de libação — a distinção entre misturar-se com o mesmo tipo (mín bemino, proibido em qualquer proporção) e com tipo diferente (nótem taam, proporção que dá sabor).
O vinho de libação é proibido e proíbe em qualquer proporção. Vinho com vinho, e água com água, em qualquer proporção. Vinho com água, e água com vinho, na proporção que dá sabor. Esta é a regra: mesmo tipo com seu tipo, em qualquer quantidade; e não sendo do seu tipo, na proporção que dá sabor.
יֵין נֶסֶךְ אָסוּר, וְאוֹסֵר בְּכָל שֶׁהוּא. יַיִן בְּיַיִן וּמַיִם בְּמַיִם, בְּכָל שֶׁהוּא. יַיִן בְּמַיִם וּמַיִם בְּיַיִן, בְּנוֹתֵן טָעַם. זֶה הַכְּלָל, מִין בְּמִינוֹ, בְּמַשֶּׁהוּ. וְשֶׁלֹּא בְמִינוֹ, בְּנוֹתֵן טָעַם:
Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת
Deuteronômio 13:18 — a fonte da anulação em qualquer quantidade
וְלֹא יִדְבַּק בְּיָדְךָ מְאוּמָה מִן הַחֵרֶם
"E que nada do consagrado à destruição se apegue à tua mão."
Rambam, no Perush HaMishná, funda nesse versículo — dito a respeito da cidade idólatra (ir hanidachat) — a razão pela qual o vinho de libação, por sua gravidade equiparada à da própria idolatria, proíbe qualquer mistura com seu próprio tipo em qualquer proporção, sem anulação pela maioria, ao contrário da generalidade das proibições da Torá.
Halachot · הֲלָכוֹת
Rambam · Perush HaMishná, Avodá Zará 5:8
יֵין נֶסֶךְ אָסוּר וְכוּ׳: פָּסַק הַהֲלָכָה בְּיֵין נֶסֶךְ בִּלְבַד... שֶׁהוּא מְטַמֵּא טֻמְאָה חֲמוּרָה כַּמֵּת, וְהוּא אוֹסֵר בְּמִינוֹ בְּכָל שֶׁהוּא... כְּמוֹ שֶׁחִטָּה אַחַת פּוֹטֶרֶת אֶת הַכְּרִי כֵּן חִטָּה אַחַת תָּשִׂים אֶת הַכְּרִי כֻּלּוֹ טֶבֶל... וְכָל אִסּוּרִים שֶׁבַּתּוֹרָה בֵּין בְּמִינוֹ בֵּין שֶׁלֹּא בְמִינוֹ בְּנוֹתֵן טַעַם, חוּץ מִטֶּבֶל וְיֵין נֶסֶךְ.
Rambam explica que a halachá segue a regra de que apenas duas categorias proíbem em qualquer proporção quando misturadas com o próprio tipo: o vinho de libação, por sua gravidade equiparada à idolatria (fundamentada no versículo "e que nada do consagrado se apegue à tua mão"), e o tevel (produto agrícola não dizimado), cuja proibição, assim como sua permissão original, segue o princípio de que basta um único grão para tornar todo o monte proibido. Todas as demais proibições da Torá — sejam misturadas com o mesmo tipo ou com tipo diferente — seguem a regra do sabor perceptível (nótem taam), aferido por degustação de um cohen, de um padeiro gentio de confiança, ou por medidas fixas (sessenta, cem ou duzentas partes, conforme o caso).
Bartenura · Avodá Zará 5:8
וּמַיִם בְּמַיִם. מַיִם שֶׁנִּתְנַסְּכוּ לַעֲבוֹדָה זָרָה אוֹ שֶׁנֶּעֶבְדוּ, בְּמַיִם שֶׁל הֶתֵּר: בְּכָל שֶׁהוּא. לֹא שְׁנָא נָפַל הֶתֵּרָא לְגוֹ אִסּוּרָא אוֹ אִסּוּרָא לְגוֹ הֶתֵּרָא, אוֹסֵר בְּמִינוֹ בְּכָל שֶׁהוּא... וּמַסְקָנָא דְמִלְּתָא לְפִי הַהֲלָכָה, כָּל אִסּוּרִין שֶׁבַּתּוֹרָה בֵּין בְּמִינָן בֵּין שֶׁלֹּא בְמִינָן, בְּנוֹתֵן טַעַם. חוּץ מִטֶּבֶל וְיֵין נֶסֶךְ, דִּבְמִינָן בְּמַשֶּׁהוּ, שֶׁלֹּא בְמִינָן בְּנוֹתֵן טַעַם. יֵין נֶסֶךְ, מִשּׁוּם חֻמְרָא דַעֲבוֹדָה זָרָה.
Bartenura esclarece que "água com água" refere-se a água que foi libada ou adorada como ídolo, caindo em água comum — e a regra vale tanto se o proibido caiu no permitido quanto o inverso, desde que seja despejado de um vaso de boca larga em quantidade considerável de uma só vez; gotejamento lento não anula o permitido. Reafirma a conclusão: toda a Torá segue a regra do sabor perceptível, exceto tevel e vinho de libação, que proíbem em qualquer proporção quando misturados com seu próprio tipo — o vinho de libação por causa da gravidade da idolatria.
Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים
Rashi רַשִׁ״י
Talmud Bavli, Avodá Zará 73a (Guemará sobre esta mishná)
מַתְנִי׳ וּמַיִם בְּמַיִם כוּ׳ - מַיִם שֶׁנִּתְנַסְּכוּ לַעֲבוֹדַת כּוֹכָבִים נָפְלוּ בְּמַיִם דְּהֶתֵּר: גְּמָ׳ כִּי אֲתָא רַב דִּימִי אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: הַמְעָרֶה יֵין נֶסֶךְ מֵחָבִית לַבּוֹר, אֲפִלּוּ כָּל הַיּוֹם כֻּלּוֹ, רִאשׁוֹן רִאשׁוֹן בָּטֵל... וְהַאי דְּקָתָנֵי לְקַמָּן יֵין נֶסֶךְ שֶׁנָּפַל בְּבוֹר כֻּלּוֹ אָסוּר, מוֹקֵי לָהּ כְּשֶׁנָּפַל בְּחָבִית גְּדוֹלָה וְנִשְׁבְּרָה וְנָפַל כֻּלּוֹ כְּאֶחָד:
Rashi explica que "água com água" refere-se especificamente a água que foi efetivamente libada à idolatria e caiu em água permitida. Sobre o mecanismo prático da anulação, Rashi transmite em nome de Rav Dimi, em nome de Rabi Yochanan, uma distinção fundamental: quando se despeja vinho de libação de um barril para um poço de vinho permitido, gota a gota, mesmo durante um dia inteiro, cada gota se anula sucessivamente na maioria já presente ("primeira, primeira, se anula") — e é por isso que a mishná adiante, ao dizer que vinho de libação caído num poço torna tudo proibido, refere-se apenas ao caso em que um barril inteiro se quebra de uma só vez, despejando todo o seu conteúdo simultaneamente, sem a gradual anulação que ocorre no gotejamento contínuo.