Os cherem dos sacerdotes não têm resgate, mas são dados aos sacerdotes. Rabi Yehuda ben Beteira diz: O cherem sem especificação é para a manutenção do Templo, pois está dito: “Todo cherem é santidade das santidades para o Eterno.” E os sábios dizem: O cherem sem especificação é para os sacerdotes, pois está dito: “Como campo de cherem, para o sacerdote será sua posse.” Se assim, por que está dito: “Todo cherem é santidade das santidades para o Eterno”? Para ensinar que ele recai sobre os sacrifícios santíssimos e sobre os sacrifícios de santidade leve.
— A mishná estabelece uma distinção fundamental entre duas categorias de bens consagrados: enquanto a maioria dos bens consagrados ao Templo pode ser resgatada mediante pagamento de seu valor, o cherem destinado especificamente aos sacerdotes não admite resgate algum — ele é simplesmente entregue a eles como propriedade plena e definitiva, do mesmo modo que a teruma, a porção sacerdotal separada da colheita. A mishná então registra uma disputa sobre o destino padrão de um cherem declarado sem especificar seu propósito: Rabi Yehuda ben Beteira sustenta que, por padrão, esse cherem se destina à manutenção física do Templo, apoiando-se no versículo que declara todo cherem “santidade das santidades para o Eterno” — expressão que, para ele, indica destinação ao próprio Templo. Os sábios discordam, sustentando que o destino padrão é para os sacerdotes, apoiando-se num versículo diferente, que compara o campo declarado cherem ao campo consagrado não resgatado, cuja posse recai sobre o sacerdote. A mishná então explica, na visão dos sábios, por que o versículo citado por Rabi Yehuda ben Beteira ainda é necessário: não para determinar o destino padrão do cherem, mas para ensinar algo distinto — que a instituição do cherem pode recair inclusive sobre animais já consagrados como sacrifícios, tanto os de santidade máxima quanto os de santidade leve, tema que a mishná seguinte desenvolverá.
Rambam explica que Rabi Yehuda ben Beteira interpreta o versículo “ao sacerdote pertencerá sua posse” como transmitindo um princípio já estabelecido anteriormente no tratado, e não como determinando o destino do cherem sem especificação. Os sábios, por sua vez, derivam sua posição do artigo definido em “como o campo do cherem”, em vez de uma formulação indefinida. Rambam conclui que a halachá segue os sábios: o cherem sem especificação, hoje, aplicado a bens móveis, vai para os sacerdotes. Mas quem consagrou algo para a manutenção do Templo, numa época em que este não existe, pode resgatá-lo de início por uma soma pequena, descartando o dinheiro — por exemplo, lançando-o ao mar — sendo esta uma permissão válida apenas enquanto o Templo não está de pé.
Bartenura explica que os cherem dos sacerdotes são aqueles declarados especificamente com a intenção de entregá-los a eles, e que não têm resgate, conforme o próprio versículo declara. Já os cherem destinados à manutenção do Templo têm resgate, pois foram consagrados justamente com essa intenção — e a manutenção do Templo só pode ser custeada com dinheiro, não com o objeto físico em si. Conclui que a halachá segue os sábios: hoje, quem declara cherem bens móveis, ou terras fora da Terra de Israel (que têm o mesmo status de bens móveis para este fim), entrega-os aos sacerdotes. E quem consagra algo para a manutenção do Templo numa época sem Templo pode resgatá-lo de início por uma soma pequena, não inferior a quatro zuz ou próximo disso.
Rashi explica que os cherem dos sacerdotes, declarados com a intenção específica de entregá-los a eles, não têm resgate porque assim determina o próprio versículo; já os cherem para a manutenção do Templo têm resgate, precisamente porque foram consagrados com essa finalidade, e a manutenção do Templo só pode ser paga em dinheiro. Curiosamente, Rashi registra que a Guemará traz uma tradição segundo a qual a halachá prática seguiu Rabi Yehuda ben Beteira, e não os sábios como a mishná parece indicar — citando o episódio de um homem que declarou cherem seus bens em Pumbedita, e a quem Rav Yehuda instruiu resgatá-los por quatro zuz e lançar essa soma ao rio, tratando-os como destinados à manutenção do Templo. A Guemará explica essa aparente contradição sugerindo que uma baraita traz a posição em ordem inversa, e que a tradição de Rav remonta diretamente a seus mestres. Rashi acrescenta que essa permissão de resgatar por soma pequena vale apenas hoje, quando não há Templo e portanto não há prejuízo real, restando apenas uma proibição formal sobre reter o cherem sem resgatá-lo.