Seder Nezikin · Massechet Avodá Zará · Perek Guimel · Mishná 5 de 10

Montes e colinas adorados pelos gentios

הַגּוֹיִם הָעוֹבְדִים אֶת הֶהָרִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Quinta mishná: estabelece que o que está fixo à terra — montes e colinas — não pode se tornar proibido por idolatria, mesmo quando adorado, enquanto o que se acrescenta sobre eles (ouro, prata) fica proibido; Rabi Yossei HaGelili traz o fundamento bíblico, e a mishná explica por que a ashera (árvore de culto) é exceção, concluindo com o critério prático de Rabi Akiva para identificar locais de idolatria.

Os gentios que adoram os montes e as colinas — estes são permitidos, mas o que está sobre eles é proibido, pois está dito: não cobiçarás a prata e o ouro que estão sobre eles, e não os tomarás. Rabi Yossei HaGelili diz: seus deuses sobre os montes — e não os montes são seus deuses; seus deuses sobre as colinas — e não as colinas são seus deuses. E por que razão a ashera é proibida? Porque nela há a marca da mão do homem, e tudo o que tem nela a marca das mãos do homem é proibido. Disse Rabi Akiva: eu explicarei e julgarei diante de vós: todo lugar em que encontrares um monte alto, uma colina elevada e uma árvore frondosa, sabe que ali há idolatria.

הַגּוֹיִם הָעוֹבְדִים אֶת הֶהָרִים וְאֶת הַגְּבָעוֹת, הֵן מֻתָּרִין וּמַה שֶּׁעֲלֵיהֶם אֲסוּרִים, שֶׁנֶּאֱמַר (דברים ז) לֹא תַחְמֹד כֶּסֶף וְזָהָב עֲלֵיהֶם וְלָקַחְתָּ. רַבִּי יוֹסֵי הַגְּלִילִי אוֹמֵר, (שם יב) אֱלֹהֵיהֶם עַל הֶהָרִים, וְלֹא הֶהָרִים אֱלֹהֵיהֶם. אֱלֹהֵיהֶם עַל הַגְּבָעוֹת, וְלֹא הַגְּבָעוֹת אֱלֹהֵיהֶם. וּמִפְּנֵי מָה אֲשֵׁרָה אֲסוּרָה, מִפְּנֵי שֶׁיֶּשׁ בָּהּ תְּפִיסַת יָד אָדָם, וְכֹל שֶׁיֶּשׁ בָּהּ תְּפִיסַת יְדֵי אָדָם אָסוּר. אָמַר רַבִּי עֲקִיבָא, אֲנִי אוֹבִין וְאָדוּן לְפָנֶיךָ. כָּל מָקוֹם שֶׁאַתָּה מוֹצֵא הַר גָּבוֹהַּ וְגִבְעָה נִשָּׂאָה וְעֵץ רַעֲנָן, דַּע שֶׁיֶּשׁ שָׁם עֲבוֹדָה זָרָה:

Fontes bíblicas · פרֺכִים

Devarim (Deuteronômio) 7:25
לֹא תַחְמֹד כֶּסֶף וְזָהָב עֲלֵיהֶם וְלָקַחְתָּ לָךְ
"Não cobiçarás a prata e o ouro que estão sobre eles [os ídolos], e não os tomarás para ti."
Devarim (Deuteronômio) 12:2
אַבֵּד תְּאַבְּדוּן אֶת כָּל הַמְּקֹמוֹת אֲשֶׁר עָבְדוּ שָׁם הַגּוֹיִם... עַל הֶהָרִים הָרָמִים וְעַל הַגְּבָעוֹת וְתַחַת כָּל עֵץ רַעֲנָן
"Destruireis totalmente todos os lugares onde os povos que haveis de expulsar serviram a seus deuses: sobre os montes altos, sobre as colinas, e debaixo de toda árvore frondosa."
A leitura de Rabi Yossei HaGelili se apoia na justaposição "seus deuses sobre os montes", entendendo que a partícula indica que o objeto de culto está sobre o monte, sem incluir o próprio monte na proibição — o mesmo raciocínio que, aplicado a "debaixo de toda árvore frondosa", levanta a questão sobre por que, ao contrário do monte, a árvore em si (a ashera) é proibida.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Avodá Zará 3:5
הָעוֹבְדֵי כּוֹכָבִים הָעוֹבְדִים וְכוּ׳: רַבִּי יוֹסֵי סָבַר שֶׁאִילָן שֶׁנְּטָעוֹ לְשֵׁם אִילָן וּלְבַסּוֹף עֲבָדוֹ אָסוּר, לְפִי שֶׁיֵּשׁ בּוֹ תְּפִיסַת יַד אָדָם, וַחֲכָמִים אוֹמְרִים כִּי כֵּיוָן שֶׁנְּטָעוֹ וְהוּא לֹא נִתְכַּוֵּן בּוֹ לְעָבְדוֹ כִּשְׁעַת נְטִיעָתוֹ, הוּא כְּמוֹ הַר וְגִבְעָה וַעֲבוֹדָתוֹ אַחַר כֵּן אֵינוֹ אוֹסֵר אוֹתוֹ, וְרַבִּי עֲקִיבָא הוֹדִיעָנוּ בְּעִיקָּר שֶׁנֶּחְקַר בּוֹ בִּשְׁבִיל מְקוֹמוֹת עֲבוֹדַת כּוֹכָבִים וְאֵינוֹ חוֹלֵק עִם אָדָם, וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹסֵי.

