Aquele que diz: Meu peso está sobre mim — dá o seu peso. Se prata, prata; se ouro, ouro. Houve um caso com a mãe de Yirmatia, que disse: O peso de minha filha está sobre mim — e subiu a Jerusalém, e a pesaram, e deu o peso dela em ouro. O peso de minha mão está sobre mim — como se pesa a sua mão? Rabi Yehuda diz: Enche-se um barril de água e introduz-se a mão até o cotovelo, e pesa-se carne de asno, e tendões, e ossos, e coloca-se dentro do barril até que se encha novamente. Disse Rabi Yosei: E como é possível igualar carne com carne, e ossos com ossos? Antes, avalia-se a mão — quanto ela é digna de pesar.
— Esta mishná abre o Perek Hei com um tema novo dentro do tratado: não mais os arachin propriamente ditos — as somas fixas que a Torá estabelece por idade e sexo, tratadas nos capítulos anteriores —, mas os votos de doar o próprio peso (mishcal) ou o valor de mercado real de si mesmo ou de um membro do corpo. Diferentemente do valor fixo, que independe do peso ou da riqueza de quem vota, aqui a soma a pagar é literal: quem promete seu peso deve efetivamente subir a uma balança e doar seu peso em metal, na espécie que especificou — prata, se disse prata; ouro, se disse ouro. O caso da mãe de Yirmatia ilustra esse voto histórico: ela prometeu o peso de sua filha e, ao subir a Jerusalém, pesou-a e pagou o peso inteiro em ouro. A mishná passa então a um caso mais difícil: o voto de doar o peso de um braço isoladamente, que não pode ser posto diretamente sobre uma balança sem separá-lo do corpo. Rabi Yehuda propõe um método de deslocamento: enche-se um barril de água até a borda, mergulha-se o braço até o cotovelo — fazendo a água transbordar na medida exata do volume do braço —, e depois preenche-se o espaço vazio com carne, tendões e ossos de asno até que a água volte ao nível original; pesa-se então essa carne e esses ossos, que correspondem ao volume — e presume-se, ao peso — do braço. Rabi Yosei objeta: a densidade da carne de asno não é necessariamente igual à da carne humana, nem a de seus ossos à dos ossos humanos, de modo que o volume equivalente não garante o peso equivalente; por isso, ele propõe que o tribunal, em vez de recorrer a esse método físico, faça uma avaliação estimada de quanto a mão provavelmente pesaria.
Rambam explica que todo o teor desta mishná trata das leis de quem vota doar seu peso, especificando ou não o metal. Se especificou — prata ou ouro — paga conforme especificou; se disse apenas “meu peso está sobre mim” sem especificar, observa-se a condição da pessoa: se é conhecidamente rica, presume-se que teve em mente um valor elevado, e por isso cobra-se dela o peso no metal mais nobre — o ouro —, trazendo como prova o caso da mãe de Yirmatia; mas se não é conhecida por riqueza, cobra-se o peso conforme o costume local de pesar objetos, mesmo que seja algo de baixo valor, pois, não sabendo de sua riqueza, aplica-se o padrão mais modesto do lugar. Quanto ao cotovelo: embora tecnicamente a “mão” se estenda até a articulação do braço, o princípio decisivo — já explicado no tratado de Nedarim — é que em matéria de votos segue-se a linguagem corrente das pessoas, que costumavam chamar de “mão” o braço inteiro até o cotovelo; por isso o braço é introduzido na água até ali. A água necessariamente transborda, pois desloca o volume ocupado pela mão e pelo braço; ao retirar o braço do barril, a água fica com esse volume em falta, e então se acrescenta carne e ossos como descrito, enchendo o barril até o nível anterior; pesa-se então essa carne e esses ossos, que correspondem exatamente ao peso do braço — caso a carne fosse idêntica em espécie e proporção à carne humana, e o mesmo para os ossos. E a lei segue Rabi Yosei.
Bartenura explica que quem especificou o metal paga conforme especificou, e que a mishná ensina que, mesmo sem especificação, o voto vale — desde que se trate de algo que costuma ser pesado naquele lugar, ainda que fosse piche ou cebolas, bastando que ali houvesse o costume de vendê-los por peso. Sobre a mãe de Yirmatia, explica — segundo a Guemará — que a mishná está incompleta e deve ser lida como: se a pessoa é notoriamente importante, mesmo sem especificar avalia-se conforme sua honra, como no caso dessa mulher, que era conhecida por sua riqueza e por isso pagou o peso de sua filha em ouro. Sobre o peso da própria mão, nota que a pessoa poderia manipular o resultado apertando ou relaxando o braço, e por isso é necessário o método objetivo do deslocamento de água. Explica que, em matéria de votos, segue-se a linguagem popular, que na época chamava de “mão” o braço até o cotovelo; ao introduzi-lo na água, esta transborda na medida do volume ocupado, e depois se recompõe esse volume com carne, tendões e ossos de asno, cujo peso presumidamente equivale ao humano, até que o barril volte ao nível anterior — e pesa-se então esse conjunto. E resume a objeção de Rabi Yosei: pode haver mais ou menos tendões e ossos na carne de asno usada do que na mão real, tornando o peso impreciso — e a lei segue Rabi Yosei, que prefere a avaliação estimada direta.
Rashi identifica “Yirmatia” como nome de mulher e não de lugar. Sobre o voto do peso da mão, observa que o resultado poderia ser manipulado — a pessoa consegue tornar o braço mais pesado ou mais leve conforme o esforço muscular —, o que exige o método objetivo. Explica o procedimento: enche-se um barril de água e nele se introduz o braço até o cotovelo — que ele identifica com o termo em língua estrangeira usado na época para essa articulação —; ao introduzi-lo, a água transborda, e ao retirá-lo o barril fica com um vazio correspondente ao volume do braço. Explica então por que se usa carne de asno: seu peso equivale ao peso de carne humana, e a mistura de tendões e ossos deve refletir a proporção existente na mão real, pois tendões e ossos não pesam o mesmo que carne; completa-se o barril até o nível anterior — alcançando assim o volume exato do braço —, e paga-se conforme esse peso.