Seder Kodashim · Massechet Arachin · Perek Chet · Mishná 6 de 7

O cherem sem resgate: para o Templo ou para os sacerdotes?

חֶרְמֵי כֹהֲנִים אֵין לָהֶם פִּדְיוֹן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O cherem destinado aos sacerdotes não tem resgate, sendo entregue como sua propriedade plena, como a teruma; a disputa entre Rabi Yehuda ben Beteira e os sábios sobre o destino do cherem sem especificação; e a explicação de que o cherem também recai sobre sacrifícios sagrados

Os cherem dos sacerdotes não têm resgate, mas são dados aos sacerdotes. Rabi Yehuda ben Beteira diz: O cherem sem especificação é para a manutenção do Templo, pois está dito: “Todo cherem é santidade das santidades para o Eterno.” E os sábios dizem: O cherem sem especificação é para os sacerdotes, pois está dito: “Como campo de cherem, para o sacerdote será sua posse.” Se assim, por que está dito: “Todo cherem é santidade das santidades para o Eterno”? Para ensinar que ele recai sobre os sacrifícios santíssimos e sobre os sacrifícios de santidade leve.

— A mishná estabelece uma distinção fundamental entre duas categorias de bens consagrados: enquanto a maioria dos bens consagrados ao Templo pode ser resgatada mediante pagamento de seu valor, o cherem destinado especificamente aos sacerdotes não admite resgate algum — ele é simplesmente entregue a eles como propriedade plena e definitiva, do mesmo modo que a teruma, a porção sacerdotal separada da colheita. A mishná então registra uma disputa sobre o destino padrão de um cherem declarado sem especificar seu propósito: Rabi Yehuda ben Beteira sustenta que, por padrão, esse cherem se destina à manutenção física do Templo, apoiando-se no versículo que declara todo cherem “santidade das santidades para o Eterno” — expressão que, para ele, indica destinação ao próprio Templo. Os sábios discordam, sustentando que o destino padrão é para os sacerdotes, apoiando-se num versículo diferente, que compara o campo declarado cherem ao campo consagrado não resgatado, cuja posse recai sobre o sacerdote. A mishná então explica, na visão dos sábios, por que o versículo citado por Rabi Yehuda ben Beteira ainda é necessário: não para determinar o destino padrão do cherem, mas para ensinar algo distinto — que a instituição do cherem pode recair inclusive sobre animais já consagrados como sacrifícios, tanto os de santidade máxima quanto os de santidade leve, tema que a mishná seguinte desenvolverá.

