Seder Nezikin · Massechet Avodá Zará · Perek Hei · Mishná 7 de 12

Artesãos pagos em vinho; a venda de vinho ao gentio; o funil e o despejar

אֻמָּנִין שֶׁל יִשְׂרָאֵל שֶׁשָּׁלַח לָהֶם נָכְרִי חָבִית
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Sétima e mais longa mishná do Perek Hei, reunindo quatro casos comerciais distintos em torno da aquisição (kinyan) e do momento exato em que o vinho se torna proibido: artesãos pagos em vinho de libação, a venda de vinho a um gentio, o funil compartilhado entre compradores, e o ato de despejar de um vaso a outro.
Artesãos israelitas a quem um gentio enviou um barril de vinho de libação como seu pagamento — é permitido dizer-lhe: 'dá-nos o seu valor em dinheiro'. Mas se já entrou em posse deles, é proibido. Quem vende seu vinho a um gentio: se fechou o preço antes de medir, seu dinheiro é permitido; se mediu antes de fechar o preço, seu dinheiro é proibido. Tomou o funil e mediu para dentro do frasco do gentio, e voltou a medir para dentro do frasco do israelita — se há nele resíduo retido de vinho, é proibido. Quem despeja de um vaso para outro: aquilo que despejou dele é permitido; e aquilo que despejou para dentro dele é proibido.
אֻמָּנִין שֶׁל יִשְׂרָאֵל שֶׁשָּׁלַח לָהֶם נָכְרִי חָבִית שֶׁל יֵין נֶסֶךְ בִּשְׂכָרָן, מֻתָּרִים לוֹמַר לוֹ תֵּן לָנוּ אֶת דָּמֶיהָ. וְאִם מִשֶּׁנִּכְנְסָה לִרְשׁוּתָן, אָסוּר. הַמּוֹכֵר יֵינוֹ לַנָּכְרִי, פָּסַק עַד שֶׁלֹּא מָדַד, דָּמָיו מֻתָּרִין. מָדַד עַד שֶׁלֹּא פָסַק, דָּמָיו אֲסוּרִין. נָטַל אֶת הַמַּשְׁפֵּךְ וּמָדַד לְתוֹךְ צְלוֹחִיתוֹ שֶׁל נָכְרִי, וְחָזַר וּמָדַד לְתוֹךְ צְלוֹחִיתוֹ שֶׁל יִשְׂרָאֵל, אִם יֶשׁ בּוֹ עַכֶּבֶת יַיִן, אָסוּר. הַמְעָרֶה מִכְּלִי אֶל כְּלִי, אֶת שֶׁעֵרָה מִמֶּנּוּ, מֻתָּר. וְאֶת שֶׁעֵרָה לְתוֹכוֹ, אָסוּר:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Avodá Zará 5:7
אֻמָּנִין יִשְׂרָאֵל וְכוּ׳: כְּבָר יָדַעְתָּ שֶׁהָעִקָּר בְּיֵין נֶסֶךְ אָסוּר בַּהֲנָאָה וְאָסוּר לְמָכְרוֹ, וּמֵעִקָּרֵנוּ שֶׁמְּשִׁיכָה בְּעוֹבֵד כּוֹכָבִים קוֹנָה כְּמוֹ יִשְׂרָאֵל... וְעַכֶּבֶת יַיִן שֶׁיִּשָּׁאֵר בַּמַּשְׁפֵּךְ לַחוּת הַיַּיִן נִרְאֵית: וְהַמְּעָרֶה מִכְּלִי לִכְלִי הוּא שֶׁיָּצוּק יִשְׂרָאֵל מִכְּלָיו לְתוֹךְ הַכְּלִי שֶׁבְּיַד הָעוֹבֵד כּוֹכָבִים... וְהַסִּלּוֹן הַמְחַבֵּר בֵּין הַשְּׁנֵי כֵלִים בְּעֵת יְצִיקָתוֹ, וְהוּא הַנִּקְרָא נִצּוֹק, אָסוּר.

Rambam recorda o princípio central: vinho de libação é proibido para benefício e não pode ser vendido, e o princípio geral de aquisição comercial é que a tomada física (meshichá) confere posse a um gentio tanto quanto a um israelita. Sobre o "resíduo de vinho" no funil, explica que se trata da umidade visível deixada pelo vinho já medido. E sobre "quem despeja de um vaso a outro", esclarece que se refere a um israelita que verte de seu próprio vaso para o vaso em mão do gentio — e que o fio de líquido que conecta os dois vasos durante o despejo, chamado "nitzok", é considerado uma ligação que torna proibido também o que resta no vaso superior, salvo quando o israelita ergue a mão e interrompe o fluxo antes que ele toque o vaso inferior.

