Seder Nezikin · Massechet Avodá Zará · Perek Bet · Mishná 3 de 7

Coisas de gentios proibidas com proibição de proveito

אֵלּוּ דְבָרִים שֶׁל גּוֹיִם אֲסוּרִין וְאִסּוּרָן אִסּוּר הֲנָאָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná passa dos temas de yichud e serviços profissionais para a primeira categoria de itens proibidos por proibição de proveito: vinho de gentios, vinagre que já foi vinho, cerâmica adrianiana e couros perfurados no coração — com a disputa de Rabán Shimon ben Gamliel sobre o formato do corte — além da regra sobre carne de casa de idolatria e sobre negociar com quem vai a festivais idólatras.

Estas são as coisas dos gentios proibidas, e sua proibição é proibição de proveito: o vinho; e o vinagre dos gentios que desde o início era vinho; e a cerâmica adrianiana; e os couros perfurados no coração. Rabán Shimon ben Gamliel diz: quando o rasgo dele é redondo, é proibido; alongado, é permitido. A carne que entra para a idolatria é permitida; e a que sai é proibida, porque é como oferendas aos mortos — palavras de Rabi Akiva. Os que vão a festa de idolatria — é proibido negociar com eles; e os que voltam, são permitidos.Esta mishná introduz uma categoria jurídica central para o restante do capítulo: itens "proibidos com proibição de proveito" (issur hanaá), ou seja, não apenas proibidos ao consumo, mas dos quais é vedado tirar qualquer benefício — vendê-los, usá-los como combustível, dá-los de presente. O primeiro item, o vinho de gentios, é o mais grave de todos e será o assunto central do Perek Hei; aqui a mishná já o inclui na lista, e estende a mesma severidade ao vinagre que originalmente era vinho — pois, tendo passado pelo processo de fermentação como vinho antes de azedar, presume-se que já foi objeto de libação idólatra antes de se transformar. A "cerâmica adrianiana" refere-se a um tipo de vasilha de barro não cozido, associada ao imperador Adriano, que, segundo a Guemará, era usada para transportar vinho de forma dissimulada — imersa em água, ela libera o vinho absorvido em suas paredes. Os "couros perfurados no coração" são peles de animais rasgadas ritualmente sobre a região do coração para retirar o órgão como oferenda idólatra; a esse respeito, Rabán Shimon ben Gamliel introduz um critério visual prático para distinguir o couro usado em culto idólatra do simples couro de açougue: se o corte ao redor do coração é redondo, denuncia intenção idólatra e o couro é proibido; se é alongado, como o corte comum de abate, é permitido. A mishná passa então à carne encontrada perto de um templo idólatra: a que está entrando é presumida ainda não oferecida, e portanto permitida; a que está saindo já foi, presume-se, oferecida e devolvida como uma espécie de "carne sacrificial", e Rabi Akiva a compara à carne de "oferendas aos mortos" — uma categoria bíblica de idolatria particularmente grave. Por fim, a mishná distingue entre gentios a caminho de um festival idólatra, com os quais é proibido negociar, pois o comércio poderia fornecer-lhes recursos ou mercadorias destinadas à própria celebração idólatra, e os que já estão voltando, com os quais o comércio é permitido, pois a festividade já passou e não há mais risco de cumplicidade direta.

