Seder Nezikin · Massechet Avodá Zará · Perek Bet · Mishná 1 de 7

Isolamento com gentios: hospedarias, yichud, parteria e amamentação

וְלֹא יִתְיַחֵד אָדָם עִמָּהֶן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Mishná de abertura do Perek Bet: uma série de proibições ligadas à suspeita de comportamento imoral entre gentios — não se deixa um animal em suas hospedarias por suspeita de bestialidade, homens e mulheres não ficam a sós com eles por suspeita de relações proibidas e de derramamento de sangue, e regras específicas sobre partejar e amamentar os filhos de gentios.

Não se deixa um animal nas hospedarias dos gentios, porque são suspeitos de bestialidade. E uma mulher não fica a sós com eles, porque são suspeitos das relações proibidas. E um homem não fica a sós com eles, porque são suspeitos de derramamento de sangue. A filha de Israel não parteja a gentia, porque faz nascer um filho para a idolatria; mas a gentia parteja a filha de Israel. A filha de Israel não amamenta o filho da gentia; mas a gentia amamenta o filho da israelita, estando sob sua autoridade. — Esta mishná abre o Perek Bet deslocando o eixo da discussão: se o capítulo anterior tratou das transações comerciais com gentios, este capítulo trata da proximidade física e da confiança pessoal que se pode ou não depositar neles, com base em suspeitas morais concretas atribuídas aos costumes das nações da Antiguidade. A primeira cláusula proíbe deixar um animal doméstico hospedado sozinho numa pousada de gentios, por temor de que o próprio hospedeiro, ou algum viajante, cometa bestialidade com ele — uma suspeita que a mishná trata como presunção geral sobre a população gentia daquele contexto histórico, não como acusação pessoal. Em seguida vêm duas proibições de yichud — ficar a sós, em ambiente fechado e sem testemunhas: uma mulher israelita não deve ficar a sós com um gentio, por suspeita de relações proibidas, e nem mesmo um homem israelita deve ficar a sós com gentios, por suspeita de violência letal. Note-se a assimetria: a preocupação com a mulher é de natureza sexual, enquanto a preocupação com o homem é de segurança física — ambas nascidas da mesma constatação de que, na ausência de testemunhas, não há vínculo social ou legal que iniba o gentio da Antiguidade de agir sobre esses impulsos presumidos. As duas últimas cláusulas tratam de cuidados perinatais: uma parteira judia não deve ajudar no parto de uma criança gentia, pois estaria contribuindo ativamente para o nascimento de mais um praticante de idolatria — mas o inverso é permitido, já que uma parteira gentia trazendo ao mundo uma criança judia não produz esse mesmo efeito. Da mesma forma, uma ama de leite judia não deve amamentar o filho de uma gentia, mas uma ama gentia pode amamentar o filho de uma judia, desde que isso ocorra sob a supervisão e na propriedade da mãe judia — condição que, como os comentadores explicam, visa garantir que a ama não leve a criança para fora do controle da família e evitar qualquer risco à sua integridade física.

אֵין מַעֲמִידִין בְּהֵמָה בְּפֻנְדְּקָאוֹת שֶׁל גּוֹיִם, מִפְּנֵי שֶׁחֲשׁוּדִין עַל הָרְבִיעָה. וְלֹא תִתְיַחֵד אִשָּׁה עִמָּהֶן, מִפְּנֵי שֶׁחֲשׁוּדִין עַל הָעֲרָיוֹת. וְלֹא יִתְיַחֵד אָדָם עִמָּהֶן, מִפְּנֵי שֶׁחֲשׁוּדִין עַל שְׁפִיכַת דָּמִים. בַּת יִשְׂרָאֵל לֹא תְיַלֵּד אֶת הַנָּכְרִית, מִפְּנֵי שֶׁמְּיַלֶּדֶת בֵּן לַעֲבוֹדָה זָרָה. אֲבָל נָכְרִית מְיַלֶּדֶת בַּת יִשְׂרָאֵל. בַּת יִשְׂרָאֵל לֹא תָנִיק בְּנָהּ שֶׁל נָכְרִית, אֲבָל נָכְרִית מְנִיקָה בְנָהּ שֶׁל יִשְׂרְאֵלִית בִּרְשׁוּתָהּ:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Avodá Zará 2:1
אֵין מַעֲמִידִין בְּהֵמָה בְּפֻנְדְּקָאוֹת שֶׁל עוֹבְדֵי כּוֹכָבִים וְכוּ׳: וַאֲפִלּוּ בְּהֵמָה נְקֵבָה אֵין מַנִּיחִין אֵצֶל עוֹבֶדֶת כּוֹכָבִים... וְלֹא תִתְיַחֵד אִשָּׁה עִמָּהֶם וַאֲפִלּוּ הַיִּחוּד שֶׁהוּא מֻתָּר לָהּ יִחוּד כְּמוֹתוֹ לְהִתְיַחֵד עִם יִשְׂרָאֵל... וּבַת יִשְׂרָאֵל לֹא תֵּילֵד אֶת הָעוֹבֶדֶת כּוֹכָבִים לְפִי שֶׁמְּגַדֶּלֶת בֵּן לַעֲבוֹדַת כּוֹכָבִים, וְאִם הוּא בְּשָׂכָר מֻתָּר מִפְּנֵי אֵיבָה.

