Chegou o dia do décimo segundo mês e não foi resgatada, ficou definitivamente estabelecida para ele — tanto para o comprador quanto para aquele a quem foi dada de presente — pois foi dito: “em perpetuidade”. No início, o comprador se escondia no dia do décimo segundo mês, para que ficasse definitivamente estabelecida para ele. Hilel, o Idoso, instituiu que o vendedor depositasse seu dinheiro na câmara, e que quebrasse a porta e entrasse. Quando aquele quisesse, viria e tomaria seu dinheiro.
— A mishná fecha o assunto anterior: se o prazo de doze meses se esgotou sem que o vendedor tivesse conseguido efetuar o resgate, a casa fica definitivamente estabelecida com quem a detém — e essa regra vale tanto para quem comprou a casa mediante pagamento quanto para quem a recebeu como presente puro, pois o versículo usa a expressão ampla “em perpetuidade”, sem distinguir entre os dois casos. A mishná então revela um abuso histórico: originalmente, compradores mal-intencionados se escondiam propositalmente no último dia do prazo, tornando-se impossíveis de encontrar, para que o vendedor não pudesse entregar-lhes o dinheiro do resgate a tempo — garantindo assim que a casa se tornasse sua de forma definitiva por mera técnica. Para corrigir essa injustiça, Hilel, o Idoso, instituiu uma solução: o vendedor deposita o valor do resgate na câmara do Templo — um ato público e verificável, que vale como pagamento efetivo mesmo sem a presença do comprador — e em seguida pode arrombar a porta da casa e entrar nela como seu legítimo dono novamente. O comprador, por sua vez, poderá vir buscar seu dinheiro na câmara sempre que desejar, não havendo mais vantagem alguma em se esconder.
Rambam esclarece o termo aramaico usado para traduzir “em perpetuidade” como equivalente a “definitivamente estabelecido” — uma decisão selada e fechada, sem possibilidade de reversão. Sobre a expressão “depositar o dinheiro”, discute sua origem lingüística: pode derivar de uma raiz que significa “mostrar” ou “expor” — sugerindo que o vendedor exibe publicamente seu dinheiro na câmara — ou pode ser um termo específico e técnico para o próprio ato de depositar valores.
Bartenura esclarece que a mesma regra do prazo de um ano vale para quem recebeu a casa como presente puro: se quiser resgatá-la dentro do ano, poderá fazê-lo; caso contrário, ela fica definitivamente com ele. Sobre o esconderijo do comprador, precisa que se tratava especificamente do último dia do prazo, para que o vendedor não o encontrasse a tempo de efetuar o pagamento. Sobre a instituição de Hilel, esclarece que o vendedor lança seu dinheiro na câmara do consagrado que fica no pátio do Templo, e então pode arrombar a porta da casa vendida e entrar nela; a palavra usada para “depositar” é a mesma empregada em Yeshayahu para descrever alguém que domina ou se impõe sobre outros.
Rashi confirma que quem recebeu a casa como presente segue exatamente a mesma regra de quem a comprou: dentro do ano pode resgatá-la se quiser, e passado o prazo ela fica definitivamente estabelecida com ele. Sobre o esconderijo, esclarece que era o próprio comprador quem se escondia especificamente no décimo segundo mês, justamente para que o vendedor não conseguisse encontrá-lo e entregar-lhe o dinheiro dentro do prazo. E sobre a instituição de Hilel, explica a expressão “depositar” comparando-a ao uso do mesmo verbo em Yeshayahu para quem se impõe sobre nações — aqui, no sentido técnico de lançar o dinheiro nas câmaras do consagrado que ficavam no pátio do Templo; feito isso, o vendedor pode legitimamente arrombar a porta da casa vendida e nela entrar como seu dono.