אֵלּוּ דְבָרִים שֶׁל גּוֹיִם אֲסוּרִין וְאִסּוּרָן אִסּוּר הֲנָאָה. הַיַּיִן, וְהַחֹמֶץ שֶׁל גּוֹיִם שֶׁהָיָה מִתְּחִלָּתוֹ יַיִן, וְחֶרֶס הַדְרִיָּנִי, וְעוֹרוֹת לְבוּבִין. רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר, בִּזְמַן שֶׁהַקֶּרַע שֶׁלּוֹ עָגוֹל, אָסוּר. מָשׁוּךְ, מֻתָּר. בָּשָׂר הַנִּכְנָס לַעֲבוֹדָה זָרָה, מֻתָּר. וְהַיּוֹצֵא, אָסוּר, מִפְּנֵי שֶׁהוּא כְזִבְחֵי מֵתִים, דִּבְרֵי רַבִּי עֲקִיבָא. הַהוֹלְכִין לַתַּרְפּוּת, אָסוּר לָשֵׂאת וְלָתֵת עִמָּהֶם. וְהַבָּאִין, מֻתָּרִין:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Avodá Zará 2:3
אֵלּוּ דְבָרִים שֶׁל עוֹבְדֵי כּוֹכָבִים אֲסוּרִין וְכוּ׳: אַנְדְּרִיָּאנוּס קֵיסָר הָיָה עוֹשֶׂה טִיט יָדוּעַ וְגוֹבֵל אוֹתוֹ בְּיַיִן יָמִים הַרְבֵּה וְאַחַר כָּךְ עָשָׂה מִמֶּנּוּ כְּלֵי חֶרֶס בִּלְתִּי מְבֻשָּׁל... וְלָבוּבִין גָּזוּר מִלֵּב, לְפִי שֶׁהָיוּ נוֹקְבִין עַל לִבָּן וּמוֹצִיאִין אוֹתוֹ, וְהוּא מִין מֵעֲבוֹדַת הַבְּעָלִים: וְתַרְפּוּת הַגֵּרָעוֹן הַבָּזוּי... וְהַבָּאִים מֻתָּר כְּשֶׁבָּאוּ יְחִידִים, אֲבָל שַׁיָּרָא אֲסוּרִין שֶׁמָּא דַּעְתָּן לַחֲזוֹר, וַהֲלָכָה כְּרַשְׁבְּ״ג וּכְרַבִּי עֲקִיבָא.

Rambam explica a origem histórica da "cerâmica adrianiana": o imperador Adriano preparava um tipo especial de barro amassado com vinho durante muitos dias, e depois moldava dele vasilhas de cerâmica sem cozê-las por completo, levando-as consigo em viagem; sempre que precisava de vinho, mergulhava um pedaço dessa vasilha em água, o barro se dissolvia e afundava, e restava água misturada com o vinho que fora absorvido, pronta para beber — esse mesmo procedimento, explica Rambam, já era praticado pelas pessoas em geral na época da redação da mishná, e por isso a cerâmica recebeu o nome do imperador que a popularizou. Sobre "couros perfurados", esclarece que o termo deriva da palavra "coração" (lev), pois se referem a couros nos quais se perfurava sobre o coração do animal para retirá-lo como espécie de culto ao próprio dono do ídolo. Quanto aos que "voltam" de um festival idólatra, Rambam precisa que a permissão de negociar com eles vale apenas quando retornam sozinhos; se retornam em caravana organizada, permanecem proibidos, por temor de que pretendam regressar ao festival. Rambam conclui que a halachá segue tanto Rabán Shimon ben Gamliel quanto Rabi Akiva.

Bartenura · Avodá Zará 2:3
שֶׁהָיָה מִתְּחִלָּתוֹ יַיִן. לַאֲפוֹקֵי הֵיכָא דְקָנָה הַנָּכְרִי חֹמֶץ מִיִּשְׂרָאֵל, דְּלֹא מִתְּסַר בַּהֲנָאָה... וְחֶרֶס הַדְרִיָּנִי. אַדְרִיָּאנוּס קֵיסָר הָיָה מְגַבֵּל טִיט בְּיַיִן וְעוֹשֶׂה מִמֶּנּוּ כֵלִים... מָשׁוּךְ מֻתָּר. שֶׁאֵין עוֹשִׂין לַעֲבוֹדָה זָרָה אֶלָּא עָגֹל, וַהֲלָכָה כְּרַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל: אָסוּר לָשֵׂאת וְלָתֵת עִמָּהֶם. דְּאָזְלוּ וּמוֹדוּ לַעֲבוֹדָה זָרָה, וְעוֹד דְּזָבְנֵי מִידֵי דִּצְרִיךְ לְתִקְרֹבֶת עֲבוֹדָה זָרָה, וַהֲלָכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא.

