Quem declara cherem seu filho e sua filha, seu escravo e sua escrava hebreus, e seu campo comprado — não são cherem, pois uma pessoa não declara cherem algo que não é seu. Sacerdotes e levitas não declaram cherem — palavras de Rabi Yehuda. Rabi Shimon diz: Os sacerdotes não declaram cherem, pois os cherem são deles. Os levitas declaram cherem, pois os cherem não são deles. Disse Rabi: Parecem corretas as palavras de Rabi Yehuda quanto às terras, pois está dito: “pois é posse perpétua deles”; e as palavras de Rabi Shimon quanto aos bens móveis, pois os cherem não são deles.
— A mishná lista uma série de bens que não podem ser validamente declarados cherem, todos unidos por um único princípio: ninguém pode consagrar aquilo que não lhe pertence de forma plena e irrestrita. O filho e a filha não pertencem ao pai de modo absoluto — especialmente a filha, que ele tem apenas autoridade limitada e temporária de vender enquanto menor, mas não depois. O escravo e a escrava hebreus pertencem ao seu dono apenas por um período determinado, terminando com a alforria compulsória no sétimo ano ou no Jubileu. E o campo comprado pertence ao seu dono apenas até o próximo Jubileu, quando retornará ao vendedor original. Sobre nenhum desses o dono tem controle absoluto e perpétuo, e por isso sua declaração de cherem não produz efeito. A mishná passa então a uma disputa específica sobre sacerdotes e levitas: Rabi Yehuda sustenta que nenhum dos dois pode declarar cherem seus próprios bens. Rabi Shimon distingue: os sacerdotes não podem, porque todo cherem genérico lhes pertence por direito — de modo que consagrar seus próprios bens como cherem não teria sentido prático, já que o bem simplesmente permaneceria com eles; mas os levitas podem, pois o cherem não lhes pertence, sendo destinado aos sacerdotes. Rabi, por fim, propõe uma síntese: reconhece a posição de Rabi Yehuda como correta em relação a terras — pois a Torá afirma explicitamente que a terra dos levitas é sua posse perpétua, inalienável mesmo por eles mesmos — mas aceita a posição de Rabi Shimon em relação a bens móveis, sobre os quais essa restrição perpétua não se aplica.
Rambam explica a base da disputa entre Rabi Yehuda e Rabi Shimon: Rabi Yehuda faz uma analogia entre bens móveis e o campo de herança, apoiado na justaposição das expressões no próprio versículo — “de tudo o que possui, de homem e de animal e de seu campo de herança” — concluindo que, assim como levitas não podem declarar cherem terra, também não podem fazê-lo com bens móveis. Rabi Shimon rejeita essa analogia, permitindo aos levitas consagrar seus bens móveis. Rambam interpreta a posição final de Rabi como uma concordância parcial com Rabi Yehuda apenas quanto às terras, e conclui que a halachá não segue Rabi Yehuda.
Bartenura esclarece que, embora o pai possa vender sua filha menor como escrava, ele já não tem essa autoridade sobre ela quando se torna moça — por isso ela não lhe pertence de modo absoluto, e não pode ser declarada cherem. Sobre os sacerdotes, explica a partir do versículo “todo cherem em Israel será teu”: já que o cherem genérico pertence de qualquer forma aos sacerdotes, não há vantagem alguma em declarar cherem seus próprios bens — o próprio sacerdote os adquiriria de volta, sem repassá-los a outro sacerdote. E interpreta a formulação final de Rabi como uma concordância matizada: Rabi Shimon concorda com Rabi Yehuda quanto às terras, mas discorda quanto aos bens móveis. E conclui que, justamente por Rabi ter se dado ao trabalho de especificar em que ponto Rabi Shimon concorda e em que ponto discorda, isso indica que a halachá segue Rabi Shimon.
Rashi explica que a razão pela qual os sacerdotes não declaram cherem seus próprios bens é que qualquer cherem genérico já lhes pertence por direito bíblico — de modo que, se um sacerdote consagrasse seus próprios bens, ele mesmo os adquiriria de volta, sem qualquer transferência real a outro sacerdote. Sobre os levitas, esclarece que, como o cherem não lhes pertence, se declarassem cherem seus bens móveis, a consagração seria plenamente válida e os bens passariam de fato aos sacerdotes. E sobre a formulação de Rabi, Rashi observa que, justamente por ele ter precisado especificar que as palavras de Rabi Shimon “parecem corretas” especificamente quanto a bens móveis, isso implica que, quanto às terras, Rabi Shimon de fato discorda — concordando ali com Rabi Yehuda.