Seder Nezikin · Massechet Avodá Zará · Perek Bet · Mishná 4 de 7

Odres, caroços de uva, molho de peixe e queijos de gentios

נוֹדוֹת הַגּוֹיִם וְקַנְקַנֵּיהֶן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Três disputas sucessivas entre Rabi Meir e os Sábios sobre se determinados itens que estiveram em contato com posses de gentios — odres e jarros que continham vinho de Israel, caroços e películas de uva, molho de peixe e queijos de Beit Unyaki — são apenas proibidos ao consumo ou também proibidos com proibição de proveito.

Os odres dos gentios e seus jarros, e vinho de Israel neles recolhido, são proibidos, e sua proibição é proibição de proveito — palavras de Rabi Meir. Mas os Sábios dizem: sua proibição não é proibição de proveito. Os caroços e as películas de uva dos gentios são proibidos, e sua proibição é proibição de proveito — palavras de Rabi Meir. Mas os Sábios dizem: úmidos, são proibidos; secos, são permitidos. O molho de peixe e os queijos de Beit Unyaki dos gentios são proibidos, e sua proibição é proibição de proveito — palavras de Rabi Meir. Mas os Sábios dizem: sua proibição não é proibição de proveito.Esta mishná apresenta três disputas estruturalmente paralelas, todas opondo Rabi Meir aos demais Sábios sobre o mesmo eixo: até onde se estende a proibição de proveito. A primeira trata dos odres de couro e jarros de barro pertencentes a gentios, nos quais vinho de propriedade de um israelita foi guardado — presumindo-se que as paredes porosas do recipiente absorveram resíduo de vinho de libação idólatra usado anteriormente pelo próprio gentio, e que esse resíduo se difundiu no vinho do judeu; Rabi Meir considera o vinho assim contaminado proibido com proibição de proveito plena, enquanto os Sábios o consideram proibido apenas ao consumo. A segunda disputa trata de caroços e películas de uva pertencentes a gentios — restos da prensagem de uvas que poderiam ter sido usados para produzir vinho de libação; aqui os Sábios introduzem uma distinção temporal que Rabi Meir não aceita: enquanto úmidos, ainda capazes de liberar líquido residual, são proibidos; uma vez secos, presume-se que todo vestígio de vinho evaporou, e tornam-se permitidos até mesmo ao consumo. A terceira disputa trata de dois produtos alimentícios específicos: o "muriás", um molho fermentado de peixe muito comum na culinária da Antiguidade, no qual era costume adicionar vinho, e os queijos da região de Beit Unyaki, presumidos coagulados com coalho retirado de bezerros usados em sacrifício idólatra — para ambos, novamente, Rabi Meir aplica proibição de proveito plena, e os Sábios restringem a proibição apenas ao consumo. Em todos os três casos, nota-se que a lei prática segue os Sábios, e não Rabi Meir — um padrão recorrente ao longo deste capítulo, no qual a posição mais rigorosa é sistematicamente registrada, mas não adotada como norma.

נוֹדוֹת הַגּוֹיִם וְקַנְקַנֵּיהֶן וְיַיִן שֶׁל יִשְׂרָאֵל כָּנוּס בָּהֶן, אֲסוּרִין, וְאִסּוּרָן אִסּוּר הֲנָאָה, דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, אֵין אִסּוּרָן אִסּוּר הֲנָאָה. הַחַרְצַנִּים וְהַזַּגִּין שֶׁל גּוֹיִם אֲסוּרִין, וְאִסּוּרָן אִסּוּר הֲנָאָה, דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, לַחִין, אֲסוּרִין, יְבֵשִׁין, מֻתָּרִין. הַמֻּרְיָס וּגְבִינוֹת בֵּית אֻנְיָקִי שֶׁל גּוֹיִם אֲסוּרִין, וְאִסּוּרָן אִסּוּר הֲנָאָה, דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, אֵין אִסּוּרָן אִסּוּר הֲנָאָה:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Avodá Zará 2:4
נוֹדוֹת שֶׁל עוֹבְדֵי כּוֹכָבִים וְקַנְקַנֵּיהֶן וְכוּ׳: וְהוּא שֶׁאִם הֵם חֲדָשִׁים וְלֹא נִשְׁתַּמֵּשׁ בָּהֶן הָעוֹבֵד כּוֹכָבִים, מֻתָּר לָנוּ לָתֵת לְתוֹכוֹ יַיִן מִיָּד; וְאִם הֵם יְשָׁנִים שֶׁכְּבָר נִשְׁתַּמֵּשׁ בָּהֶן הָעוֹבֵד כּוֹכָבִים, יְמַלֵּא אוֹתָן בְּמַיִם שְׁלֹשָׁה יָמִים... כְּבָר זָכַרְנוּ פְּעָמִים שֶׁהַחַרְצַנִּים הֵם גַּרְעִינֵי הָעֲנָבִים וְזַגִּין הַקְּלִפָּה שֶׁעַל הָעֵנָב... וּבֵית אוּנְיָקִי מָקוֹם שֶׁרֹב הָעֲגָלִים הַנִּמְצָאִים לְשָׁם הָיוּ קְרוֹבִים לַעֲבוֹדַת כּוֹכָבִים, וְרַבִּי מֵאִיר חָיֵישׁ לְמִעוּטָא, וְרַבָּנָן לֹא חָיְשֵׁי לְמִעוּטָא, וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי מֵאִיר בְּכָל דְּבָרָיו.