Bartenura precisa que "vinagre que desde o início era vinho" exclui o caso de um gentio que compra vinagre já pronto de um israelita: esse vinagre não é proibido com proibição de proveito, pois o motivo da proibição do vinho é o temor de que tenha sido derramado em libação idólatra, e o vinagre, por sua natureza, não se presta a esse uso ritual. Repete a explicação da cerâmica adrianiana ligada ao imperador Adriano. Sobre o corte alongado ser permitido, explica que os idólatras só praticam esse rito com corte redondo, nunca alongado — por isso a halachá segue Rabán Shimon ben Gamliel. E quanto à proibição de negociar com quem vai a um festival idólatra, explica que isso se deve a duas razões concorrentes: primeiro, porque negociar com eles equivale, em certo sentido, a reconhecer e assentir com a própria idolatria; segundo, porque é bem possível que o israelita esteja vendendo justamente algo de que o gentio precisa para a oferenda ritual da festividade — e por isso a halachá segue Rabi Akiva.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Talmud Bavli, Avodá Zará 29b (abertura da Guemará sobre esta mishná)
מַתְנִיתִין: שֶׁהָיָה מִתְּחִלָּתוֹ יַיִן. בְּיַד הָעוֹבֵד כּוֹכָבִים, לְאַפּוּקֵי הֵיכָא דְּזַבִּין עוֹבֵד כּוֹכָבִים חֹמֶץ מִיִּשְׂרָאֵל, דְּלֹא מִתְּסַר בַּהֲנָאָה, דְּטַעְמָא דְּאָסוּר בַּהֲנָאָה מִשּׁוּם דִּלְמָא נַסְּכֵיהּ, הוּא וְחֹמֶץ לֹא מְנַסֵּךְ: וְחֶרֶס הַדְרִיָּנִי. בַּגְּמָרָא מְפָרֵשׁ שֶׁשּׁוֹרִהוּ בְמַיִם וְיוֹצֵא יַיִן הַנִּבְלָע בּוֹ: וְעוֹרוֹת לְבוּבִין. שֶׁקּוֹרְעִין כְּנֶגֶד הַלֵּב, דַּרְכָּן לַעֲשׂוֹת כֵּן לַעֲבוֹדַת כּוֹכָבִים וּמוֹצִיאִין אֶת הַלֵּב דֶּרֶךְ הַנֶּקֶב וּמִתְּסַר מִשּׁוּם זִבְחֵי מֵתִים: מָשׁוּךְ מֻתָּר. שֶׁאֵין עוֹשִׂין כֵּן לַעֲבוֹדַת כּוֹכָבִים.

No início da Guemará sobre esta mishná, Rashi vai comentando termo por termo a lista de itens proibidos, confirmando e detalhando a explicação de Bartenura acima: "que desde o início era vinho" refere-se especificamente ao vinho que já estava em posse do gentio desde o começo — excluindo, portanto, o caso em que o gentio compra vinagre pronto de um israelita, pois a razão da proibição de proveito é o temor de que o líquido tenha sido usado em libação idólatra, e o vinagre não se presta a esse uso; "cerâmica adrianiana" — a Guemará explica que se trata de vasilhas que, quando embebidas em água, liberam o vinho nelas absorvido; "couros perfurados no coração" — peles rasgadas sobre a região do coração, prática comum entre os idólatras, que retiravam o coração pelo orifício e o ofereciam em culto, tornando o couro proibido por associação com "oferendas aos mortos". Sobre o critério de Rabán Shimon ben Gamliel, Rashi confirma: um corte alongado é permitido porque este formato de corte não é o utilizado no ritual idólatra.