Bartenura · Avodá Zará 5:7
תֵּן לָנוּ אֶת דָּמֶיהָ. דְּהָא לֹא קָנוּ, וְהוּא אֵינוֹ חַיָּב לָהֶם אֶלָּא מָעוֹת: הַמּוֹכֵר יֵינוֹ לְנָכְרִי... עַד שֶׁלֹּא מָדַד. דָּמָיו מֻתָּרִין. דִּמְשִׁיכָה בְנָכְרִי קוֹנָה כְמוֹ בְיִשְׂרָאֵל... אִם יֶשׁ בּוֹ עַכֶּבֶת יַיִן. אִם יֵשׁ בַּמַּשְׁפֵּךְ שֶׁנִּמְדַּד בּוֹ תְּחִלָּה יַיִן שֶׁל נָכְרִי, עַכֶּבֶת יַיִן, אֲגָנִים שֶׁמִּתְעַכֵּב יַיִן עַל פִּיו... הַמְעָרֶה מִכְּלִי אֶל כְּלִי. יִשְׂרָאֵל שֶׁעֵרָה מִכְּלִי שֶׁלּוֹ לַכְּלִי שֶׁבְּיַד הַנָּכְרִי... דְּנִצּוֹק חִבּוּר וְאוֹסֵר בְּיֵין נֶסֶךְ. וְכֵן הִלְכָתָא.

Bartenura explica que os artesãos podem exigir o valor em dinheiro do barril, pois nunca o adquiriram de fato, e o gentio lhes deve apenas o pagamento combinado — mas se o barril já entrou em posse deles, ele se torna vinho de libação em domínio judaico e é proibido. Na venda, "fechar o preço antes de medir" confere posse ao gentio por meshichá antes que o vinho se torne libado em mãos do israelita; medir antes de fechar o preço não confere posse ainda, de modo que o toque posterior do gentio já o torna vinho de libação em domínio do vendedor. Sobre "resíduo de vinho", trata-se de gotas retidas no funil provenientes do vinho do gentio já medido, que contaminam a medida seguinte para o israelita. E sobre o despejar de vaso a vaso, conclui que o "nitzok" (o fio contínuo de líquido) é considerado uma ligação plena para efeitos de vinho de libação, e essa é a halachá.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Talmud Bavli, Avodá Zará 71a, 71b e 72a (Guemará sobre os quatro casos desta mishná)
מַתְנִי׳ מֻתָּר לוֹמַר לוֹ תֵּן לָנוּ אֶת דָּמֶיהָ - דְּהָא לֹא קָנוּ לָהּ וְהוּא אֵינוֹ חַיָּב לָהֶן אֶלָּא מָעוֹת... מַתְנִי׳ הַמּוֹכֵר יֵינוֹ לְעוֹבֵד כּוֹכָבִים פָּסַק - עִמּוֹ מָעוֹת עַד שֶׁלֹּא מָדַד, דָּמָיו מֻתָּרִין... מָדַד עַד שֶׁלֹּא פָסַק דָּמָיו אֲסוּרִין - דְּעוֹבֵד כּוֹכָבִים לֹא קְנָיָהּ בִּמְשִׁיכָה... מַתְנִי׳ מַשְׁפֵּךְ - טְרַיְיטוֹ"ר, מִלְמַעְלָה פִּיו רָחָב וּמִלְּמַטָּה נֶקֶב קָצָר... הַמְעָרֶה מִכְּלִי אֶל כְּלִי אֶת שֶׁעֵרָה מִמֶּנּוּ מֻתָּר - וּבַגְּמָרָא מְפָרֵשׁ בְּעוֹבֵד כּוֹכָבִים הַמְעָרֶה... אָמַר רַב הוּנָא: נִצּוֹק וְקָטַפְרֵס וּמַשְׁקֶה טוֹפֵחַ חִבּוּר לְעִנְיַן יֵין נֶסֶךְ:

Rashi acompanha os quatro casos desta longa mishná. Sobre os artesãos, confirma que, não tendo adquirido o barril, podem exigir apenas seu valor em dinheiro do gentio. Sobre a venda, explica que a posse por meshichá vale tanto para gentio quanto para israelita: quando o preço já está fechado antes de medir, o gentio adquire o vinho no momento em que o israelita o mede para dentro de seu vaso, tornando-se dívida monetária, não vinho de libação em domínio judaico; se mediu antes de fechar o preço, o gentio ainda não adquiriu por não haver certeza sobre o negócio, e o toque subsequente do vendedor já configura vinho de libação em posse israelita. Sobre o funil (mashpech), descreve-o como um instrumento largo em cima e estreito embaixo, usado para despejar vinho em frascos de gargalo fino. E, sobre o despejar entre vasos, Rashi cita a opinião de Rav Huna de que o "nitzok" — o fio de líquido que liga o vaso superior ao inferior durante o despejo — constitui uma ligação plena para efeitos do vinho de libação, tornando proibido também o que ficou no vaso superior, salvo quando o fluxo é interrompido antes do contato.