Seder Nezikin · Massechet Avodá Zará · Perek Hei · Mishná 6 de 12

A tropa de saque que entra na cidade em tempo de paz e de guerra

בַּלֶּשֶׁת גּוֹיִם שֶׁנִּכְנְסָה לָעִיר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Sexta mishná do Perek Hei: aplica o princípio da falta de oportunidade (ein panai) a um cenário militar — o comportamento presumido de soldados gentios que invadem uma cidade em tempo de paz versus em tempo de guerra.
Uma tropa de saque de gentios que entrou na cidade em tempo de paz — barris abertos são proibidos, vedados são permitidos. Em tempo de guerra — tanto estes como aqueles são permitidos, porque não há tempo disponível para libar.
בַּלֶּשֶׁת גּוֹיִם שֶׁנִּכְנְסָה לָעִיר בִּשְׁעַת שָׁלוֹם, חָבִיּוֹת פְּתוּחוֹת, אֲסוּרוֹת. סְתוּמוֹת, מֻתָּרוֹת. בִּשְׁעַת מִלְחָמָה, אֵלּוּ וָאֵלּוּ מֻתָּרוֹת, לְפִי שֶׁאֵין פְּנַאי לְנַסֵּךְ:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Avodá Zará 5:6
בַּלֶּשֶׁת שֶׁנִּכְנְסָה לָעִיר וְכוּ׳: בַּלֶּשֶׁת נִקְרָא הַחַיִל הַנִּכְנָס לָעִיר לִשְׁלֹל אוֹתָהּ, וְשׁוֹלְחִין יָד בְּמָמוֹן בְּנֵי אָדָם, וְתַרְגּוּם "וַיְחַפֵּשׂ" — "וּבְלַשׁ", וּלְפִיכָךְ נִקְרְאוּ בַּלֶּשֶׁת לְפִי שֶׁהֵם מְחַפְּשִׂין מָמוֹן בְּנֵי אָדָם וְחוֹקְרִין אוֹתוֹ.

Rambam explica que "balleshet" designa a tropa que invade a cidade para saqueá-la, atacando os bens de seus habitantes — o termo deriva da mesma raiz usada no Targum para traduzir "vasculhar" (vaychapes), pois esses soldados vasculham e investigam os bens alheios em busca de despojo.

Bartenura · Avodá Zará 5:6
בַּלֶּשֶׁת. חַיִל שֶׁמְּחַפְּשִׂין וְחוֹתְרִין הַבָּתִּים. תַּרְגּוּם וַיְחַפֵּשׂ, וּבָלַשׁ.

Bartenura, de forma sucinta, confirma a mesma explicação de Rambam: balleshet é a tropa que vasculha e invade as casas em busca de saque, associando o termo à raiz aramaica usada para traduzir "vasculhar".

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Talmud Bavli, Avodá Zará 70b–71a (Guemará sobre esta mishná)
מַתְנִי׳ בּוֹלֶשֶׁת - חַיִל, עַל שֵׁם שֶׁמְּחַפְּשִׂין וְחוֹתְרִין קְרֵי לְהוּ בּוֹלֶשֶׁת, כִּדְמְתַרְגְּמִינַן וַיְחַפֵּשׂ וּבְלַשׁ: כׇּל כֹּהֲנוֹת - הַנִּמְצָאוֹת בְּתוֹכָהּ פְּסוּלוֹת לְבַעֲלֵיהֶן, דְּאֵשֶׁת כֹּהֵן אֲסוּרָה אַף בְּאֹנֶס, אֲבָל אֵשֶׁת יִשְׂרָאֵל לֹא. הָא הָכָא דִּשְׁעַת מִלְחָמָה הִיא וְקָתָנֵי אֲסוּרוֹת, דְּיֵשׁ פְּנַאי לִבְעֹל: לְנַסֵּךְ אֵין פְּנַאי - דְּיֵצֶר הַנִּסּוּךְ לֹא תָּקֵיף לְהוּ וּטְרוּדִין בַּמִּלְחָמָה: לִבְעֹל יֵשׁ פְּנַאי - דְּתָקֵיף לְהוּ יִצְרַיְיהוּ:

Rashi confirma a etimologia de "balleshet" como a tropa que vasculha em busca de saque. A Guemará compara este princípio com outra baraita: que em tempo de guerra, toda mulher de sacerdote encontrada na cidade invadida fica proibida a seu marido, por presunção de violação, mesmo sob coação — pois há tempo disponível para o ato. Rashi explica a aparente contradição: o desejo de libar vinho para a idolatria não é forte o suficiente para superar a distração e a urgência da guerra, e por isso, quanto ao vinho, não há tempo disponível para libá-lo; mas o desejo relativo à transgressão sexual é mais forte, e por isso, quanto a esse ato, considera-se que há tempo disponível mesmo em meio ao combate. A distinção revela como a lei avalia a força relativa de diferentes impulsos ao aplicar a presunção de oportunidade.