Seder Nezikin · Massechet Avodá Zará · Perek Bet · Mishná 2 de 7

Tratamento médico e corte de cabelo por gentios

מִתְרַפְּאִין מֵהֶן רִפּוּי מָמוֹן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Continuação do tema de proximidade com gentios: pode-se receber deles tratamento médico voltado a bens materiais, mas não tratamento pessoal que envolva risco de vida; e há disputa entre Rabi Meir e os Sábios sobre se é permitido cortar o cabelo com um gentio.

Recebe-se tratamento deles quanto a bens, mas não tratamento quanto à vida. E não se corta o cabelo com eles em lugar algum — palavras de Rabi Meir. Mas os Sábios dizem: em via pública é permitido, mas não a sós com ele.Esta mishná continua a explorar os limites da confiança depositada em gentios, agora no campo dos serviços profissionais. A primeira cláusula distingue dois tipos de tratamento médico: "tratamento de bens" — quando o gentio cuida de um animal ou de uma propriedade do israelita — é permitido, pois um eventual erro ou má-fé resultaria apenas em prejuízo material, recuperável; mas "tratamento de vida" — quando o próprio corpo do israelita está em jogo — não é permitido, por temor de que o gentio, por displicência ou hostilidade, cause dano irreversível. A segunda cláusula registra uma disputa sobre um serviço aparentemente trivial, cortar o cabelo: segundo Rabi Meir, isso nunca é permitido com um gentio, em lugar nenhum, por temor de que ele use a navalha para ferir ou matar o cliente enquanto este está desprevenido e de pescoço exposto; os Sábios discordam parcialmente, permitindo o corte de cabelo em via pública — onde a presença de outras pessoas serve de dissuasão — mas proibindo-o quando os dois estão a sós, justamente pela mesma vulnerabilidade física que preocupava Rabi Meir. A disputa ilustra bem o padrão geral deste capítulo: a halachá não trata o gentio da Antiguidade como presumivelmente hostil em toda e qualquer circunstância, mas calibra cuidadosamente o grau de exposição e vulnerabilidade do judeu antes de autorizar ou vedar cada tipo de contato.

מִתְרַפְּאִין מֵהֶן רִפּוּי מָמוֹן, אֲבָל לֹא רִפּוּי נְפָשׁוֹת. וְאֵין מִסְתַּפְּרִין מֵהֶן בְּכָל מָקוֹם, דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, בִּרְשׁוּת הָרַבִּים מֻתָּר, אֲבָל לֹא בֵינוֹ לְבֵינוֹ:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Avodá Zará 2:2
מִתְרַפְּאִין מֵהֶן רִפּוּי מָמוֹן וְכוּ׳: רִפּוּי מָמוֹן שֶׁיְּרַפֵּא לוֹ הָעוֹבֵד כּוֹכָבִים בְּהֶמְתּוֹ אוֹ עַבְדּוֹ, וְרִפּוּי נְפָשׁוֹת שֶׁיְּרַפְּאֵהוּ לוֹ עַצְמוֹ, וְזֶה דַּוְקָא כְּשֶׁנָּתַן לוֹ הָרְפוּאָה מִשֶּׁלּוֹ, אֲבָל כְּשֶׁיֹּאמַר בַּמֶּה שֶׁיִּתְרַפֵּא מֻתָּר. וְלְפִיכָךְ מֻתָּר לָנוּ לָקַחַת נֻסְחָאוֹת הָרְפוּאוֹת מֵהֶן, וְאָסוּר לָקַחַת מֵהֶן פֵּרוּשׁ עִנְיָנָיו. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי מֵאִיר.

Rambam esclarece que "tratamento de bens" refere-se a quando o gentio cura o animal ou o escravo do israelita, enquanto "tratamento de vida" refere-se a quando ele cuida diretamente da pessoa do próprio israelita — e a proibição se aplica especificamente quando é o próprio gentio quem prepara e administra o remédio de próprio punho; mas se ele apenas indicar verbalmente com que substância o israelita deve se tratar, isso é permitido, pois o próprio judeu prepara e aplica o tratamento. Por isso, esclarece Rambam, é permitido consultar e utilizar receitas ou fórmulas médicas escritas por gentios, mas é proibido receber deles a explicação pessoal e a aplicação direta do tratamento sobre o próprio corpo. Rambam conclui que a halachá não segue Rabi Meir, e portanto o corte de cabelo em via pública é permitido, conforme a opinião dos Sábios.