Rambam esclarece que a proibição alcança até mesmo animais fêmeas junto a uma gentia — não apenas fêmeas junto a machos gentios —, por temor de que um gentio venha até aquela mulher e, na ocasião, cometa bestialidade com o animal ali hospedado. Sobre a proibição de yichud, Rambam precisa que a proibição alcança inclusive formas de isolamento que seriam permitidas se fosse com um judeu — por exemplo, quando a própria esposa do gentio está presente, o que bastaria para permitir o isolamento caso se tratasse de um judeu, mas não basta aqui, pois a esposa do gentio não exerce sobre ele a mesma função de vigilância moral. Quanto à parteira, Rambam explica que a proibição decorre diretamente de que ela estaria ajudando a formar mais um praticante de idolatria; contudo, se o serviço for prestado mediante pagamento, é permitido, por causa de eivá — o temor de gerar inimizade e hostilidade entre as nações caso os judeus se recusassem terminantemente a prestar esse tipo de auxílio básico. É pelo mesmo motivo que se permite a uma judia amamentar, mediante pagamento, o filho de uma gentia.

Bartenura · Avodá Zará 2:1
אֵין מַעֲמִידִין בְּהֵמָה בְּפֻנְדְּקָאוֹת. הָעֲשׂוּיִין לְהִתְאַכְסֵן שָׁם עוֹבְרֵי דְרָכִים... וְלֹא תִתְיַחֵד אִשָּׁה עִמָּהֶן. אֲפִלּוּ בְּיִחוּד שֶׁכַּיּוֹצֵא בוֹ אֵצֶל יִשְׂרָאֵל מֻתָּר... לֹא תְיַלֵּד אֶת הַנָּכְרִית. מִפְּנֵי שֶׁמְּגַדֶּלֶת בֵּן לַעֲבוֹדָה זָרָה. וּבְשָׂכָר, מֻתֶּרֶת, מִשּׁוּם אֵיבָה. אֲבָל נָכְרִית מְיַלֶּדֶת בַּת יִשְׂרָאֵל. בִּזְמַן שֶׁאֲחֵרוֹת עוֹמְדוֹת עַל גַּבָּהּ.

Bartenura explica que "hospedarias" são os estabelecimentos destinados a acolher viajantes; a proibição alcança até mesmo fêmeas junto a fêmeas, pois os gentios costumam frequentar as mulheres de seus próprios companheiros, e às vezes, não as encontrando, acabam cometendo bestialidade com o animal ali presente. Sobre o isolamento proibido, esclarece que mesmo um tipo de companhia que seria permitida junto a um judeu — como quando a própria esposa do israelita está presente com ele — permanece proibida junto a um gentio, pois a esposa deste não o vigia como faria uma esposa israelita. Bartenura acrescenta a condição relevante quanto à parteira gentia atendendo uma israelita: isso só é permitido quando outras mulheres estão presentes ao seu lado; mas a sós com a parturiente, não, pois a gentia é suspeita de derramamento de sangue e poderia matá-la durante o parto.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Talmud Bavli, Avodá Zará 22b (abertura da Guemará sobre esta mishná)
מוּקְצֶה. שֶׁהִקְצָהוּ וְיִחֲדוֹ לְתִקְרֹבֶת עֲבוֹדַת כּוֹכָבִים: נֶעֱבָד. שֶׁעֲשָׂאוֹ עֲבוֹדַת כּוֹכָבִים וְהִשְׁתַּחֲוָה לוֹ: בִּשְׁלָמָא מֻקְצֶה וְנֶעֱבָד, אַף עַל גַּב דְּוַדַּאי חֲשִׁידִי לָא קָשְׁיָא לָן... אֶלָּא רוֹבֵעַ, אִי חֲשִׁידִי לֵיחוּשׁ.

Ao abrir a discussão sobre a suspeita de bestialidade que fundamenta esta mishná, a Guemará traz uma baraita segundo a qual um animal desqualificado (rova e nirva — que sofreu ou praticou bestialidade), assim como um animal separado para oferenda idólatra (muktsê) ou já usado em culto (nedav), são todos inválidos para servir de oferenda no Templo. Rashi explica os dois últimos termos: "muktsê" designa o animal que foi especificamente separado e destinado para servir de oferenda à idolatria; "nedav" designa aquele que já foi de fato transformado em objeto de culto idólatra e recebeu prostração. A Guemará então levanta uma dificuldade textual: é compreensível que se desconfie de muktsê e nedav, pois mesmo que o gentio certamente tenha praticado o culto sobre eles, isso não gera problema lógico adicional; mas, quanto à categoria do animal violado por bestialidade (rova), cabe perguntar: se de fato há suspeita generalizada de bestialidade entre os gentios, como pressupõe esta própria mishná, por que não se teme que qualquer animal comprado deles tenha sido violado? A pergunta expõe a tensão, explorada ao longo de toda a Guemará deste início de capítulo, entre a suspeita declarada na mishná e outras fontes tanaíticas que tratam certas transações com animais de gentios como confiáveis.