Seder Kodashim · Massechet Arachin · Perek Bet · Mishná 3 de 6

As trombetas, as harpas e as flautas do Templo

אֵין פּוֹחֲתִין מֵעֶשְׂרִים וְאַחַת תְּקִיעוֹת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Os toques diários de trombeta, o número de harpas e flautas, os doze dias do ano em que a flauta toca diante do altar

Não se reduz a menos de vinte e uma toques no Templo, e não se acrescenta a mais de quarenta e oito. Não se reduz a menos de duas harpas, e não se acrescenta a mais de seis. Não se reduz a menos de duas flautas, e não se acrescenta a mais de doze. E em doze dias do ano a flauta toca diante do altar: no abate do primeiro sacrifício pascal, e no abate do segundo sacrifício pascal, e no primeiro dia de festa de Pessach, e no dia de festa de Atzeret, e nos oito dias da festa. E não se tocava com cano de cobre, senão com cano de junco, porque seu som é agradável. E não se concluía senão com um único cano, porque ele conclui suavemente.

— Esta mishná descreve a orquestra do Templo. O piso de vinte e uma toques diários corresponde às três séries de sete toques — para a abertura dos portões pela manhã, para o sacrifício perpétuo da manhã, e para o sacrifício perpétuo da tarde —, número que pode chegar a quarenta e oito em ocasiões excepcionais, como a véspera de Pessach caindo em sábado. As nevalim, harpas de dez cordas, nunca são menos de duas nem mais de seis; e os chalilim, as flautas duplas, nunca menos de duas nem mais de doze — correspondendo aos doze dias do ano em que a flauta soa diante do altar: no abate dos dois sacrifícios pascais (o de catorze de Nissan e o “segundo Pessach” de catorze de Iyar), no primeiro dia de Pessach, na festa de Atzeret (Shavuot), e em cada um dos oito dias de Sucot. A mishná ainda observa dois detalhes técnicos sobre o instrumento: preferia-se a flauta feita de cana ou junco à feita de metal, por seu som mais agradável e suave; e, ao concluir a peça musical, os demais instrumentos se calavam enquanto um único cano prolongava a nota final, produzindo um efeito mais harmonioso do que se todos terminassem juntos.

אֵין פּוֹחֲתִין מֵעֶשְׂרִים וְאַחַת תְּקִיעוֹת בַּמִּקְדָּשׁ וְלֹא מוֹסִיפִין עַל אַרְבָּעִים וּשְׁמֹנֶה. אֵין פּוֹחֲתִין מִשְּׁנֵי נְבָלִין וְלֹא מוֹסִיפִין עַל שִׁשָּׁה. אֵין פּוֹחֲתִין מִשְּׁנֵי חֲלִילִין וְלֹא מוֹסִיפִין עַל שְׁנֵים עָשָׂר. וּבִשְׁנֵים עָשָׂר יוֹם בַּשָּׁנָה הֶחָלִיל מַכֶּה לִפְנֵי הַמִּזְבֵּחַ. בִּשְׁחִיטַת פֶּסַח רִאשׁוֹן, וּבִשְׁחִיטַת פֶּסַח שֵׁנִי, וּבְיוֹם טוֹב רִאשׁוֹן שֶׁל פֶּסַח, וּבְיוֹם טוֹב שֶׁל עֲצֶרֶת, וּבִשְׁמוֹנַת יְמֵי הֶחָג, וְלֹא הָיָה מַכֶּה בְּאַבּוּב שֶׁל נְחשֶׁת אֶלָּא בְּאַבּוּב שֶׁל קָנֶה, מִפְּנֵי שֶׁקּוֹלוֹ עָרֵב. וְלֹא הָיָה מַחֲלִיק אֶלָּא בְאַבּוּב יְחִידִי, מִפְּנֵי שֶׁהוּא מַחֲלִיק יָפֶה:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Bemidbar 10:10
וּבְיוֹם שִׂמְחַתְכֶם וּבְמוֹעֲדֵיכֶם וּבְרָאשֵׁי חׇדְשֵׁיכֶם וּתְקַעְתֶּם בַּחֲצֹצְרֹת עַל עֹלֹתֵיכֶם וְעַל זִבְחֵי שַׁלְמֵיכֶם וְהָיוּ לָכֶם לְזִכָּרוֹן לִפְנֵי אֱלֹהֵיכֶם אֲנִי יְהֹוָה אֱלֹהֵיכֶם׃
“E nos dias de vossa alegria, e em vossas festas determinadas, e nas cabeças de vossos meses, tocareis as trombetas sobre vossas ofertas queimadas e sobre os sacrifícios de vossas ofertas de paz; e elas vos serão por lembrança diante de vosso Deus: Eu sou o Eterno, vosso Deus.”
Este versículo é a base bíblica geral do toque de trombetas no Templo em dias festivos e sacrifícios. Rambam explica que a nevel é um instrumento de cordas em forma de odre, e o chalil — a flauta — é conhecido por todos; o abuv é o cano fino na extremidade da flauta. Sobre os doze dias em que a flauta soa diante do altar, Bartenura observa que se trata especificamente do chalil shel korban, a flauta que acompanha a oferenda e que, por isso, suplanta o sábado — distinta da flauta da cerimônia da libação de água em Sucot, que não suplanta nem sábado nem festa.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Arachin 2:3
אין פוחתין מעשרים ואחת תקיעות במקדש כו': נבל כלי כדמות נאד... וחליל הוא כלי מפורסם אצל הכל נקרא בערב מזמאר"י: ואבוב הוא קנה של חליל... ואבוב יחידי ר"ל שיש לו נקב אחד... אבל מה שיעלה בידינו מן הגמרא שאבוב וחלול דבר אחד וזה החלול הנזכר בכאן הוא חליל של קרבן שדוחה את השבת אבל חליל של בית השואבה אינו דוחה לא שבת ולא יו"ט כמו שבארנו בסוף מסכת סוכה:

