Seder Nezikin · Massechet Avodá Zará · Perek Hei · Mishná 1 de 12

O trabalhador contratado e o jumento alugado; início do Perek Hei

הַשּׂוֹכֵר אֶת הַפּוֹעֵל לַעֲשׂוֹת עִמּוֹ בְיֵין נֶסֶךְ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Mishná de abertura do Perek Hei, o último capítulo do tratado, dedicado às leis mais detalhadas do vinho de gentios (yayin nesech): quando o salário ou o aluguel pago por um gentio a um israelita torna-se ele próprio proibido, por estar ligado ao manuseio do vinho de libação.
Quem contrata o trabalhador para trabalhar com ele em vinho de libação — seu salário é proibido. Se o contratou para fazer com ele outro trabalho, ainda que lhe tenha dito: 'transporta para mim um barril de vinho de libação de um lugar para outro' — seu salário é permitido. Quem aluga o jumento para trazer sobre ele vinho de libação — seu aluguel é proibido. Se o alugou para sentar sobre ele, ainda que o gentio tenha colocado sobre ele o seu odre — seu aluguel é permitido.
הַשּׂוֹכֵר אֶת הַפּוֹעֵל לַעֲשׂוֹת עִמּוֹ בְיֵין נֶסֶךְ, שְׂכָרוֹ אָסוּר. שְׂכָרוֹ לַעֲשׂוֹת עִמּוֹ מְלָאכָה אַחֶרֶת, אַף עַל פִּי שֶׁאָמַר לוֹ הַעֲבֵר לִי חָבִית שֶׁל יֵין נֶסֶךְ מִמָּקוֹם לְמָקוֹם, שְׂכָרוֹ מֻתָּר. הַשּׂוֹכֵר אֶת הַחֲמוֹר לְהָבִיא עָלֶיהָ יֵין נֶסֶךְ, שְׂכָרָהּ אָסוּר. שְׂכָרָהּ לֵישֵׁב עָלֶיהָ, אַף עַל פִּי שֶׁהִנִּיחַ הַגּוֹי לְגִינוֹ עָלֶיהָ, שְׂכָרָהּ מֻתָּר:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Avodá Zará 5:1
הַשּׂוֹכֵר אֶת הַפּוֹעֵל וְכוּ׳: [אָמְרוּ קְנָס הוּא שֶׁקָּנְסוּ חֲכָמִים בְּיֵין נֶסֶךְ] וּמִן הַיָּדוּעַ בָּרוֹב שֶׁהַשּׂוֹכֵר בְּהֵמָה לִרְכֹּב בּוֹ יִתֵּן עָלֶיהָ צֵדָה לְדַרְכּוֹ, וְסַלְקָא דַּעְתָּךְ שֶׁהוּא כְּאִלּוּ שְׂכָרוֹ מִמֶּנּוּ לִרְכֹּב בּוֹ וְלָשֵׂאת יֵין נֶסֶךְ וְיִהְיֶה שְׂכָרוֹ אָסוּר. הוֹדִיעָנוּ שֶׁאֵין הַדָּבָר כֵּן, אֶלָּא שְׂכָרָהּ מֻתָּר, כֵּיוָן שֶׁלֹּא נִתְבָּאֵר בּוֹ לָשֵׂאת יֵין נֶסֶךְ.

Rambam explica que a proibição do salário é uma pena imposta pelos sábios sobre quem trabalha lidando diretamente com vinho de libação. E, como é sabido, quem aluga um animal para montá-lo costuma levar sobre ele também suas provisões de viagem — por isso se poderia pensar que alugá-lo para montar equivale a alugá-lo também para carregar vinho de libação, tornando o aluguel proibido. Rambam esclarece que não é assim: o aluguel é permitido, pois não ficou estipulado que o animal serviria para carregar o vinho de libação.

