E eram escravos dos sacerdotes — palavras de Rabi Meir. Rabi Yossi diz: as famílias da Casa de Pegarim e da Casa de Tsipraia, e de Emaus, davam suas filhas em casamento ao sacerdócio. Rabi Chananiá ben Antignos diz: eram levitas.
— Esta mishná continua diretamente o assunto da anterior, discutindo quem eram os músicos que tocavam os instrumentos — harpas, flautas e afins — que acompanhavam o canto dos levitas no Templo. As três opiniões divergem sobre um ponto de princípio: se subir à plataforma do canto (o duchan) confere, a quem sobe, o reconhecimento de linhagem pura o suficiente para casar com uma família sacerdotal, ou o direito ao dízimo reservado aos levitas. Rabi Meir sustenta que subir ao duchan para tocar instrumento não confere nenhum desses dois privilégios — por isso, para ele, tanto faz que os instrumentistas fossem escravos dos sacerdotes, pois sua função ali era apenas acompanhar musicalmente o canto, que é o cerne verdadeiro do serviço, sendo os instrumentos meros embelezadores da voz. Rabi Yossi discorda: subir ao duchan confere status de linhagem pura, e por isso os instrumentistas certamente pertenciam a famílias israelitas de pureza genealógica comprovada — ao ponto de os próprios sacerdotes desposarem suas filhas. Rabi Chananiá ben Antignos, por sua vez, sustenta que subir ao duchan confere o direito ao dízimo levítico, e conclui, por isso, que os instrumentistas eram levitas propriamente ditos. Todos concordam, porém, que o canto vocal em si — o elemento central do serviço musical — era realizado exclusivamente por levitas.
Rambam resume a lógica de cada opinião: Rabi Meir permite que os instrumentistas fossem escravos porque, para ele, subir ao duchan não confere nem reconhecimento de linhagem pura nem direito ao dízimo. Rabi Yossi discorda, pois entende que subir ao duchan confere reconhecimento de linhagem pura — por isso, para ele, não podiam ser escravos. E Rabi Chananiá ben Antignos entende que confere o direito ao dízimo — por isso conclui que eram levitas. Rambam conclui que todos concordam que o canto vocal é função exclusiva dos levitas, derivando isso do versículo “e ele servirá em nome do Eterno, seu Deus”: que serviço é esse que se faz “em nome do Eterno”? Diga-se que é o canto. E a halachá segue a opinião de Rabi Yossi.
Bartenura esclarece que a discussão se refere especificamente aos que tocavam a flauta e demais instrumentos, e não aos que cantavam. As famílias de “Bet Pegarim” e “Bet Tsipraia”, de Emaus, eram famílias de linhagem reconhecida, ao ponto de os próprios sacerdotes desposarem suas filhas — e Rabi Yossi sustenta que, por subir ao duchan conferir status de linhagem, esses instrumentistas certamente vinham de famílias assim comprovadas, e não seriam autorizados a tocar se não o fossem. Bartenura confirma que a disputa se limita a quem toca instrumentos musicais: quanto ao canto pela boca, todos concordam que só levitas o realizam sobre o sacrifício, como está escrito a respeito dos levitas “e ele servirá em nome do Eterno, seu Deus” — e a halachá segue Rabi Yossi.
Rashi identifica que a disputa da mishná se refere àqueles que tocavam a flauta — e não aos que cantavam. “Bet Pegarim” e “Bet Tsipraia” são nomes de famílias, e “Emaus” é o nome de um lugar. Explica que os sacerdotes desposavam as filhas dessas famílias precisamente porque eram israelitas de linhagem reconhecida — o que, segundo Rabi Yossi, prova que também os homens dessas famílias, ao subirem ao duchan para tocar, eram identificados como portadores dessa mesma pureza genealógica.
Continuando a discussão, Rashi explica que mesmo Rabi Yossi — que sustenta serem os instrumentistas israelitas de linhagem pura, e não levitas — concorda que o cerne do serviço musical é o canto vocal, e os instrumentos servem apenas para adornar essa voz. Sobre a expressão “em nome do Eterno”, explica que se refere ao ato de mencionar o nome do Céu em canto — e que ninguém canta senão a partir da alegria e do bem-estar do coração, como está escrito: “eis que meus servos cantarão de alegria de coração”.