Seder Kodashim · Massechet Arachin · Perek Chet · Mishná 4 de 7

O cherem parcial: por que ninguém pode consagrar tudo o que possui

מַחֲרִים אָדָם מִצֹּאנוֹ וּמִבְּקָרוֹ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Mudança de assunto: as leis do cherem (bens declarados proscritos ao Templo ou aos sacerdotes); uma pessoa pode consagrar parte de seu rebanho, de seus escravos e de seu campo de herança, mas se consagrar tudo o que possui a declaração não tem efeito; e o argumento a fortiori de Rabi Elazar ben Azarya

Uma pessoa declara cherem parte de seu rebanho miúdo e de seu gado, de seus escravos e escravas cananeus, e de seu campo de herança. Mas se declarou cherem tudo, não é cherem — palavras de Rabi Elazar. Disse Rabi Elazar ben Azarya: Se para o Altíssimo uma pessoa não tem permissão de declarar cherem todos os seus bens, quanto mais deve uma pessoa ser obrigada a poupar seus bens.

— O Perek Chet muda de assunto neste ponto, deixando as regras do leilão de resgate para tratar do cherem — a declaração pela qual alguém consagra um bem, tornando-o proscrito, seja para uso do Templo, seja, como se verá adiante, especificamente para os sacerdotes. A mishná estabelece que uma pessoa pode declarar cherem uma parte de suas posses — parte de seu rebanho miúdo, de seu gado, de seus escravos e escravas cananeus, ou de seu campo de herança — mas não pode declarar cherem a totalidade delas; se o fizer, segundo Rabi Elazar, a declaração simplesmente não produz efeito algum, nem mesmo sobre a parte que, isoladamente, seria válida. Rabi Elazar ben Azarya acrescenta um argumento a fortiori que vai além do caso específico do cherem: se mesmo em relação ao Altíssimo — a quem, em princípio, tudo pertence e a quem seria natural dedicar tudo — a pessoa não tem permissão de consagrar a totalidade de seus bens, com muito mais razão ela deve zelar por seus próprios bens em qualquer outra circunstância, sem dilapidá-los inteiramente, nem mesmo em benefício de outra pessoa.

מַחֲרִים אָדָם מִצֹּאנוֹ וּמִבְּקָרוֹ, מֵעֲבָדָיו וּמִשִּׁפְחוֹתָיו הַכְּנַעֲנִים, וּמִשְּׂדֵה אֲחֻזָּתוֹ. וְאִם הֶחֱרִים אֶת כֻּלָּן, אֵינָן מֻחְרָמִין, דִּבְרֵי רַבִּי אֶלְעָזָר. אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה, מָה אִם לַגָּבֹהַּ, אֵין אָדָם רַשַּׁאי לְהַחֲרִים אֶת כָּל נְכָסָיו, עַל אַחַת כַּמָּה וְכַמָּה שֶׁיְּהֵא אָדָם חַיָּב לִהְיוֹת חָס עַל נְכָסָיו:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Arachin 8:4
מחרים אדם מצאנו ומבקרו ומעבדיו ומשפחותיו כו': אמר רחמנא "מכל אשר לו" מאדם ובהמה ומשדה אחוזתו, ו"מן" מורה על מקצת, לפיכך אין ראוי להחרים אלא מקצת, ואם עבר והחרים הכל — מוחרם, כתנא קמא.

Rambam explica que o fundamento da regra está na própria linguagem da Torá: quando o versículo diz “de tudo o que possui”, a partícula “de” indica uma parte, não a totalidade — por isso, apenas uma parte dos bens deve ser declarada cherem. Mas se, transgredindo essa diretriz, a pessoa declarou cherem a totalidade de seus bens, a consagração é válida, opinião que segue o primeiro tanna da mishná, e não Rabi Elazar, que a invalida por completo.

