Seder Nezikin · Massechet Avodá Zará · Perek Guimel · Mishná 8 de 10

Não se deve sentar à sua sombra nem passar debaixo dela

לֹא יֵשֵׁב בְּצִלָּהּ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Oitava mishná: continua o tratamento da ashera, agora quanto às restrições práticas de uso — sentar-se à sua sombra, passar debaixo dela e plantar sob seus galhos conforme a estação do ano —, com a opinião mais restritiva de Rabi Yossei quanto à folhagem caída.

Não se deve sentar à sua sombra; e se sentou, está puro. E não se deve passar debaixo dela; e se passou, está impuro. Se estava tomando [espaço] do público, e alguém passou debaixo dela, está puro. E semeiam-se debaixo dela verduras na estação das chuvas, mas não na estação do calor. E as alfaces, nem na estação do calor nem na estação das chuvas. Rabi Yossei diz: nem mesmo verduras na estação das chuvas, porque a folhagem cai sobre elas e se torna para elas adubo.

לֹא יֵשֵׁב בְּצִלָּהּ. וְאִם יָשַׁב, טָהוֹר. וְלֹא יַעֲבֹר תַּחְתֶּיהָ. וְאִם עָבַר, טָמֵא. הָיְתָה גוֹזֶלֶת אֶת הָרַבִּים, וְעָבַר תַּחְתֶּיהָ, טָהוֹר. וְזוֹרְעִין תַּחְתֶּיהָ יְרָקוֹת בִּימוֹת הַגְּשָׁמִים אֲבָל לֹא בִימוֹת הַחַמָּה. וְהַחֲזָרִין, לֹא בִימוֹת הַחַמָּה וְלֹא בִימוֹת הַגְּשָׁמִים. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, אַף לֹא יְרָקוֹת בִּימוֹת הַגְּשָׁמִים, מִפְּנֵי שֶׁהַנְּמִיָּה נוֹשֶׁרֶת עֲלֵיהֶן וְהֹוָה לָהֶן לְזָבֶל:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Avodá Zará 3:8
לֹא יֵשֵׁב בְּצִלָּהּ וְכוּ׳: לֹא יֵשֵׁב בְּצִלָּהּ, בְּצֵל גּוּף הָאִילָן, אֲבָל בְּצֵל עֲנָפֶיהָ וְעָלֶיהָ מֻתָּר לוֹ לֵישֵׁב שָׁם. וְזֶה שֶׁאָמַרְנוּ אִם עָבַר טָמֵא, לְפִי שֶׁיֵּשׁ לוֹמַר אִי אֶפְשָׁר שֶׁאֵין שָׁם מִתְּקָרְבוֹת עֲבוֹדַת כּוֹכָבִים... וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה בֶּן בְּתֵירָא... וּכְבָר קָדַם לְךָ דַּעַת רַבִּי יוֹסֵי בָּזֶה הַפֶּרֶק שֶׁאֵין לָחוּשׁ שֶׁתַּחֲזִיר עֲבוֹדַת כּוֹכָבִים וּמְשַׁמְּשֶׁיהָ זֶבֶל... וּפָסַק הַהֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹסֵי דְּזֶה וָזֶה גּוֹרֵם מֻתָּר.

Rambam esclarece que "não se deve sentar à sua sombra" refere-se à sombra do próprio tronco da árvore; já a sombra dos galhos e da folhagem é permitida para se sentar. A regra de que "se passou está impuro" se justifica pela presunção de que ali há oferendas depositadas para a idolatria. Sobre o debate acerca do plantio, explica que a posição de Rabi Yossei aqui parece contradizer sua própria opinião anterior no capítulo — de que quando um efeito é causado tanto por um fator permitido quanto por um proibido (zeh vazeh gorem), o resultado é permitido —, mas a halachá segue Rabi Yossei nesse princípio geral, sendo o caso da folhagem tratado como exceção explicada na Guemará.

Bartenura · Avodá Zará 3:8
לֹא יֵשֵׁב בְּצִלָּהּ. הַאי צֵל לָאו תַּחַת נוֹף הָאֲשֵׁרָה קָאָמַר, דְּלֹא הָוֵי מָצֵי לְמִתְנֵי תּוּ וְאִם יָשַׁב טָהוֹר... אֶלָּא מִן הָאִילָן וָהָלְאָה, דִּכְשֶׁהַחַמָּה בַמִּזְרָח אוֹ בַמַּעֲרָב יֵשׁ לְכָל דָּבָר צֵל אָרֹךְ: הָיְתָה גוֹזֶלֶת אֶת הָרַבִּים. שֶׁנּוֹפָהּ נוֹטֶה לִרְשׁוּת הָרַבִּים: טָהוֹר. דְּטֻמְאָה דְרַבָּנָן הִיא, וְהֵיכָא דְגוֹזֶלֶת הָרַבִּים לֹא גָזְרוּ רַבָּנָן... וַהֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹסֵי דְּזֶה וָזֶה גוֹרֵם מֻתָּר.

Bartenura explica que a sombra proibida para sentar-se não é a que fica diretamente sob a copa da árvore — pois, se fosse assim, a própria mishná não poderia depois ensinar "e se sentou, está puro" —, mas sim a sombra longa que a árvore projeta além de si mesma, ao nascer ou ao pôr do sol. Sobre a árvore cujos galhos invadem o domínio público, esclarece que quem passa por baixo permanece puro porque a impureza da idolatria é de origem rabínica, e os sábios não a decretaram nos casos em que prejudicaria o uso do espaço público. Confirma, por fim, que a halachá segue Rabi Yossei quanto ao princípio de que um efeito com causa mista — permitida e proibida — é permitido.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Talmud Bavli, Avodá Zará 48b (Guemará sobre esta mishná)
מַתְנִי׳ לֹא יֵשֵׁב בְּצִלָּהּ — הַאי צֵל לָאו תַּחַת נוֹף הָאִילָן הוּא, דְּאִם כֵּן לֹא מַתְנֵי לֵיהּ וְאִם יָשַׁב טָהוֹר... מַתְנִי׳ זוֹרְעִין תַּחְתֶּיהָ יְרָקוֹת בִּימוֹת הַגְּשָׁמִים — שֶׁהָאִילָן גַּם הוּא קָשֶׁה לָהֶם שֶׁמְּעַכֵּב הַחַמָּה מִלָּבֹא: אֲבָל לֹא בִּימוֹת הַחַמָּה — שֶׁהַצֵּל יָפֶה לָהֶם.

Rashi confirma que a sombra proibida para sentar-se não é a que se projeta diretamente sob a copa da árvore — pois, do contrário, a mishná não poderia ensinar em seguida que "se sentou, está puro". Sobre o plantio de verduras na estação das chuvas, explica que nessa época a própria árvore prejudica a plantação ao impedir que o sol a alcance, sendo por isso permitido plantar ali; já no verão, a sombra é benéfica às plantas, tornando o plantio proibido.