Seder Nezikin · Massechet Avodá Zará · Perek Guimel · Mishná 10 de 10

Como se anula a ashera; encerramento do Perek Guimel

כֵּיצַד מְבַטְּלָהּ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Mishná final do Perek Guimel: fecha o tratamento da ashera explicando o mecanismo prático pelo qual um gentio anula seu status idólatra — através de qualquer ato de uso que demonstre que a árvore já não é tratada como objeto de culto — e distingue esse ato do simples embelezamento da árvore, que não a anula.

Como se anula [a ashera]? Se [o gentio] cortou galhos secos, ou podou ramos verdes, tomou dela um bastão ou uma vara, até mesmo uma folha — eis que está anulada. Se a raspou para o seu próprio proveito, permanece proibida. Se não para o seu próprio proveito, é permitida.

כֵּיצַד מְבַטְּלָהּ. קִרְסֵם, וְזֵרַד, נָטַל מִמֶּנָּה מַקֵּל אוֹ שַׁרְבִיט, אֲפִלּוּ עָלֶה, הֲרֵי זוֹ בְטֵלָה. שְׁפָיָהּ לְצָרְכָּהּ, אֲסוּרָה. שֶׁלֹּא לְצָרְכָּהּ, מֻתֶּרֶת:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Avodá Zará 3:10
כֵּיצַד מְבַטְּלָהּ, קִרְסֵם וְכוּ׳: קִרְסוּם הוּא כְּרִיתַת רָאשֵׁי הָעֲנָפִים, וְזֵרוּד כְּרִיתַת הָעֲנָפִים, שְׁפָיָה גְּרִירָתָם, וְכָל זֶה כְּשֶׁיַּעֲשֶׂה אוֹתוֹ הָעוֹבֵד כּוֹכָבִים, לְפִי שֶׁהָעִקָּר אֶצְלֵנוּ שֶׁלֹּא יְבַטֵּל עֲבוֹדַת כּוֹכָבִים אֶלָּא עוֹבֵד כּוֹכָבִים שֶׁיּוֹדֵעַ בְּטִיב עֲבוֹדַת כּוֹכָבִים וּמְשַׁמְּשֶׁיהָ, וְכָךְ אָמְרוּ: דְּפָלַח מְבַטֵּל וּדְלֹא פָלַח לֹא מְבַטֵּל, לְפִיכָךְ אָמְרוּ בְּטִיב עֲבוֹדַת כּוֹכָבִים שֶׁלֹּא יִהְיֶה נַעַר קָטָן אוֹ מְקֻלְקָל הַדַּעַת.

Rambam define os três termos técnicos da mishná: "cortou galhos secos" (kirsum) refere-se ao corte das pontas dos ramos; "podou" (zerud) ao corte de ramos inteiros; e "raspou" (shefaya) ao ato de lixar ou raspar sua superfície. Explica que todos esses atos só têm efeito de anulação quando praticados pelo próprio gentio, pois o princípio fundamental é que somente um gentio que compreenda verdadeiramente a natureza daquele culto e de seus acessórios pode anulá-lo — segundo a máxima "quem o adora pode anulá-lo, quem não o adora não pode anulá-lo". Por isso, especificam os sábios, é necessário que não se trate de uma criança ou de alguém mentalmente incapaz.

Bartenura · Avodá Zará 3:10
כֵּיצַד מְבַטְּלָהּ. נָכְרִי לָאֲשֵׁרָה: קִרְסֵם. קֵסָמִים יְבֵשִׁים שֶׁבָּאִילָן נְטָלָן לְצָרְכּוֹ לִשְׂרֹף: וְזֵרַד. כָּרַת עֲנָפִים לַחִים שֶׁבָּהּ: שְׁפָיָהּ. תַּרְגּוּם וָאֶכֹּת אֹתוֹ טָחוֹן, וְשָׁפִית יָתֵיהּ: לְצָרְכָּהּ. כְּדֵי לְיַפּוֹתָהּ. וְאֵין מְבַטֵּל עֲבוֹדָה זָרָה אֶלָּא נָכְרִי גָדוֹל וּבֶן דַּעַת שֶׁיֵּדַע בְּטִיב עֲבוֹדָה זָרָה וּמְשַׁמְּשֶׁיהָ. וַאֲפִלּוּ אִם בִּטְּלָהּ בְּעַל כָּרְחוֹ הֲרֵי זוֹ מְבֻטֶּלֶת.

Bartenura confirma que a anulação exige um gentio a agir sobre sua própria ashera. Explica "kirsum" como os graveto secos da árvore, tomados para uso pessoal como lenha; "zered" como o corte de ramos ainda verdes; e traduz "shefaya" pelo mesmo termo empregado no Targum para o ato de moer ou raspar finamente. "Para o seu proveito" significa especificamente com o propósito de embelezar a árvore. Reafirma que somente um gentio adulto e mentalmente são, que conheça a natureza daquele culto e de seus acessórios, pode efetivar a anulação — e que, mesmo que ele o faça contra sua própria vontade, a anulação continua válida.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Talmud Bavli, Avodá Zará 49b (Guemará sobre esta mishná, encerramento do Perek Guimel)
מַתְנִי׳ כֵּיצַד מְבַטְּלָהּ — לָאֲשֵׁרָה: קִרְסֵם — קִיסָמִין יְבֵשִׁין שֶׁבָּאִילָן נָטַל לְצָרְכּוֹ לִשְׂרֹף: זֵרַד — זֵרוּדִין לַחִין שֶׁבָּהּ: לְצָרְכָּהּ — לְיַפּוֹתָהּ: גְּמָ׳ אוֹתָן שְׁפָאִים — שֶׁשִּׁפָּה לְצָרְכָּהּ וְלֹא בָטְלָה, מַה תְּהֵא עֲלֵיהֶן.

Ao fechar o capítulo, Rashi confirma os mesmos termos técnicos do gentio agindo sobre sua própria ashera: os gravetos secos tomados para queimar, os ramos verdes cortados, e a raspagem feita para embelezá-la — que, precisamente por buscar valorizar o objeto de culto, não o anula. A Guemará então discute o status das próprias aparas removidas nesse processo de raspagem sem efeito de anulação, encerrando a sequência de casos sobre a ashera que ocupou toda a segunda metade do Perek Guimel.