Seder Nezikin · Massechet Avodá Zará · Perek Dalet · Mishná 12 de 12

O caso de Beit Shéan; encerramento do Perek Dalet

זֶה הָיָה מַעֲשֶׂה בְּבֵית שְׁאָן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Mishná final do Perek Dalet: encerra o tema com o caso em que o gentio reconhece por escrito ter recebido o pagamento, e com o precedente ocorrido em Beit Shean, em que a existência de uma dívida sobre o próprio vinho levou os sábios a proibi-lo.

Quem purifica o vinho de um gentio e o deixa em seu domínio, e aquele lhe escreve: "recebi de ti o dinheiro" — é permitido. Mas se o israelita quiser retirá-lo e ele não o deixa até que lhe dê o seu dinheiro — este foi um precedente em Beit Shean, e os sábios proibiram.

הַמְּטַהֵר יֵינוֹ שֶׁל נָכְרִי וְנוֹתְנוֹ בִרְשׁוּתוֹ, וְהַלָּה כוֹתֵב לוֹ, הִתְקַבַּלְתִּי מִמְּךָ מָעוֹת, מֻתָּר. אֲבָל אִם יִרְצֶה יִשְׂרָאֵל לְהוֹצִיאוֹ וְאֵינוֹ מַנִּיחוֹ עַד שֶׁיִּתֵּן לוֹ אֶת מְעוֹתָיו, זֶה הָיָה מַעֲשֶׂה בְבֵית שְׁאָן, וְאָסְרוּ חֲכָמִים:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Avodá Zará 4:12
הַמְטַהֵר יֵינוֹ שֶׁל עוֹבֵד כּוֹכָבִים וְכוּ׳: וְאַף עַל פִּי שֶׁמַּפְתֵּחַ וְחוֹתָם בְּיַד יִשְׂרָאֵל, כֵּיוָן שֶׁאֵין הָרְשׁוּת כֻּלּוֹ שֶׁלּוֹ, אָסְרוּ חֲכָמִים, לְפִי שֶׁיִּשְׁתַּמֵּשׁ בּוֹ וְיַעֲשֶׂה אוֹתוֹ יֵין נֶסֶךְ.

Rambam explica que, mesmo com a chave e o selo em mãos do israelita, já que existe uma dívida pendente sobre o próprio vinho — de modo que o domínio sobre ele não é inteiramente do israelita — os sábios proibiram o vinho, por temerem que o gentio venha a manuseá-lo e transformá-lo em vinho de libação.

Bartenura · Avodá Zará 4:12
וְהַלָּה כוֹתֵב לוֹ הִתְקַבַּלְתִּי מִמְּךָ מָעוֹת מֻתָּר. אִם הַבַּיִת פָּתוּחַ לִרְשׁוּת הָרַבִּים וְיִשְׂרְאֵלִים דָּרִים בְּאוֹתָהּ הָעִיר, כִּדְאָמְרִינַן לְעֵיל: אֲבָל אִם יִרְצֶה וְכוּ׳. דְּהַשְׁתָּא הָוֵי הַיַּיִן מַשְׁכּוֹן אֵצֶל הַנָּכְרִי, הוֹאִיל וְיֵשׁ לוֹ מִלְוָה עַל הַיַּיִן, אָסוּר, דְּלֹא מִרְתַּת, דְּסָבַר אִי חָזוּ לִי וְתָבְעוּ לִי, אֲמֵינָא דִּידִי הוּא. וְאַף עַל פִּי שֶׁמַּפְתֵּחַ וְחוֹתָם בְּיַד יִשְׂרָאֵל, אָסוּר.

Bartenura explica que "aquele lhe escreve: recebi de ti o dinheiro" torna o vinho permitido, desde que a casa esteja aberta ao domínio público e israelitas habitem naquela cidade, como já explicado. "Mas se o israelita quiser retirá-lo" e o gentio não o permite até receber o pagamento — nesse caso o vinho passa a funcionar como penhor em poder do gentio, que, tendo um empréstimo pendente sobre o próprio vinho, já não teme tocá-lo: raciocina que, se for visto e cobrado, dirá simplesmente que o vinho é seu. Por isso é proibido, mesmo que a chave e o selo estejam em mãos do israelita.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Talmud Bavli, Avodá Zará 61a–61b (Guemará sobre esta mishná, encerramento do Perek Dalet)
הַמְטַהֵר יֵינוֹ שֶׁל עוֹבֵד כּוֹכָבִים כוּ׳ מֻתָּר — אִם בַּיִת פָּתוּחַ לִרְשׁוּת הָרַבִּים כִּדְפָרֵישִׁית לְעֵיל: אֲבָל אִם רוֹצֶה כוּ׳ — שֶׁהַיַּיִן נַעֲשֶׂה לוֹ מַשְׁכּוֹן, הוֹאִיל וְיֵשׁ לוֹ מִלְוָה עַל הַיַּיִן, אָסוּר, דְּלֹא מִרְתַּת, דְּסָבַר אִי חָזוּ לִי וְתָבְעוּ לִי, אֲמֵינָא דִּידִי הוּא: הַדְּרָן עֲלָךְ רַבִּי יִשְׁמָעֵאל:

Ao fechar o capítulo, Rashi confirma que "quem purifica o vinho do gentio... é permitido" desde que a casa esteja aberta ao domínio público, como já explicado nas mishnayot anteriores. "Mas se ele quiser retirá-lo" e o gentio não deixa até ser pago — nesse caso o vinho torna-se um penhor em poder do gentio: tendo um empréstimo pendente sobre o próprio vinho, ele já não teme tocá-lo, pois raciocina que, se for visto e cobrado, dirá que o vinho é seu. Com esta explicação, Rashi encerra a Guemará do capítulo, conhecido por suas palavras iniciais como "Perek Rabi Yishmael" — fechando a longa sequência de leis sobre a anulação de ídolos e o vinho de gentios que ocupou todo o Perek Dalet.