Os odres dos gentios e seus jarros, e vinho de Israel neles recolhido, são proibidos, e sua proibição é proibição de proveito — palavras de Rabi Meir. Mas os Sábios dizem: sua proibição não é proibição de proveito. Os caroços e as películas de uva dos gentios são proibidos, e sua proibição é proibição de proveito — palavras de Rabi Meir. Mas os Sábios dizem: úmidos, são proibidos; secos, são permitidos. O molho de peixe e os queijos de Beit Unyaki dos gentios são proibidos, e sua proibição é proibição de proveito — palavras de Rabi Meir. Mas os Sábios dizem: sua proibição não é proibição de proveito. — Esta mishná apresenta três disputas estruturalmente paralelas, todas opondo Rabi Meir aos demais Sábios sobre o mesmo eixo: até onde se estende a proibição de proveito. A primeira trata dos odres de couro e jarros de barro pertencentes a gentios, nos quais vinho de propriedade de um israelita foi guardado — presumindo-se que as paredes porosas do recipiente absorveram resíduo de vinho de libação idólatra usado anteriormente pelo próprio gentio, e que esse resíduo se difundiu no vinho do judeu; Rabi Meir considera o vinho assim contaminado proibido com proibição de proveito plena, enquanto os Sábios o consideram proibido apenas ao consumo. A segunda disputa trata de caroços e películas de uva pertencentes a gentios — restos da prensagem de uvas que poderiam ter sido usados para produzir vinho de libação; aqui os Sábios introduzem uma distinção temporal que Rabi Meir não aceita: enquanto úmidos, ainda capazes de liberar líquido residual, são proibidos; uma vez secos, presume-se que todo vestígio de vinho evaporou, e tornam-se permitidos até mesmo ao consumo. A terceira disputa trata de dois produtos alimentícios específicos: o "muriás", um molho fermentado de peixe muito comum na culinária da Antiguidade, no qual era costume adicionar vinho, e os queijos da região de Beit Unyaki, presumidos coagulados com coalho retirado de bezerros usados em sacrifício idólatra — para ambos, novamente, Rabi Meir aplica proibição de proveito plena, e os Sábios restringem a proibição apenas ao consumo. Em todos os três casos, nota-se que a lei prática segue os Sábios, e não Rabi Meir — um padrão recorrente ao longo deste capítulo, no qual a posição mais rigorosa é sistematicamente registrada, mas não adotada como norma.
Rambam detalha o procedimento prático para reabilitar odres e jarros usados por gentios: se são novos e nunca usados pelo gentio, pode-se colocar vinho dentro imediatamente; se são velhos e já usados por ele, deve-se enchê-los de água por três dias completos, trocando a água a cada vinte e quatro horas — e só então é permitido colocar vinho. Se, em vez disso, o gentio colocou neles molho de peixe ou algo semelhante logo de início, é permitido colocar vinho depois, mesmo sem o processo de imersão em água; e é sempre permitido colocar cerveja neles de imediato. Se nenhum desses procedimentos foi feito, mas o recipiente ficou parado sem uso por um ano inteiro, também se torna permitido colocar vinho nele. Sobre a disputa dos caroços e películas, Rambam esclarece que "úmidos" significa dentro do primeiro ano, e "secos" após esse período. Sobre Beit Unyaki, explica que era um lugar onde a maioria dos bezerros encontrados estava próxima ao uso em culto idólatra — mas mesmo essa maioria local constituía, em relação ao total do gado da região, apenas uma minoria; por isso Rabi Meir, que se preocupa mesmo com uma minoria, proíbe; os Sábios, que não se preocupam com minoria, permitem, ao menos quanto ao proveito. Rambam conclui que a halachá não segue Rabi Meir em nenhum destes casos.
Bartenura esclarece que "odres" são recipientes de couro e "jarros" de barro; e detalha o procedimento de purificação já descrito por Rambam. Explica que "caroços e películas" são o refugo das uvas — as sementes por dentro e as cascas por fora. Sobre o muriás, explica que era comum misturar-lhe vinho, mas quando se pode constatar claramente que um determinado lote não recebeu essa mistura, todos concordam — inclusive Rabi Meir — que é permitido, sem disputa. Explica ainda que Beit Unyaki era o nome de uma aldeia onde a maioria dos bezerros encontrados estava próxima do uso em culto idólatra, gerando a suspeita sobre a origem do coalho usado na fabricação do queijo local.
Rashi comenta os termos técnicos que aparecem na discussão gemárica desta mishná. "Avtá" é um odre de couro grosso, usado especialmente pelos "taiei" — viajantes mercadores do deserto — que o carregam cheio de vinho por longas distâncias; por isso, explica Rashi, esse tipo de odre é tratado como se o vinho tivesse sido ali "introduzido para permanência" prolongada, exigindo o período completo de doze meses antes de se tornar utilizável. "Portsanê" são simplesmente o refugo das uvas, confirmando a explicação de Bartenura. Sobre o "muriás de artesão especializado", Rashi traz uma distinção prática adicional discutida na Guemará: quando o molho de peixe é preparado por um gentio que é um artesão profissional dedicado a esse ofício, ele é permitido, pois esse tipo de artesão não costuma misturar vinho ao molho — ao contrário do preparo doméstico comum, em que a mistura era mais frequente. E "chilak" é identificado por Rashi como um tipo de peixe puro, cujo status halachico a Guemará discute em maior profundidade adiante, ligado ao mesmo tema dos queijos de Beit Unyaki.