Rambam descreve o nevel como um instrumento de cordas em forma de odre, e esclarece que abuv designa o cano fino da flauta. Nota que, segundo o que se conclui da Guemará, abuv e chalil são, na prática, o mesmo instrumento, e que a flauta mencionada nesta mishná é especificamente a flauta que acompanha o sacrifício — que por isso suplanta o sábado —, diferente da flauta tocada na cerimônia da libação de água durante Sucot, que não suplanta nem sábado nem dia de festa, como já explicado ao final do tratado de Sucá.

Bartenura · Arachin 2:3
וְלֹא מוֹסִיפִים עַל אַרְבָּעִים וּשְׁמֹנֶה. לָאו דַּוְקָא, דְּזִמְנִין דְּמוֹסִיפִין עַד שִׁבְעָה וַחֲמִשִּׁים תְּקִיעוֹת, כְּשֶׁחָל עֶרֶב פֶּסַח לִהְיוֹת בְּשַׁבָּת... שֶׁקּוֹלוֹ עָרֵב. כְּשֶׁהוּא שֶׁל קָנֶה, יוֹתֵר מִשֶּׁל נְחֹשֶׁת. וְדַוְקָא חָלִיל שֶׁמַּכֶּה לִפְנֵי הַמִּזְבֵּחַ עַל הַקָּרְבָּן הוּא שֶׁדּוֹחֶה אֶת הַשַּׁבָּת...

Bartenura observa que o limite de quarenta e oito toques não é absoluto: quando a véspera de Pessach cai em sábado, chega-se a acrescentar até cinquenta e sete toques, mas por ser um caso raro a mishná não o contabiliza. Sobre a flauta, esclarece que seu som é mais agradável quando feita de cana do que de cobre, e que apenas a flauta que soa diante do altar sobre o sacrifício suplanta o sábado — e com mais razão a festa —, ao passo que a flauta da cerimônia da libação de água em Sucot não suplanta nem um nem outra. Explica ainda o sentido de “concluir com um único cano”: ao chegar ao fim da melodia, um dos tocadores de flauta prolongava seu som depois que os demais já haviam cessado, produzindo um final mais agradável do que se todos terminassem juntos.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Arachin 10a, sobre a Guemará desta mishná
משני נבלים — לשני לוים: ולא מוסיפין על ששה — לא אתפרש טעמא: משני חלילין — חליל קלמייל"ש בלע"ז: ולא מוסיפין על י"ב — אם היו רוצין היו עושין י"ב כנגד י"ב ימים שהחליל מכה לפני המזבח: מכה — שהיו נקבים בחליל ומכה באצבעו על הנקב להנעים את הקול... ולא היה מחלק — מסיים אלא באבוב יחידי, כשהיה מגיע לסיום הנעימה היה האחד מן החלילים מאריך לאחר שתיקת האחר שזהו חילוק יפה יותר משיסיימו שניהם כאחד:

Rashi explica que as duas harpas mínimas correspondem a dois levitas, e observa que a razão para o limite de seis não é dada explicitamente na Guemará. Sobre as flautas, esclarece que o número máximo de doze corresponde exatamente aos doze dias do ano em que a flauta toca diante do altar. O verbo “bater” (makê) usado pela mishná se explica porque a flauta era perfurada com furos, e o músico “batia” com o dedo sobre cada furo para produzir a melodia. Sobre a conclusão com um único cano, Rashi detalha: ao chegar ao final da peça, um dos flautistas prolongava sua nota depois que os demais silenciavam, criando uma transição mais bela entre uma melodia e outra do que se todos terminassem simultaneamente.