Rambam explica que Rabi Yossei entende que uma árvore plantada com propósito comum e apenas depois transformada em objeto de culto é proibida, precisamente por conter a marca da intervenção humana desde sua origem. Já os Sábios sustentam que, uma vez que ela não foi plantada com intenção de culto desde o princípio, ela se equipara a um monte ou colina — algo fixo ao solo — e a adoração posterior não a proíbe. Rabi Akiva, por sua vez, não discorda dos demais quanto ao princípio legal, mas apenas esclarece que o versículo serve para identificar, na prática, locais associados à idolatria. A halachá não segue Rabi Yossei.

Bartenura · Avodá Zará 3:5
הֵן מֻתָּרִין. הֶהָרִים עַצְמָן מֻתָּרִין לִזְרִיעָה וְלַחְצֹב מֵהֶן אֲבָנִים, דִּמְחֻבָּר לֹא מִתְּסַר: וּמִפְּנֵי מָה אֲשֵׁרָה אֲסוּרָה. כְּלוֹמַר... הָכִי נַמִּי תַּחַת כָּל עֵץ רַעֲנָן אֱלֹהֵיהֶם, וְלֹא עֵץ רַעֲנָן אֱלֹהֵיהֶם, וְלָמָה אָסְרָה תוֹרָה, דִּכְתִיב וַאֲשֵׁרֵיהֶם תְּגַדֵּעוּן: מִפְּנֵי שֶׁיֶּשׁ בָּהּ תְּפִיסַת יְדֵי אָדָם. שֶׁאָדָם נְטָעוֹ... אֲנִי אוֹבִין. אֲפָרֵשׁ: וְאָדוּן לְפָנֶיךָ. אַחֲרֵי שֶׁאֵין לָנוּ לִדְרֹשׁ מִעוּט מִתַּחַת כָּל עֵץ רַעֲנָן, יֵשׁ לוֹמַר שֶׁלֹּא נֶאֱמַר אֶלָּא לִמְסֹר לָהֶם סִימָנִים... אֲבָל עֵץ רַעֲנָן צִוָּה לָנוּ לְאַבֵּד, שֶׁנֶּאֱמַר וַאֲשֵׁרֵיהֶם תִּשְׂרְפוּן בָּאֵשׁ.

Bartenura confirma que os montes em si permanecem permitidos para plantio e extração de pedra, pois o que está ligado ao solo não se torna proibido. Explica a pergunta da mishná sobre a ashera notando que o mesmo raciocínio aplicado a "seus deuses sobre os montes" poderia, em princípio, excluir também a árvore de "debaixo de toda árvore frondosa" — mas a Torá explicitamente ordena "cortareis suas asherot" (Devarim 7), o que mostra que a árvore continua proibida; a razão, esclarece, é que ela contém a marca da intervenção humana, por ter sido plantada por mãos de homem. Por fim, explica a proposta de Rabi Akiva: como não se deve restringir o versículo apenas a um subconjunto de árvores, seu real propósito é fornecer sinais identificadores de locais de idolatria — a Torá manda destruir montes e colinas apenas no que se refere aos objetos sobre eles, mas ordena queimar as próprias árvores frondosas, conforme "queimareis suas asherot com fogo" (Devarim 12).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Talmud Bavli, Avodá Zará 45a (Guemará sobre esta mishná)
מַתְנִי׳ הֵן מֻתָּרִין — הֶהָרִים עַצְמָן מֻתָּרִין לַחְצֹב אֲבָנִים מֵהֶן וְלִזְרִיעָה, דִּמְחֻבָּר לֹא מִתְּסַר... מִפְּנֵי שֶׁיֵּשׁ בָּהֶן תְּפִיסַת יְדֵי אָדָם — שֶׁאָדָם נְטָעוֹ: אָמַר רַבִּי עֲקִיבָא אֲנִי אוֹבִין וְאָדוּן לְפָנֶיךָ — אֲפָרֵשׁ וְאָדוּן לְפָנֶיךָ, שֶׁאֵין לָנוּ לִדְרֹשׁ מִעוּטָא מִתַּחַת עֵץ רַעֲנָן.

Rashi confirma que os próprios montes permanecem permitidos para extração de pedras e para plantio, porque o que está ligado ao solo não se torna proibido por benefício. Sobre a ashera, repete que sua proibição decorre de conter a marca das mãos humanas, por ter sido plantada por um homem. E sobre a declaração de Rabi Akiva, esclarece que ele propõe explicar e demonstrar por que não se deve extrair do versículo uma restrição que excluiria a árvore frondosa da proibição, mas sim entendê-lo como fornecedor de sinais práticos para identificar onde a idolatria costumava ocorrer.