Quem consagra seu campo num momento em que não há Jubileu, dizem-lhe: Abre tu primeiro — pois o dono dá o quinto, e qualquer outra pessoa não dá o quinto. Houve um caso de alguém que consagrou seu campo por causa de sua má qualidade. Disseram-lhe: Abre tu primeiro. Ele disse: Eis que é meu por um issar. Rabi Yosei diz: Este não disse senão pelo valor de um ovo, pois o consagrado se resgata com dinheiro ou com o equivalente a dinheiro. Disseram-lhe: Alcançaste-o — e resulta que ele perde o issar, e seu campo permanece diante dele.
— O Perek Chet abre com o mecanismo do leilão de resgate para o campo de herança consagrado num período sem Jubileu — quando, portanto, ele não se resgata pela tabela fixa de cinquenta selá por bet-kor, mas pelo seu valor real de mercado. Nesse leilão, os tesoureiros do Templo pedem ao próprio dono que declare primeiro quanto está disposto a pagar pelo resgate, antes de abrir a oferta a qualquer outra pessoa. A razão dada pela mishná é que apenas o dono, ao resgatar, acrescenta um quinto ao valor — qualquer outro comprador paga somente o valor de mercado, sem esse acréscimo — de modo que é vantajoso para o tesouro do Templo que seja justamente ele quem primeiro fixe o preço de referência. A mishná então narra um caso concreto: um homem consagrou um campo de má qualidade, cuja manutenção custava mais do que produzia, e ao ser convidado a abrir o lance, declarou-o seu por apenas um issar, moeda de pouco valor. Rabi Yosei defende que, na realidade, ele não disse issar, mas sim o valor equivalente a um ovo — pois bens consagrados podem ser resgatados tanto com dinheiro quanto com seu equivalente em valor. De qualquer forma, o tesoureiro aceitou a palavra do homem ao pé da letra: alcançaste o que pediste, e o campo é teu por essa soma simbólica — de modo que ele efetivamente perde o pequeno valor pago, mas recupera integralmente a posse do campo.
Rambam observa que algumas versões do texto trazem uma formulação ligeiramente diferente da abertura da mishná, mas com o mesmo sentido. Explica que o quinto mencionado é sempre um quarto do valor original do bem — de modo que o capital somado ao seu quinto perfaça cinco partes do capital — regra válida para todo quinto mencionado na Torá. O issar, esclarece, equivale a oito prutot. Sobre a disputa entre Rabi Yosei e os sábios, Rambam explica que os sábios sustentam que não se resgata um bem consagrado por menos do que o valor que faça seu quinto valer ao menos uma prutá — portanto, não menos de quatro prutot — enquanto Rabi Yosei não se preocupa com essa exigência, permitindo o resgate por qualquer soma, mesmo que seu quinto não chegue a valer uma prutá. Rambam conclui que a halachá não segue Rabi Yosei.
Bartenura explica que a mishná fala do período em que o Jubileu não vigora. Sobre a pergunta “abre tu primeiro”, esclarece que se refere a quanto o dono quer oferecer pelo resgate, e enumera três razões pelas quais se pede isso justamente ao dono: primeiro, porque só ele acrescenta o quinto; segundo, porque o preceito de resgatar recai primariamente sobre o próprio senhor do bem; terceiro, porque uma pessoa deseja mais o que já é seu do que qualquer outra coisa. Explica ainda que a expressão “por causa de sua má qualidade” significa que a manutenção do campo custava mais do que ele produzia. O issar equivale a oito prutot. E sobre a disputa entre o primeiro tanna e Rabi Yosei, esclarece que os sábios sustentam que não se resgata um bem consagrado por menos de quatro prutot — para que seu quinto valha ao menos uma prutá — e a halachá segue o primeiro tanna.
Rashi explica que a mishná trata do período em que o Jubileu não vigora, e que se pede ao dono que declare primeiro quanto deseja pagar pelo resgate justamente por causa do ganho que isso traz ao Templo. E precisa por que a mishná especifica esse período: quando o Jubileu vigora, não há necessidade de perguntar ao dono por quanto resgatará o campo, pois seu valor já está fixado — um bet-kor por cinquenta selá — e a mishná trata aqui de um campo de herança que, na ausência do Jubileu, se resgata por seu valor real de mercado, como se ensina ao final do capítulo, que a lei do campo de herança só vigora quando o Jubileu vigora. Sobre “por causa de sua má qualidade”, explica que sua manutenção custava mais do que produzia. E sobre a disputa de Rabi Yosei, esclarece que ele sustenta que o homem não disse issar, mas sim o valor de um ovo, pois o consagrado se resgata tanto em dinheiro quanto em seu equivalente. A Guemará, cita Rashi, questiona se de fato se pede ao dono ou se ele é coagido a abrir o lance primeiro — concluindo que se trata de coação — pois o preceito de resgatar recai sobre o próprio senhor do bem, como indica o versículo sobre a venda do campo não resgatado, mostrando que o resgate precede a venda.