Recebe-se tratamento deles quanto a bens, mas não tratamento quanto à vida. E não se corta o cabelo com eles em lugar algum — palavras de Rabi Meir. Mas os Sábios dizem: em via pública é permitido, mas não a sós com ele. — Esta mishná continua a explorar os limites da confiança depositada em gentios, agora no campo dos serviços profissionais. A primeira cláusula distingue dois tipos de tratamento médico: "tratamento de bens" — quando o gentio cuida de um animal ou de uma propriedade do israelita — é permitido, pois um eventual erro ou má-fé resultaria apenas em prejuízo material, recuperável; mas "tratamento de vida" — quando o próprio corpo do israelita está em jogo — não é permitido, por temor de que o gentio, por displicência ou hostilidade, cause dano irreversível. A segunda cláusula registra uma disputa sobre um serviço aparentemente trivial, cortar o cabelo: segundo Rabi Meir, isso nunca é permitido com um gentio, em lugar nenhum, por temor de que ele use a navalha para ferir ou matar o cliente enquanto este está desprevenido e de pescoço exposto; os Sábios discordam parcialmente, permitindo o corte de cabelo em via pública — onde a presença de outras pessoas serve de dissuasão — mas proibindo-o quando os dois estão a sós, justamente pela mesma vulnerabilidade física que preocupava Rabi Meir. A disputa ilustra bem o padrão geral deste capítulo: a halachá não trata o gentio da Antiguidade como presumivelmente hostil em toda e qualquer circunstância, mas calibra cuidadosamente o grau de exposição e vulnerabilidade do judeu antes de autorizar ou vedar cada tipo de contato.
Rambam esclarece que "tratamento de bens" refere-se a quando o gentio cura o animal ou o escravo do israelita, enquanto "tratamento de vida" refere-se a quando ele cuida diretamente da pessoa do próprio israelita — e a proibição se aplica especificamente quando é o próprio gentio quem prepara e administra o remédio de próprio punho; mas se ele apenas indicar verbalmente com que substância o israelita deve se tratar, isso é permitido, pois o próprio judeu prepara e aplica o tratamento. Por isso, esclarece Rambam, é permitido consultar e utilizar receitas ou fórmulas médicas escritas por gentios, mas é proibido receber deles a explicação pessoal e a aplicação direta do tratamento sobre o próprio corpo. Rambam conclui que a halachá não segue Rabi Meir, e portanto o corte de cabelo em via pública é permitido, conforme a opinião dos Sábios.
Bartenura define de forma sucinta: "tratamento de bens" refere-se ao animal do israelita; "tratamento de vida" refere-se ao seu próprio corpo. E acrescenta uma distinção prática relevante: se o gentio apenas disser ao israelita "tal remédio é bom para ti", sem ele mesmo administrá-lo, isso é permitido mesmo tratando-se de tratamento pessoal — pois o próprio israelita, ao aplicar o remédio, controla o processo. Quanto ao corte de cabelo a sós, Bartenura observa que, se há um espelho no recinto pelo qual o israelita pode observar os movimentos do gentio às suas costas, o corte é permitido mesmo a sós, pois o gentio pensará: "já que ele se deixa cortar o cabelo desta forma, deve ser pessoa importante" — e o temor de represália o conterá de agir com violência.
Rashi comenta um episódio da Guemará em que um médico gentio reconhecido examina um judeu enfermo e diagnostica gravidade em seu caso; segundo Rashi, quando se trata de um médico especialista de renome, o próprio interesse profissional do gentio o impede de prejudicar deliberadamente o paciente, "para não arruinar sua própria reputação e passar por incompetente". A Guemará também relata que o gentio, percebendo que o israelita hesitava em confiar plenamente em seu diagnóstico e buscava confirmação de outra fonte, concluiu corretamente que estava sendo posto à prova quanto à veracidade do que dizia. A partir desse e de outros episódios, a Guemará desenvolve uma distinção central que Rashi explica com precisão: quando a doença é de natureza incerta — de modo que, mesmo sem tratamento algum, o paciente poderia sobreviver ou morrer —, não se recebe tratamento de gentios, pois não há necessidade urgente que justifique o risco; mas quando já se sabe com certeza que, sem tratamento, o paciente morrerá, e não há médico judeu disponível, é permitido receber tratamento do gentio, pois de qualquer modo o paciente pereceria, e há ao menos a possibilidade de que o gentio o cure.