Seder Nezikin · Massechet Avodá Zará · Perek Guimel · Mishná 4 de 10

Proclus pergunta a Rabban Gamliel sobre os banhos de Afrodite

שָׁאַל פְּרוֹקְלוֹס בֶּן פִלוֹסְפוֹס
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Quarta mishná: episódio narrativo em que o filósofo Proclus questiona Rabban Gamliel sobre banhar-se numa casa de banhos que contém uma estátua de Afrodite; a resposta de Rabban Gamliel estabelece o princípio halachico central do capítulo — a proibição de idolatria aplica-se ao que é tratado como divindade, não a tudo que porta sua imagem.

Perguntou Proclus, filho de Filósofo, a Rabban Gamliel em Acre, quando este se banhava na casa de banhos de Afrodite: disse-lhe: está escrito em vossa Torá, e nada da coisa consagrada à destruição se apegará à tua mão — por que razão te banhas na casa de banhos de Afrodite? Disse-lhe: não se responde na casa de banhos. E quando saiu, disse-lhe: eu não entrei em seu domínio; ela entrou no meu domínio. Não se diz: "façamos a casa de banhos um ornamento para Afrodite", mas se diz: "façamos Afrodite um ornamento para a casa de banhos". Outra explicação: ainda que te dessem muito dinheiro, não entrarias diante de tua própria estátua de culto nu, ou em estado de impureza seminal, ou urinando diante dela; e esta está situada junto à boca do esgoto, e todo o povo urina diante dela. Não se disse senão "seus deuses" — aquilo que é tratado como divindade é proibido, e aquilo que não é tratado como divindade é permitido.

שָׁאַל פְּרוֹקְלוֹס בֶּן פִלוֹסְפוֹס אֶת רַבָּן גַּמְלִיאֵל בְּעַכּוֹ, שֶׁהָיָה רוֹחֵץ בַּמֶּרְחָץ שֶׁל אַפְרוֹדִיטִי, אָמַר לוֹ, כָּתוּב בְּתוֹרַתְכֶם, וְלֹא יִדְבַּק בְּיָדְךָ מְאוּמָה מִן הַחֵרֶם. מִפְּנֵי מָה אַתָּה רוֹחֵץ בַּמֶּרְחָץ שֶׁל אַפְרוֹדִיטִי. אָמַר לוֹ, אֵין מְשִׁיבִין בַּמֶּרְחָץ. וּכְשֶׁיָּצָא אָמַר לוֹ, אֲנִי לֹא בָאתִי בִגְבוּלָהּ, הִיא בָאתָה בִגְבוּלִי, אֵין אוֹמְרִים, נַעֲשֶׂה מֶרְחָץ לְאַפְרוֹדִיטִי נוֹי, אֶלָּא אוֹמְרִים, נַעֲשֶׂה אַפְרוֹדִיטִי נוֹי לַמֶּרְחָץ. דָּבָר אַחֵר, אִם נוֹתְנִין לְךָ מָמוֹן הַרְבֵּה, אִי אַתָּה נִכְנָס לַעֲבוֹדָה זָרָה שֶׁלְּךָ עָרוֹם וּבַעַל קֶרִי וּמַשְׁתִּין בְּפָנֶיהָ, וְזוֹ עוֹמֶדֶת עַל פִּי הַבִּיב וְכָל הָעָם מַשְׁתִּינִין לְפָנֶיהָ. לֹא נֶאֱמַר אֶלָּא אֱלֹהֵיהֶם. אֶת שֶׁנּוֹהֵג בּוֹ מִשּׁוּם אֱלוֹהַּ, אָסוּר. וְאֶת שֶׁאֵינוֹ נוֹהֵג בּוֹ מִשּׁוּם אֱלוֹהַּ, מֻתָּר:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Avodá Zará 3:4
שָׁאַל פְּרוֹקְלוֹס וְכוּ׳: אַפְרוֹדִיטִי שֵׁם הַכּוֹכָב הַנִּקְרָא נֹגַהּ... וְהָיָה בְּאוֹתוֹ הַמֶּרְחָץ צוּרַת נֹגַהּ: וְזֶה שֶׁאָמַר לוֹ אֵין מְשִׁיבִין בַּמֶּרְחָץ, אָמְנָם אָמַר לוֹ זֶה אַחַר צֵאתוֹ מִן הַמֶּרְחָץ וְהִתְנַצֵּל לוֹ, לְפִי שֶׁשָּׁתַק וְלֹא הֵשִׁיב לוֹ עַל שְׁאֵלָתוֹ, וְאָמַר לוֹ מַה שֶּׁמְּנָעַנִי מִלְּהָשִׁיבְךָ דָּבָר, לְפִי שֶׁאֵין מְשִׁיבִין בְּבֵית הַמֶּרְחָץ.