Bartenura · Avodá Zará 2:2
רִפּוּי מָמוֹן. בְּהֶמְתּוֹ: רִפּוּי נְפָשׁוֹת. גּוּפוֹ. וְאִם אָמַר לוֹ סַם פְּלוֹנִי יָפֶה לְךָ, אֲפִלּוּ רִפּוּי נְפָשׁוֹת מֻתָּר לְהִתְרַפְּאוֹת מִמֶּנּוּ: אֲבָל לֹא בֵינוֹ לְבֵינוֹ. וְאִי רוֹאֶה בְמַרְאָה, מֻתָּר. דְּמֵימָר אָמַר הַנָּכְרִי, הוֹאִיל וּמִסְתַּפֵּר הָכִי אָדָם חָשׁוּב הוּא, וּמִתְיָרֵא לְהָרְגוֹ.

Bartenura define de forma sucinta: "tratamento de bens" refere-se ao animal do israelita; "tratamento de vida" refere-se ao seu próprio corpo. E acrescenta uma distinção prática relevante: se o gentio apenas disser ao israelita "tal remédio é bom para ti", sem ele mesmo administrá-lo, isso é permitido mesmo tratando-se de tratamento pessoal — pois o próprio israelita, ao aplicar o remédio, controla o processo. Quanto ao corte de cabelo a sós, Bartenura observa que, se há um espelho no recinto pelo qual o israelita pode observar os movimentos do gentio às suas costas, o corte é permitido mesmo a sós, pois o gentio pensará: "já que ele se deixa cortar o cabelo desta forma, deve ser pessoa importante" — e o temor de represália o conterá de agir com violência.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Talmud Bavli, Avodá Zará 27a–27b (Guemará sobre esta mishná)
רוֹפֵא מֻמְחֶה. לֹא מָרַע נַפְשֵׁיהּ לְשַׁוְּיֵהּ כְּרוּת שָׁפְכָה: סָבַר. הָעוֹבֵד כּוֹכָבִים: שְׁיוּלֵי קָא מִשְׁיַיל. הַאי יִשְׂרָאֵל, מִדְּלָא בָּעֵי לְאִתָּסֵי מִנַּאי, לֹא סָמִיךְ עֲלַי, וּשְׁיוּלֵי קָא מִשְׁיַיל לְנַסּוֹיֵי אִם אוֹמֵר לוֹ אֱמֶת: סָפֵק חַי סָפֵק מֵת. חֳלִי שֶׁאִם לֹא יְרַפְּאֶנּוּ רוֹפֵא, סָפֵק יִחְיֶה סָפֵק יָמוּת, אֵין מִתְרַפְּאִין מֵהֶן... וַדַּאי מֵת מִתְרַפְּאִין. הֵיכָא דְּיָדְעִינָן שֶׁאִם לֹא יְרַפְּאֶנּוּ יָמוּת וְאֵין כָּאן יִשְׂרָאֵל לְרַפְּאוֹתוֹ, מִתְרַפְּאִין מֵהֶן.

Rashi comenta um episódio da Guemará em que um médico gentio reconhecido examina um judeu enfermo e diagnostica gravidade em seu caso; segundo Rashi, quando se trata de um médico especialista de renome, o próprio interesse profissional do gentio o impede de prejudicar deliberadamente o paciente, "para não arruinar sua própria reputação e passar por incompetente". A Guemará também relata que o gentio, percebendo que o israelita hesitava em confiar plenamente em seu diagnóstico e buscava confirmação de outra fonte, concluiu corretamente que estava sendo posto à prova quanto à veracidade do que dizia. A partir desse e de outros episódios, a Guemará desenvolve uma distinção central que Rashi explica com precisão: quando a doença é de natureza incerta — de modo que, mesmo sem tratamento algum, o paciente poderia sobreviver ou morrer —, não se recebe tratamento de gentios, pois não há necessidade urgente que justifique o risco; mas quando já se sabe com certeza que, sem tratamento, o paciente morrerá, e não há médico judeu disponível, é permitido receber tratamento do gentio, pois de qualquer modo o paciente pereceria, e há ao menos a possibilidade de que o gentio o cure.