חֶרְמֵי כֹהֲנִים אֵין לָהֶם פִּדְיוֹן, אֶלָּא נִתָּנִים לַכֹּהֲנִים. רַבִּי יְהוּדָה בֶן בְּתֵירָא אוֹמֵר, סְתָם חֲרָמִים לְבֶדֶק הַבַּיִת, שֶׁנֶּאֱמַר (שם כז), כָּל חֵרֶם קֹדֶשׁ קָדָשִׁים הוּא לַה'. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, סְתָם חֲרָמִים לַכֹּהֲנִים, שֶׁנֶּאֱמַר (שם), כִּשְׂדֵה הַחֵרֶם לַכֹּהֵן תִּהְיֶה אֲחֻזָּתוֹ. אִם כֵּן, לָמָּה נֶאֱמַר כָּל חֵרֶם קֹדֶשׁ קָדָשִׁים הוּא לַה'. שֶׁהוּא חָל עַל קָדְשֵׁי קָדָשִׁים וְעַל קָדָשִׁים קַלִּים:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Vayikra 27:28
אַךְ כָּל חֵרֶם אֲשֶׁר יַחֲרִם אִישׁ לַיהֹוָה מִכָּל אֲשֶׁר לוֹ, מֵאָדָם וּבְהֵמָה וּמִשְּׂדֵה אֲחֻזָּתוֹ, לֹא יִמָּכֵר וְלֹא יִגָּאֵל, כָּל חֵרֶם קֹדֶשׁ קָדָשִׁים הוּא לַיהֹוָה.
“Porém todo cherem que alguém declarar cherem ao Eterno, de tudo o que possui, de homem, de animal e de seu campo de herança, não se venderá nem se resgatará; todo cherem é santidade das santidades para o Eterno.”
Vayikra 27:21
וְהָיָה הַשָּׂדֶה בְּצֵאתוֹ בַיֹּבֵל קֹדֶשׁ לַיהֹוָה, כִּשְׂדֵה הַחֵרֶם, לַכֹּהֵן תִּהְיֶה אֲחֻזָּתוֹ.
“E o campo, ao sair no Jubileu, será consagrado ao Eterno, como campo de cherem; ao sacerdote pertencerá sua posse.”
Rabi Yehuda ben Beteira lê o versículo de Vayikra 27:28 — “todo cherem é santidade das santidades para o Eterno” — como determinando diretamente o destino padrão do cherem sem especificação: a manutenção do Templo. Os sábios, em contraste, apoiam-se no versículo de Vayikra 27:21, dito originalmente sobre o campo consagrado não resgatado que retorna ao sacerdote no Jubileu — e comparam explicitamente esse campo ao “campo de cherem”, concluindo que, assim como aquele vai para o sacerdote, também o cherem sem especificação se destina a ele. Diante desse aparente conflito, a mishná reinterpreta o versículo citado por Rabi Yehuda ben Beteira: ele não trata do destino do cherem, mas do escopo daquilo sobre o qual o cherem pode recair — inclusive sacrifícios já consagrados ao altar, tanto os de santidade máxima quanto os de santidade leve.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Arachin 8:6
חרמי כהנים אין להם פדיון אלא נותנין לכהנים כו': ר' יהודה בן בתירא מפרש מה שאמר "לכהן תהיה אחזתו", שבא להודיענו העיקר שהקדמנו… וחכמים למדין דין זה ממה שנאמר "כשדה החרם" ולא נאמר "כשדה חרם"… והלכה כחכמים. וכן מי שהחרים בזמן הזה מטלטלים סתם, הרי הן לכהנים… אבל מי שהקדיש לבדק הבית מותר לו לפדותה בדבר מועט לכתחלה, ומשליך אותן דמים לים… ולא התרנו זה אלא לכתחלה בזמן הזה שאין בית המקדש קיים.

Rambam explica que Rabi Yehuda ben Beteira interpreta o versículo “ao sacerdote pertencerá sua posse” como transmitindo um princípio já estabelecido anteriormente no tratado, e não como determinando o destino do cherem sem especificação. Os sábios, por sua vez, derivam sua posição do artigo definido em “como o campo do cherem”, em vez de uma formulação indefinida. Rambam conclui que a halachá segue os sábios: o cherem sem especificação, hoje, aplicado a bens móveis, vai para os sacerdotes. Mas quem consagrou algo para a manutenção do Templo, numa época em que este não existe, pode resgatá-lo de início por uma soma pequena, descartando o dinheiro — por exemplo, lançando-o ao mar — sendo esta uma permissão válida apenas enquanto o Templo não está de pé.