Rambam identifica Afrodite como o nome do planeta conhecido em hebraico como Nogah (Vênus), e observa que havia naquela casa de banhos uma imagem associada a esse astro. Esclarece que a resposta "não se responde na casa de banhos" foi na verdade dada por Rabban Gamliel somente depois de já ter saído do recinto — servindo como uma espécie de desculpa por seu silêncio inicial diante da pergunta, explicando então que o motivo de não ter respondido de imediato era justamente essa norma de não se discutir questões de Torá dentro da casa de banhos.

Bartenura · Avodá Zará 3:4
אַפְרוֹדִיטִי. צוּרַת כּוֹכָב נֹגַהּ, כָּךְ פֵּרֵשׁ הָרַמְבַּ״ם: אֵין מְשִׁיבִין. דְּבַר תּוֹרָה בַּמֶּרְחָץ, לְפִי שֶׁאָדָם עוֹמֵד שָׁם עָרֹם: הִיא בָאתָה בִּגְבוּלִי. שֶׁהַמֶּרְחָץ קָדַם לָהּ, וְהַמֶּרְחָץ נַעֲשָׂה לְכָל הַבָּא לִרְחֹץ... אֶלָּא נַעֲשָׂה אַפְרוֹדִיטִי נוֹי לַמֶּרְחָץ, שֶׁאַפְרוֹדִיטִי מְשַׁמֵּשׁ לַמֶּרְחָץ, הוּא טָפֵל וְהִיא עִקָּר: בִּיב. חָרִיץ עָשׂוּי בַּקַּרְקַע לְהוֹצִיא שׁוֹפְכִים לִרְשׁוּת הָרַבִּים.

Bartenura confirma, seguindo Rambam, que Afrodite corresponde à imagem associada ao planeta Vênus. Explica que "não se responde" refere-se a assuntos de Torá na casa de banhos, pois ali as pessoas permanecem desnudas. Sobre "ela entrou no meu domínio", esclarece que a casa de banhos precedeu a estátua e foi construída para servir a todo aquele que vem banhar-se; por isso não se diz que a casa de banhos foi feita como ornamento para Afrodite, mas o contrário — Afrodite serve à casa de banhos, sendo ela o elemento secundário e a casa de banhos o elemento principal. Por fim, identifica o "esgoto" (biv) como a vala aberta no chão para escoar os dejetos rumo ao domínio público.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Talmud Bavli, Avodá Zará 44b (Guemará sobre esta mishná)
מַתְנִי׳ פְּרוֹקְלוֹס — מִין עוֹבֵד כּוֹכָבִים הָיָה: אַפְרוֹדִיטִי — שֵׁם עֲבוֹדַת כּוֹכָבִים וְהַמֶּרְחָץ עוֹמֵד בַּחֲצֵרָהּ: אֵין מְשִׁיבִין — דִּבְרֵי תוֹרָה בַּמֶּרְחָץ, לְפִי שֶׁאָדָם עוֹמֵד עָרוֹם: הִיא בָאָה בִגְבוּלִי — שֶׁהַמֶּרְחָץ קוֹדֵם לָהּ וְהַמֶּרְחָץ נַעֲשָׂה לְכָל הַבָּא לַמֶּרְחָץ... בִּיב — חָרִיץ הֶעָשׂוּי בַּקַּרְקַע לְהוֹצִיא שׁוֹפְכִים לִרְשׁוּת הָרַבִּים: לֹא נֶאֱמַר — בַּתּוֹרָה לְאִסּוּר אֶלָּא אֱלֹהֵיהֶם.

Rashi identifica Proclus como um erudito não-judeu, e Afrodite como o nome do culto ao qual pertencia a casa de banhos em cujo pátio o edifício se erguia. Explica que "não se responde" refere-se a questões de Torá dentro da casa de banhos, já que ali se está desnudo. Confirma que "ela entrou em meu domínio" significa que a casa de banhos já existia antes, servindo a todo aquele que vinha se banhar, e explica "esgoto" como a vala construída no solo para escoamento de dejetos ao domínio público. Por fim, observa que a Torá formula a proibição apenas em relação a "seus deuses" — ou seja, apenas àquilo que é efetivamente tratado como divindade.