Bartenura · Arachin 8:4
מַחֲרִים אָדָם מִצֹּאנוֹ. מִקְצָת צֹאנוֹ, אוֹמֵר הֲרֵי הֵן חֵרֶם וְנוֹתְנָן לַכֹּהֵן: וְאִם הֶחְרִים אֶת כֻּלָּן. שֶׁלֹּא שִׁיֵּר לְעַצְמוֹ כְּלוּם: אֵינָן מֻחְרָמִין. דְּאָמַר קְרָא (ויקרא כז) מִכָּל אֲשֶׁר לוֹ מֵאָדָם וּמִשְּׂדֵה אֲחֻזָּתוֹ. מִכָּל אֲשֶׁר לוֹ, אֵלּוּ מִטַּלְטְלִין וְלֹא כָּל מִטַּלְטְלִין. מֵאָדָם, אֵלּוּ עֲבָדָיו וְשִׁפְחוֹתָיו כְּנַעֲנִים וְלֹא כֻלָּן. וּמִשְּׂדֵה אֲחֻזָּתוֹ, וְלֹא כֻּלָּהּ. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה, אֶלָּא לְכַתְּחִלָּה לֹא יַחְרִים אֶת כֻּלָּן, אֲבָל אִם הֶחְרִים, מֻחְרָמִים: לִהְיוֹת חָס עַל נְכָסָיו. שֶׁלֹּא יְבַזְבְּזֵם לַהֶדְיוֹט.

Bartenura explica que quando alguém declara cherem parte de seu rebanho, ele diz “eis que é cherem” e o entrega ao sacerdote; e que declarar cherem a totalidade dos bens significa não deixar nada para si. Deriva a exigência de parcialidade diretamente do versículo bíblico: cada expressão — “de tudo o que possui”, “de homem”, “de seu campo de herança” — é lida como uma limitação, indicando bens móveis mas não todos, escravos cananeus mas não todos, campo de herança mas não sua totalidade. E esclarece que a halachá não segue Rabi Elazar ben Azarya (nem Rabi Elazar, autor da opinião anônima) quanto à invalidação total: a princípio, ninguém deve declarar cherem a totalidade de seus bens, mas se o fez, a declaração é válida. Sobre “poupar seus bens”, esclarece que significa não dilapidá-los em favor de um leigo qualquer.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Arachin 28a, sobre a Guemará desta mishná
מתני' מצאנו — מקצת צאנו, אומר הרי הן חרם ונותנן לכהן: את כולם — שלא שייר לעצמו כלום: להיות חס על נכסיו — שלא יבזבזם להדיוט: מכל אשר לו — היינו מטלטלין ולא כל מטלטלין: מאדם — עבדים הכנענים: אך כל חרם — אכין ורקין מיעוטין: בדיסתורן — שיהא אריס לאחרים ויקבל שדות למחצה ולשליש ולרביע: אבל מטלטלין אימא ליחרמינהו כולהו — כתב רחמנא "מכל אשר לו" ולא כל אשר לו, דהיינו מטלטלין: המבזבז — לעניים, חומש — דגמרינן מיעקב, דכתיב ביה תרין עישורין.

Rashi explica que declarar cherem parte do rebanho significa dizer “eis que são cherem” e entregá-los ao sacerdote, enquanto declarar cherem a totalidade significa não deixar nada para si — e o cuidado de “poupar seus bens” visa evitar que sejam dilapidados em favor de um leigo qualquer. Sobre a exegese do versículo, explica cada termo como uma limitação: “de tudo o que possui” refere-se a bens móveis, mas não a todos eles; “de homem” refere-se aos escravos cananeus, mas não a todos; e a partícula “porém” que abre o versículo do cherem, no estilo hermenêutico de “akhin ve-rakin”, sempre introduz uma limitação. Sobre o campo, explica que mesmo depois de declarado cherem em parte, o dono pode continuar a trabalhar o restante como arrendatário de terceiros, recebendo metade, um terço ou um quarto da colheita. E, de passagem, traz a fonte da regra geral de que quem distribui caridade não deve exceder um quinto de seus bens, derivada do relato de Jacó, que prometeu separar duplamente o dízimo de tudo o que recebesse.