Seder Kodashim · Massechet Arachin · Perek Dalet · Mishná 4 de 4

Idade, sexo e o dia que não se soma: a analogia verbal dos anos limítrofes

שָׁנִים בַּנִּדָר כֵּיצַד, יֶלֶד שֶׁהֶעֱרִיךְ אֶת הַזָּקֵן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Os princípios de idade e sexo ilustrados; o dia trinta, o quinto e o vigésimo ano tratados como abaixo do limite, por analogia verbal com o ano sessenta

Os anos seguem o avaliado: como assim? Uma criança que avaliou um idoso dá o valor de idoso, e um idoso que avaliou uma criança dá o valor de criança. E os valores fixos seguem o avaliado: como assim? Um homem que avaliou uma mulher dá o valor de mulher, e uma mulher que avaliou um homem dá o valor de homem. E o valor segue o momento da avaliação: como assim? Se o avaliou quando tinha menos de cinco anos e ele se tornou maior de cinco anos, ou menos de vinte anos e se tornou maior de vinte anos, dá conforme o momento da avaliação. O dia trinta é como o que está abaixo dele. O quinto ano e o vigésimo ano são como o que está abaixo deles, como está dito: e se for de sessenta anos para cima, se homem — eis que aprendemos, a respeito de todos eles, a partir do ano sessenta: assim como o ano sessenta é como o que está abaixo dele, também o quinto ano e o vigésimo ano são como o que está abaixo deles. É assim? Se fizemos o ano sessenta como o que está abaixo dele para agravar, faremos o quinto ano e o vigésimo ano como o que está abaixo deles para aliviar? Ensina o versículo: ano, ano — para uma analogia verbal. Assim como o “ano” dito a respeito do ano sessenta é como o que está abaixo dele, também o “ano” dito a respeito do quinto ano e do vigésimo ano é como o que está abaixo deles, seja para aliviar, seja para agravar. Rabi Elazar diz: até que se tornem, além dos anos, um mês e um dia.

— Esta última mishná do Perek Dalet retoma, um a um, os quatro princípios enunciados na abertura do capítulo, ilustrando os dois que ainda não haviam sido exemplificados — a idade e o sexo — e depois aprofunda o critério do momento da avaliação com uma discussão sobre limites etários. Sobre a idade: como o valor de um idoso, a partir dos sessenta anos, é menor do que o de uma criança entre vinte e sessenta, uma criança que avaliou um idoso paga o valor mais alto correspondente ao idoso, e vice-versa — pois, como já vimos, a soma segue sempre a idade do avaliado, não a de quem vota. Sobre o sexo: o valor de uma mulher difere do de um homem, e a soma correta é sempre a do avaliado, não a de quem fez o voto. A mishná então retorna ao critério do momento da avaliação, tratando dos limites exatos das faixas etárias que a Torá estabelece — um mês, cinco anos, vinte anos e sessenta anos. O trigésimo dia de vida ainda é tratado como “abaixo” do limite de um mês, isto é, como se a criança ainda não tivesse completado um mês, situação em que não há valor algum. A mishná então levanta a pergunta se o mesmo vale para os limites de cinco e vinte anos: aprendemos por analogia com o versículo sobre os sessenta anos, que trata quem está exatamente naquele ano como “abaixo” do limite — e essa mesma leitura poderia parecer se estender aos limites de cinco e vinte. Mas a mishná objeta: se, no caso dos sessenta anos, tratar o ano exato como “abaixo” serve para agravar — pois a soma para quem tem menos de sessenta é maior do que para quem já os completou —, aplicar a mesma lógica aos limites de cinco e vinte serviria para aliviar, já que ali a soma menor é justamente a de quem está abaixo do limite. Não seria arbitrário aplicar a mesma leitura em direções opostas? A resposta está numa analogia verbal (guezerá shavá): a palavra “ano” aparece tanto a respeito dos sessenta quanto dos cinco e vinte anos, e essa repetição textual ensina que a mesma regra vale em ambos os casos, seja para agravar, seja para aliviar. Rabi Elazar discorda quanto ao alcance exato dessa regra e sustenta que a pessoa só é considerada como tendo completado a idade limítrofe depois de ultrapassá-la em um mês e um dia inteiros.