Rambam detalha o procedimento prático para reabilitar odres e jarros usados por gentios: se são novos e nunca usados pelo gentio, pode-se colocar vinho dentro imediatamente; se são velhos e já usados por ele, deve-se enchê-los de água por três dias completos, trocando a água a cada vinte e quatro horas — e só então é permitido colocar vinho. Se, em vez disso, o gentio colocou neles molho de peixe ou algo semelhante logo de início, é permitido colocar vinho depois, mesmo sem o processo de imersão em água; e é sempre permitido colocar cerveja neles de imediato. Se nenhum desses procedimentos foi feito, mas o recipiente ficou parado sem uso por um ano inteiro, também se torna permitido colocar vinho nele. Sobre a disputa dos caroços e películas, Rambam esclarece que "úmidos" significa dentro do primeiro ano, e "secos" após esse período. Sobre Beit Unyaki, explica que era um lugar onde a maioria dos bezerros encontrados estava próxima ao uso em culto idólatra — mas mesmo essa maioria local constituía, em relação ao total do gado da região, apenas uma minoria; por isso Rabi Meir, que se preocupa mesmo com uma minoria, proíbe; os Sábios, que não se preocupam com minoria, permitem, ao menos quanto ao proveito. Rambam conclui que a halachá não segue Rabi Meir em nenhum destes casos.

Bartenura · Avodá Zará 2:4
נוֹדוֹת. שֶׁל עוֹר: וְקַנְקַנִּים. שֶׁל חֶרֶס: אֵין אִסּוּרָן אִסּוּר הֲנָאָה. וְדִינַיְהוּ הָכִי, אִם חֲדָשִׁים הֵם, מֻתָּר לָתֵת לְתוֹכָן יַיִן מִיָּד... חַרְצַנִּים וְזַגִּים. פְּסֹלֶת שֶׁל עֲנָבִים, גַּרְעִינִים שֶׁבִּפְנִים וְהַקְּלִפִּים שֶׁבַּחוּץ: הַמֻּרְיָס. שֻׁמָּן שֶׁל דָּגִים, וּרְגִילִין הָיוּ שֶׁמְּעָרְבִין בּוֹ יַיִן, אֲבָל אִם נִכָּר מִמֶּנּוּ שֶׁלֹּא נִתְעָרֵב בּוֹ יַיִן, כֻּלֵּי עָלְמָא לֹא פְלִיגֵי דְּשָׁרֵי: בֵּית אֻנְיָקִי. שֵׁם כְּפָר, שֶׁרֹב עֲגָלִים הַנִּמְצָאִים שָׁם קְרֵבִים לַעֲבוֹדָה זָרָה.

Bartenura esclarece que "odres" são recipientes de couro e "jarros" de barro; e detalha o procedimento de purificação já descrito por Rambam. Explica que "caroços e películas" são o refugo das uvas — as sementes por dentro e as cascas por fora. Sobre o muriás, explica que era comum misturar-lhe vinho, mas quando se pode constatar claramente que um determinado lote não recebeu essa mistura, todos concordam — inclusive Rabi Meir — que é permitido, sem disputa. Explica ainda que Beit Unyaki era o nome de uma aldeia onde a maioria dos bezerros encontrados estava próxima do uso em culto idólatra, gerando a suspeita sobre a origem do coalho usado na fabricação do queijo local.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Talmud Bavli, Avodá Zará 34b (Guemará sobre esta mishná)
אַבְטָא. חֵמֶת מֵעוֹר עָב וְקוֹרִין אוֹתוֹ בּוֹטִי״ן: דְּטַיָּיעֵי. הוֹלְכֵי דְרָכִים נוֹשְׂאִין אוֹתוֹ מָלֵא יַיִן לְמֵרָחוֹק, וְהָוֵי כְּמַכְנִיסוֹ לְקִיּוּם, וּמְשׁוּם הָכִי בָּעֵי שְׁהִיָּיה י״ב חֹדֶשׁ: פּוֹרְצָנֵי. פְּסֹלֶת שֶׁל עֲנָבִים: מוּרְיָס אוּמָן. שֶׁל עוֹבֵד כּוֹכָבִים אוּמָן, מֻתָּר... וְאוּמָן לֹא רָמֵי בֵּיהּ חַמְרָא: חִלָּק. מִין דָּגִים טְהוֹרִים.

Rashi comenta os termos técnicos que aparecem na discussão gemárica desta mishná. "Avtá" é um odre de couro grosso, usado especialmente pelos "taiei" — viajantes mercadores do deserto — que o carregam cheio de vinho por longas distâncias; por isso, explica Rashi, esse tipo de odre é tratado como se o vinho tivesse sido ali "introduzido para permanência" prolongada, exigindo o período completo de doze meses antes de se tornar utilizável. "Portsanê" são simplesmente o refugo das uvas, confirmando a explicação de Bartenura. Sobre o "muriás de artesão especializado", Rashi traz uma distinção prática adicional discutida na Guemará: quando o molho de peixe é preparado por um gentio que é um artesão profissional dedicado a esse ofício, ele é permitido, pois esse tipo de artesão não costuma misturar vinho ao molho — ao contrário do preparo doméstico comum, em que a mistura era mais frequente. E "chilak" é identificado por Rashi como um tipo de peixe puro, cujo status halachico a Guemará discute em maior profundidade adiante, ligado ao mesmo tema dos queijos de Beit Unyaki.