Uma pessoa declara cherem seus sacrifícios, tanto os santíssimos quanto os de santidade leve. Se é voto, dá o seu valor; e se é dádiva, dá seu benefício. “Este boi é oferenda de elevação” — avaliam quanto uma pessoa quer dar por este boi para elevá-lo como oferenda, ainda que não seja permitido. O primogênito, tanto perfeito quanto com defeito, declara-se cherem sobre ele. Como se resgata? Os resgatadores avaliam quanto uma pessoa quer dar por este primogênito, para dá-lo ao filho de sua filha ou ao filho de sua irmã. Rabi Yishmael diz: Um versículo diz “consagrarás”, e um versículo diz “não consagrarás”. Não é possível dizer “consagrarás”, pois já foi dito “não consagrarás”; e não é possível dizer “não consagrarás”, pois já foi dito “consagrarás”. Como assim? Tu o consagras com consagração de avaliação de benefício, mas não o consagras com consagração de altar.
— A última mishná do perek trata de um caso em que o cherem recai sobre animais já consagrados como sacrifícios — retomando o tema anunciado ao final da mishná anterior. A regra distingue entre dois tipos de sacrifício: se o animal foi separado para cumprir um voto — por exemplo, se a pessoa disse “está sobre mim oferecer uma oferenda de elevação” e depois separou um animal específico para esse voto — ela permanece responsável por sua reposição caso ele se perca, e por isso ele é considerado, na prática, propriedade sua; ao declará-lo cherem, ela deve pagar seu valor integral aos sacerdotes, e ainda cumprir seu voto original com outro animal. Mas se o animal foi consagrado como dádiva voluntária — dizendo diretamente “este boi é oferenda de elevação”, sem voto prévio — ela não é responsável por sua reposição, de modo que ele não lhe pertence de fato; a declaração de cherem recai então apenas sobre o benefício teórico que ela obteria ao oferecê-lo, um valor estimado. A mishná passa então ao primogênito do gado, que sempre pertence ao sacerdote desde o nascimento: como seu dono israelita nunca tem posse plena sobre ele, o cherem não pode recair sobre o animal em si, mas apenas sobre o benefício de designá-lo a um sacerdote específico — tipicamente um parente próximo do próprio dono, como o filho de sua filha ou de sua irmã que seja sacerdote. A mishná fecha com a resolução de Rabi Yishmael para uma aparente contradição entre dois versículos sobre o primogênito: um manda consagrá-lo, outro proíbe consagrá-lo. A solução está em distinguir dois tipos de consagração: o primogênito pode receber uma “consagração de avaliação” — o tipo de benefício estimado descrito nesta própria mishná — mas nunca uma “consagração de altar”, que o tornaria uma oferenda diferente daquela que já é por natureza.
Rambam explica que dizer “este boi é oferenda de elevação” sem voto prévio constitui uma dádiva voluntária, distinta do caso de voto já explicado antes. Sobre o primogênito, esclarece que ele é sempre um presente dado ao sacerdote, seja perfeito seja defeituoso, e que ninguém pode se beneficiar dele sem antes pagar seu valor — exceto o próprio sacerdote a quem ele é designado. Sobre a “consagração de avaliação”, explica que se trata de uma consagração acrescida em dinheiro: esse dinheiro é o que se torna consagrado, enquanto o próprio primogênito permanece pertencendo aos sacerdotes exatamente como já era antes da declaração de cherem.
Bartenura explica que, quando alguém primeiro faz um voto de trazer uma oferenda de elevação e depois separa um animal específico para cumpri-lo, ele permanece responsável por repô-lo caso morra ou seja roubado — e por isso o animal é considerado sua propriedade real; ao declará-lo cherem, ele paga seu valor integral ao sacerdote, e ainda oferece o animal (ou outro) para cumprir seu voto original, já que este certamente admite resgate. Mas se a oferenda foi uma dádiva voluntária, sem essa responsabilidade de reposição, o cherem não recai sobre o animal em si — que nunca foi verdadeiramente seu — mas apenas sobre o benefício que ele obteria com ele. Sobre o primogênito, explica que ele mesmo nunca é passível de cherem, pois nunca pertenceu ao seu dono israelita, mas sempre ao sacerdote. E localiza precisamente os dois versículos da contradição de Rabi Yishmael: “consagrarás” em Devarim 15:19, e “não consagrarás” em Vayikra 27:26 — explicando que a “consagração de avaliação” é a designação de seu benefício mediante pagamento de dinheiro.
Rashi explica a transição para o tema do cherem sobre sacrifícios, esclarecendo a aparente dificuldade: como pode alguém declarar cherem um animal já consagrado, se ele não lhe pertence mais? A resposta está na distinção entre voto e dádiva. Se o animal foi separado para cumprir um voto anterior, o consagrante continua responsável por sua reposição em caso de morte ou roubo — e por isso é, na prática, considerado seu, admitindo cherem sobre seu valor pleno, enquanto ele cumpre seu voto original com outro animal. Mas se foi uma dádiva voluntária, sem essa responsabilidade, o cherem certamente não recai sobre o corpo do animal, que nunca foi seu. Sobre o primogênito, Rashi confirma que ele nunca é passível de cherem em si mesmo, pertencendo sempre ao sacerdote. E localiza com precisão os dois versículos da contradição resolvida por Rabi Yishmael, explicando que a “consagração de altar” proibida se refere a atribuir ao primogênito o nome de outra oferenda distinta daquela que ele já é por natureza.