Bartenura · Avodá Zará 5:1
הַשּׂוֹכֵר אֶת הַפּוֹעֵל לַעֲשׂוֹת עִמּוֹ בְיֵין נֶסֶךְ. לַהֲרִיקוֹ מִכְּלִי אֶל כְּלִי, אוֹ לְהוֹלִיךְ חָבִיּוֹת מִמָּקוֹם לְמָקוֹם, וַאֲפִלּוּ בִסְתָם יֵינָם: שְׂכָרוֹ אָסוּר. קְנָס הוּא שֶׁקָּנְסוּ חֲכָמִים בְּיֵין נֶסֶךְ וּבִסְתָם יֵינָם: שְׂכָרוֹ מֻתָּר. וּכְגוֹן שֶׁאָמַר לוֹ הַעֲבֵר לִי כָּל חָבִית וְחָבִית בִּפְרוּטָה. אֲבָל אִם אָמַר לוֹ הַעֲבֵר לִי מֵאָה חָבִיּוֹת בְּמֵאָה פְרוּטוֹת, וְנִמְצֵאת חָבִית שֶׁל יֵין נֶסֶךְ בֵּינֵיהֶם, שְׂכָרוֹ אָסוּר.

Bartenura explica que "trabalhar com ele em vinho de libação" significa derramá-lo de um vaso a outro, ou transportar barris de um lugar para outro — e isso vale até mesmo para o vinho comum de gentios, não apenas o já efetivamente libado a um ídolo. "Seu salário é proibido" porque essa é uma pena imposta pelos sábios em ambos os casos. "Seu salário é permitido" refere-se a quando o gentio disse ao trabalhador "transporta para mim cada barril por uma pruta" — pagamento por peça, e não pelo conjunto; mas se disse "transporta para mim cem barris por cem prutot", como pagamento único pelo lote, e entre eles se encontra um barril de vinho de libação, todo o salário fica proibido, pois o pagamento não se distingue barril por barril.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Talmud Bavli, Avodá Zará 62a (Guemará sobre esta mishná, abertura do Perek Hei)
מַתְנִי׳ הַשּׂוֹכֵר - עוֹבֵד כּוֹכָבִים שֶׁשָּׂכַר אֶת יִשְׂרָאֵל לַעֲשׂוֹת עִמּוֹ מְלָאכָה בְּיֵין נֶסֶךְ לְהָרִיקוֹ מִכְּלִי אֶל כְּלִי אוֹ לְהַעֲבִיר חָבִית מִמָּקוֹם לְמָקוֹם. וּבְיֵין נֶסֶךְ מַמָּשׁ קָאָמַר שֶׁנִּתְנַסֵּךְ לַעֲבוֹדַת כּוֹכָבִים, וּסְתָם יֵינָן מִיבַּעְיָא לָן בַּגְּמָרָא: שְׂכָרוֹ לַעֲשׂוֹת עִמּוֹ מְלָאכָה אַחֶרֶת - כָּל שְׂכָרוֹ מֻתָּר, דְּאַף עַל גַּב דְּאַגְרָא דְּיָהִיב לֹא מִשּׁוּם מְלָאכָה אַחֶרֶת הִיא. וּבַגְּמָרָא מְפָרֵשׁ לָהּ שַׁפִּיר:

Rashi explica que "quem contrata" refere-se a um gentio que contratou um israelita para fazer com ele um trabalho ligado ao vinho de libação — derramá-lo de um vaso a outro, ou transportar um barril de um lugar a outro. E a mishná fala de vinho de libação propriamente dito, já efetivamente derramado para a idolatria; quanto ao vinho comum dos gentios (não conhecido como libado), a Guemará ainda levanta a questão. Sobre "se o contratou para fazer com ele outro trabalho", Rashi nota que todo o salário é permitido, pois, ainda que o pagamento seja dado, ele não decorre do trabalho com o vinho, mas do outro trabalho — e a Guemará desenvolve bem esse ponto na sequência da sugya, discutindo por que a pena rabínica não se estende a esse caso, e comparando-a com a lei de quem contrata um trabalhador para colher verduras no ano da shemitá com uma moeda que fica presa à santidade do sétimo ano.