Bartenura · Arachin 8:6
חֶרְמֵי כֹּהֲנִים. חֲרָמִים שֶׁהֶחְרִימוּם כְּדֵי לְתִתָּם לַכֹּהֲנִים: אֵין לָהֶם פִּדְיוֹן. כְּדִכְתִיב (שם) לֹא יִמָּכֵר וְלֹא יִגָּאֵל. אֲבָל חֶרְמֵי בֶּדֶק הַבַּיִת יֵשׁ לָהֶם פִּדְיוֹן, דְּאַדַּעְתָּא דְהָכִי אַחְרְמִינְהוּ, דְּהָא אֵין רָאוּי לְבֶדֶק הַבַּיִת אֶלָּא מָעוֹת: וַחֲכָמִים אוֹמְרִים סְתָם חֲרָמִים לַכֹּהֲנִים. וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים. וְהַמַּחְרִים מִטַּלְטְלִים בַּזְּמַן הַזֶּה, וְכֵן הַמַּחְרִים קַרְקָעוֹת בְּחוּץ לָאָרֶץ שֶׁדִּינָם כְּמִטַּלְטְלִין לְעִנְיָן זֶה, נוֹתְנָם לַכֹּהֲנִים. וְהַמַּקְדִּישׁ לְבֶדֶק הַבַּיִת בַּזְּמַן הַזֶּה שֶׁאֵין שָׁם בַּיִת, פּוֹדֶה אוֹתָן לְכַתְּחִלָּה בְּדָבָר מֻעָט, וְלֹא יִפְחֹת לְכַתְּחִלָּה מֵאַרְבָּעָה זוּזִים אוֹ קָרוֹב לָזֶה…

Bartenura explica que os cherem dos sacerdotes são aqueles declarados especificamente com a intenção de entregá-los a eles, e que não têm resgate, conforme o próprio versículo declara. Já os cherem destinados à manutenção do Templo têm resgate, pois foram consagrados justamente com essa intenção — e a manutenção do Templo só pode ser custeada com dinheiro, não com o objeto físico em si. Conclui que a halachá segue os sábios: hoje, quem declara cherem bens móveis, ou terras fora da Terra de Israel (que têm o mesmo status de bens móveis para este fim), entrega-os aos sacerdotes. E quem consagra algo para a manutenção do Templo numa época sem Templo pode resgatá-lo de início por uma soma pequena, não inferior a quatro zuz ou próximo disso.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Arachin 28b–29a, sobre a Guemará desta mishná
מתני' חרמי כהנים — חרמים שהחרימם כדי לתתם לכהן, אין להם פדיון, דכתיב לא ימכר ולא יגאל, אבל חרמי בדק הבית יש להם פדיון, דאדעתא דהכי אחרמינהו, דהא אין ראוי לבדק הבית אלא מעות: הלכה כר' יהודה בן בתירא — דסתם חרמים לבדק הבית: ברייתא איפכא תניא — דרבנן אמרי לבדק הבית ורבי יהודה לכהנים: רב גמריה גמיר — מרביה דרביה, אגמריה דמתני' משבשתא היא: ושדינהו — לד' זוזי בנהרא, דהקדש הן לבדק הבית, דאי לכהן לית להו פדיון ולכהן בעי מיתבינהו: בזמן הזה — דליכא בית וליכא פסידא, אלא איסורא הוא דרביעא עלייהו, אפילו לכתחלה נמי.

Rashi explica que os cherem dos sacerdotes, declarados com a intenção específica de entregá-los a eles, não têm resgate porque assim determina o próprio versículo; já os cherem para a manutenção do Templo têm resgate, precisamente porque foram consagrados com essa finalidade, e a manutenção do Templo só pode ser paga em dinheiro. Curiosamente, Rashi registra que a Guemará traz uma tradição segundo a qual a halachá prática seguiu Rabi Yehuda ben Beteira, e não os sábios como a mishná parece indicar — citando o episódio de um homem que declarou cherem seus bens em Pumbedita, e a quem Rav Yehuda instruiu resgatá-los por quatro zuz e lançar essa soma ao rio, tratando-os como destinados à manutenção do Templo. A Guemará explica essa aparente contradição sugerindo que uma baraita traz a posição em ordem inversa, e que a tradição de Rav remonta diretamente a seus mestres. Rashi acrescenta que essa permissão de resgatar por soma pequena vale apenas hoje, quando não há Templo e portanto não há prejuízo real, restando apenas uma proibição formal sobre reter o cherem sem resgatá-lo.