שָׁנִים בַּנִּדָר כֵּיצַד, יֶלֶד שֶׁהֶעֱרִיךְ אֶת הַזָּקֵן, נוֹתֵן עֵרֶךְ זָקֵן. וְזָקֵן שֶׁהֶעֱרִיךְ אֶת הַיֶּלֶד, נוֹתֵן עֵרֶךְ יֶלֶד. וַעֲרָכִים בַּנֶּעֱרָךְ כֵּיצַד, אִישׁ שֶׁהֶעֱרִיךְ אֶת הָאִשָּׁה, נוֹתֵן עֵרֶךְ אִשָּׁה. וְאִשָּׁה שֶׁהֶעֱרִיכָה אֶת הָאִישׁ, נוֹתֶנֶת עֵרֶךְ אִישׁ. וְהָעֵרֶךְ בִּזְמַן הָעֵרֶךְ כֵּיצַד, הֶעֱרִיכוֹ פָּחוּת מִבֶּן חָמֵשׁ וְנַעֲשָׂה יוֹתֵר עַל בֶּן חָמֵשׁ, פָּחוּת מִבֶּן עֶשְׂרִים וְנַעֲשָׂה יוֹתֵר עַל בֶּן עֶשְׂרִים, נוֹתֵן כִּזְמַן הָעֵרֶךְ. יוֹם שְׁלֹשִׁים, כִּלְמַטָּה מִמֶּנּוּ. שְׁנַת חָמֵשׁ וּשְׁנַת עֶשְׂרִים, כִּלְמַטָּה מִמֶּנּוּ, שֶׁנֶּאֱמַר (ויקרא כז), וְאִם מִבֶּן שִׁשִּׁים שָׁנָה וָמַעְלָה אִם זָכָר, הֲרֵי אָנוּ לְמֵדִים בְּכֻלָּם מִשְּׁנַת שִׁשִּׁים. מַה שְּׁנַת שִׁשִּׁים כִּלְמַטָּה מִמֶּנָּה, אַף שְׁנַת חָמֵשׁ וּשְׁנַת עֶשְׂרִים כִּלְמַטָּה מִמֶּנָּה. הֵן. אִם עָשָׂה שְׁנַת שִׁשִּׁים כִּלְמַטָּה מִמֶּנָּה לְהַחֲמִיר, נַעֲשֶׂה שְׁנַת חָמֵשׁ וּשְׁנַת עֶשְׂרִים כִּלְמַטָּה מִמֶּנָּה לְהָקֵל. תַּלְמוּד לוֹמַר, שָׁנָה שָׁנָה, לִגְזֵרָה שָׁוָה. מַה שָּׁנָה הָאֲמוּרָה בִשְׁנַת שִׁשִּׁים, כִּלְמַטָּה מִמֶּנָּה, אַף שָׁנָה הָאֲמוּרָה בִשְׁנַת חָמֵשׁ וּשְׁנַת עֶשְׂרִים, כִּלְמַטָּה מִמֶּנָּה, בֵּין לְהָקֵל בֵּין לְהַחֲמִיר. רַבִּי אֶלְעָזָר אוֹמֵר, עַד שֶׁיִּהְיוּ יְתֵרוֹת עַל הַשָּׁנִים חֹדֶשׁ וְיוֹם אֶחָד:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Vayikra 27:7
וְ֠אִ֠ם מִבֶּן־שִׁשִּׁ֨ים שָׁנָ֤ה וָמַ֙עְלָה֙ אִם־זָכָ֔ר וְהָיָ֣ה עֶרְכְּךָ֔ חֲמִשָּׁ֥ה עָשָׂ֖ר שָׁ֑קֶל וְלַנְּקֵבָ֖ה עֲשָׂרָ֥ה שְׁקָלִֽים׃
“E se for de sessenta anos para cima, se homem, será o teu valor quinze siclos, e para a mulher, dez siclos.”
Vayikra 27:8
וְאִם־מָ֥ךְ הוּא֙ מֵֽעֶרְכֶּ֔ךָ וְהֶֽעֱמִידוֹ֙ לִפְנֵ֣י הַכֹּהֵ֔ן וְהֶעֱרִ֥יךְ אֹת֖וֹ הַכֹּהֵ֑ן עַל־פִּ֗י אֲשֶׁ֤ר תַּשִּׂיג֙ יַ֣ד הַנֹּדֵ֔ר יַעֲרִיכֶ֖נּוּ הַכֹּהֵֽן׃
“E se ele for pobre demais para o valor, será apresentado diante do sacerdote, e o sacerdote o avaliará: segundo o que a mão de quem vota alcançar, o sacerdote o avaliará.”
O versículo de Vayikra 27:7, citado explicitamente pela mishná, é a base textual para o limite dos sessenta anos e para a expressão “e se for... para cima”, da qual a Guemará deriva, por analogia verbal com a repetição da palavra “ano” nos versículos anteriores da mesma passagem (Vayikra 27:3–6), que os limites de cinco e vinte anos também incluem o ano exato como “abaixo” do patamar seguinte. O segundo versículo, Vayikra 27:8, embora não citado literalmente nesta mishná, é a fonte geral de todo o Perek Dalet, de onde deriva o princípio de que a capacidade financeira de quem vota — “segundo o que a mão de quem vota alcançar” — determina o valor a pagar.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Arachin 4:4
השנים בנידר כיצד ילד שהעריך את הזקן נותן כו': יום שלשים כלמטה ממנו שנת חמשים כו': מן הכתוב בתורה יתבאר לך כל זה וכבר זכרנו אותו בתחלת המסכת שערך בן חמשה פחות מן עשרים וערך בן עשרים פחות מערך בן ששים וערך מי שעבר ששים פחות ערך ממי שלא הגיע לששים ולפיכך כשאנו אומרים ששנת ששים כלמטה הימנה הרי זה מוסיף בערך לפי שהוא נ' שקלים והענין יתבאר לך כשתעיין מה שזכרנו בתחלת המסכת ור' אליעזר אומר נאמר בשנת ששים ומעלה ונאמר בפדיון בכור מבן חדש ומעלה כמו שהוא שם חודש ויום א' שבחדש ויום אחד חייב בפדיון בלי ספק לדברי הכל כמו שנתבאר בשמיני מבכורות כן מעלה הנאמר בשנת ששים עד שיוסיף על ששים חדש ויום אחד ולמד שנת חמש ושנת עשרים משנת ששים בג"ש כמו שעשה ת"ק ואין הלכה כר' אליעזר:

Rambam remete o leitor ao início do tratado, onde já se explicou que o valor da criança entre cinco e vinte anos é menor do que o do adulto entre vinte e sessenta, e que o valor de quem passou dos sessenta é menor do que o de quem ainda não os alcançou — por isso, tratar o próprio ano sessenta como “abaixo” do limite na verdade aumenta o valor a pagar, já que a soma para menores de sessenta é de cinquenta siclos. E explica a posição de Rabi Eliezer: assim como no versículo sobre o resgate do primogênito, “a partir de um mês e para cima”, todos concordam que a obrigação só se completa após um mês e um dia inteiros, também aqui, a expressão “para cima” a respeito do ano sessenta só se aplica depois que a pessoa ultrapassa os sessenta anos em um mês e um dia — e dessa mesma base se derivam, por analogia verbal, os limites de cinco e vinte anos. Mas a lei não segue Rabi Eliezer.

Bartenura · Arachin 4:4
יֶלֶד. מִבֶּן עֶשְׂרִים וְעַד בֶּן שִׁשִּׁים, דַּהֲוֵי עֶרְכּוֹ חֲמִשִּׁים שְׁקָלִים: נוֹתֵן כִּזְמַן הָעֵרֶךְ. דִּכְתִיב (ויקרא כז) כְּעֶרְכְּךָ יָקוּם, אֵינוֹ נוֹתֵן אֶלָּא כִּזְמַן הָעֵרֶךְ: יוֹם שְׁלֹשִׁים כִּלְמַטָּה. אִם אָמַר עֵרֶךְ פְּלוֹנִי קָטָן עָלָי, וְאוֹתוֹ קָטָן הָיָה בְּאוֹתוֹ יוֹם בֶּן שְׁלֹשִׁים, הָוֵי כִלְמַטָּה וְלֹא אָמַר כְּלוּם. דְּאֵין עֵרֶךְ לְפָחוּת מִבֶּן חֹדֶשׁ. דְּהָכִי כְּתִיב [שָׁם] וְאִם מִבֶּן חֹדֶשׁ: מִבֶּן שִׁשִּׁים שָׁנָה וָמַעְלָה. מַשְׁמַע שֶׁשָּׁלְמָה שְׁנַת שִׁשִּׁים וְאָז הוּא נִדּוֹן כְּשִׁשִּׁים, אֲבָל בִּשְׁנַת שִׁשִּׁים נִדּוֹן כְּיֶלֶד: הֵן אִם עָשִׂינוּ. בִּתְמִיהָה. כְּלוֹמַר, וְכִי כֵן הוּא, אִם עָשִׂינוּ שְׁנַת שִׁשִּׁים כִּלְמַטָּה לְהַחֲמִיר דְּעֵרֶךְ גָּדוֹל יֵשׁ לְפָחוּת מִבֶּן שִׁשִּׁים חֲמִשִּׁים סֶלַע, וּלְיוֹתֵר מִבֶּן שִׁשִּׁים אֵינוֹ אֶלָּא חֲמִשָּׁה עָשָׂר: כִּלְמַטָּה מִמֶּנָּה לְהָקֵל. דְּעֵרֶך יוֹתֵר עַל בֶּן עֶשְׂרִים, גָּדוֹל הוּא מִפָּחוּת מִבֶּן עֶשְׂרִים. וְכֵן בְּבֶן חָמֵשׁ. כְּדִכְתִיבֵי בִקְרָאֵי: רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר. לְעוֹלָם שְׁנַת חָמֵשׁ וּשְׁנַת עֶשְׂרִים וּשְׁנַת שִׁשִּׁים כִּלְמַטָּה, עַד שֶׁתִּשְׁלַם כָּל הַשָּׁנָה וְחֹדֶשׁ וְיוֹם אֶחָד מִשָּׁנָה הָאַחֶרֶת:

Bartenura precisa que “criança”, nesta mishná, designa quem tem entre vinte e sessenta anos, cujo valor é cinquenta siclos. Explica que o valor é pago sempre conforme o momento em que a avaliação foi feita, como está escrito “segundo o teu valor há de ficar estabelecido”. Sobre o trigésimo dia: se alguém disse “o valor de tal criança pequena está sobre mim”, e essa criança tinha exatamente trinta dias naquele dia, o voto é como se estivesse abaixo do limite de um mês, e a pessoa não disse nada de válido, pois não há valor fixo para quem tem menos de um mês. E sobre “de sessenta anos para cima”: isso indica que o ano sessenta precisa estar completo para que a pessoa seja julgada como idosa — durante o próprio ano sessenta, ainda é julgada como criança. Bartenura explica a objeção da mishná: se tratamos o ano sessenta como abaixo do limite para agravar — pois o valor maior, de cinquenta selá, cabe a quem tem menos de sessenta, e a quem passou dos sessenta cabem apenas quinze —, aplicar a mesma leitura aos limites de cinco e vinte anos serviria para aliviar, já que o valor maior cabe a quem já os ultrapassou. E, por fim, apresenta a posição de Rabi Eliezer, segundo a qual os três limites etários só se completam quando a pessoa ultrapassa o ano em um mês e um dia inteiros.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Arachin 18a, sobre a Guemará desta mishná
מתני' ילד — מבן כ' ועד בן ששים דהוי ערכו נ' שקלים: הערכין בנערך — ולא אזלינן בקצב הערך בתר מעריך: מתני' יום שלשים כלמטה — ואם אמר ערך פלוני קטן עלי ואותו קטן היה באותו יום בן ל' הוי כלמטה ולא אמר כלום ואין ערך לפחות מבן חדש דהכי כתיב ואם מבן חדש וגו': ומעלה — משמע ששלמה שנת ששים ואז הוא נידון כזקן אבל בשנת ששים נידון כילד: הן אם עשינו — בתמיה. כלומר וכי כן הוא אם עשינו שנת ששים כלמטה להחמיר דערך גדול יש לו לפחות מבן ששים נ' סלעים וליותר על בן ששים אין ערך אלא ט"ו סלעים: להקל — דערך יותר על בן כ' יותר גדול הוא מפחות מבן עשרים וכן בבן חמש כדכתיב בקראי: ר"א אומר — לעולם שנת חמש ושנת עשרים ושנת ששים כלמטה עד שתשלם כל השנה וחדש ויום א' משנה האחרת:

Rashi identifica “criança”, nesta mishná, como quem tem entre vinte e sessenta anos, cujo valor fixo é de cinquenta siclos, e confirma que os valores seguem sempre quem é avaliado, não quem avalia. Sobre o trigésimo dia, explica que quem vota sobre uma criança pequena que tem exatamente trinta dias não disse nada válido, pois não há valor fixo para menos de um mês, conforme o próprio texto bíblico. Sobre “para cima”, esclarece que isso indica que o ano sessenta deve estar completo para que a pessoa seja julgada como idosa, e explica a objeção da mishná: tratar o ano sessenta como abaixo do limite serve para agravar, pois o valor de cinquenta selá cabe a quem tem menos de sessenta anos, enquanto acima disso o valor é de apenas quinze; já nos limites de cinco e vinte anos, a mesma leitura serviria para aliviar, pois o valor maior cabe justamente a quem já os ultrapassou. Por fim, resume a posição de Rabi Eliezer: os três limites etários — cinco, vinte e sessenta anos — só se completam quando a pessoa ultrapassa o ano inteiro em mais um mês e um dia.